Participando da Raiz e da Seiva da Oliveira – IX – Ieshua, um hassideu galileu?


 

Neste ponto devemos levar também em conta a afirmação de autoria do estudioso judeu Geza Vermes segundo o qual:

“…a pessoa de Jesus deve ser vista como parte do judaísmo carismático do século I d.C. e como exemplo máximo dos hassideus ou devotos”.[1]

Jesus e a Torá

            Sua argumentação é detalhada e documentada. Uma descrição anterior dos hassideus feita por outro estudioso, Shamuel Safrai será suficiente para ilustrar os extraordinários paralelos existentes entre eles e Ieshua:

“um ponto importante na doutrina (dos hassideus) é a importância atribuída às poucas obras na vida pública (redenção de cativos, abertura de poços para uso de viajantes, consolação de enlutados, restauração da propriedade perdida, esmolas, etc.)… Os hassideus confiam em Deus e na providência divina, têm certeza de que não é a serpente, mas o pecado que é fatal, e se comportam nos atos concretos de acordo com essa convicção, com toda fé em Deus, mesmo nos casos onde esse comportamento vai de encontro à regra aceita. Sua confiança na providência e na salvação resultante desse comportamento concreto, e até mesmo nos milagres que lhes seriam revelados está presente nas numerosas anedotas contadas a respeito de Honi, o traçador de círculos, do rabi Hanina ben Dosa, de Phineas ben Ya’ir e de outros hassideus. Eles apelam para Deus como se lhe ordenassem que fizesse chover (ao contrário de Ieshua, que acalma a tempestade de Mc 4:49)… Entre todas as austeridades praticadas pelos hassideus, não há traços de halakhah no tocante à pureza ritual, um assunto que rompia todos os limites no judaísmo. De fato, a única tradição que diz respeito a assuntos de pureza os acusa de falha, numa passagem do Pentateuco claramente explicada, a qual é uma das principais fontes de regras de pureza ritual (Ieshua também foi frequentemente acusado de violar as leis de pureza ritual).[2]

enxerto 5

            O que dizer então do relacionamento desses hassideus inclusive Ieshua, se, de fato, como parece, pode ser chamado um deles – como os fariseus? Safrai faz uma especulação interessante, que consequentemente coloca os hassideus no interior – embora um tanto apreensivamente – da sociedade dos fariseus e dos rabis (lembrando que Ieshua era chamado “rabi”) os quais desenvolveram as suas próprias tradições literárias e interpretações da Lei halakhah, como Ieshua:

“Quanto ao uso do conceito de “hassid”…à medida que o tempo ia passando, e talvez já desde o final do período hasmoneu, (63 a.C.) esse conceito ficou restrito a certo grupo do interior da coletividade dos fariseus e rabis; esse grupo possuía uma tradição literária e suas próprias práticas de halakhot”.[3]

            Reforçando o posicionamento de Vermes, Philip Sigal fala de Ieshua não apenas como um proto-rabi, mas também como figura carismática, hassídica; Ieshua era hakham (sábio, filósofo, termo que Sigal identifica como proto-rabi), um proto-rabi que se tornou espiritualmente convertido e se transformou em figura carismática e semelhante a profeta. Como profeta, pregava de maneira desassombrada sobre assuntos aterradores, mas assim como o hakham ensinava halakhah juntamente com a sua pregação hagádica. Nesta função, empregava a liberdade de interpretação, a autoridade e a metodologia independentes que constituíam o estilo do proto-rabinismo.[4]

hassidico coral

            Assim, talvez a melhor maneira de situar Ieshua no contexto do judaísmo da sua época, seja como mestre (rabi) viandante e que fazia milagres, um sábio (hakham) da Galileia, hassid galileu, que sob muitos aspectos, se assemelhava a Hillel (cujos ensinamentos acabaram mais tarde prevalecendo sobre os de Shammai no judaísmo rabínico) que alguns estudiosos iriam considerar como alguém que teve um relacionamento muito próximo com os fariseus aos quais porém ele criticava, sendo por sua vez criticado por eles. Sigal o considerou hassid galileu, hakham e proto-rabino, o qual, como Iohanam ben Zakkai antes e depois do ano 70 d.C., criticou duramente os pharisaioi, os perushim (que Sigal não considerava predecessores do judaísmo rabínico, muito embora por vezes um emprego impreciso do termo pharisaioi nos evangelhos e em Josefo pudesse incluir alguns proto-rabinos). Estou convencido de que Sigal nos fornece a mais exata e abrangente descrição do lugar de Ieshua na vida judaica do seu tempo.

 

Autor: Leonard Swidler, Ieshua – Jesus Histórico, EP, 1993, págs. 84-86.

[1] Vermes, Jesus the Jew, p. 79.

[2] S. Safrai, “Teaching of Pietists in Mishnaic Literature”, The Journal of Jewish Studies, XVI, 1-2, 1965, pp. 32s.

[3] Idem, p. 33.

[4] Sigal, The Halakhah of Jesus, p. 154.

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