As Setenta Semanas de Daniel 9: Um Estudo Exegético – 1 – Problemas de Exegese


 

Os problemas em relação a exegese de Daniel 9:24-27 são de dois tipos. Eles têm a ver com (1) a dificuldade do texto e (2) a multiplicidade de interpretações surgidas.

Acerca do primeiro problema, a profundidade da passagem, a extrema singularidade de seus termos e expressões e a complexidade de sua sintaxe constituem obstáculos sérios. Além disso, as importantes divergências entre as duas versões básicas como aparecem na LXX [Septuaginta] e em Teodócio não nos permitem chegar a quaisquer conclusões definitivas em relação ao texto. A versão de Teodócio está, aqui, mais clara e seu texto tende a dar suporte ao TM [Texto Massorético]; mesmo onde diverge desse último (e.g., na pontuação em relação a contagem das semanas), é a única oposição ao TM. No que diz respeito a Peshitta, parece ter sido revisada baseando-se na LXX em muitos pontos e eu hesito, portanto, em considerá-la como uma testemunha independente como a LXX. (Em todo caso, o texto aparenta estar alterado nesta passagem em particular da Peshitta, pois podemos notar diferenças tanto da LXX quanto do TM).

Acerca do segundo tipo de problema, a variedade de aplicações teológicas pode ser, a grosso modo, dividida em três categorias:[1]

  1. A Interpretação Simbólica. Primariamente, por causa da referência na passagem, os números, em particular, 7, 3, 70, etc., a profecia tem sido vista por alguns eruditos como sendo um mero poema, concernente, principalmente, com uma Heilsgeschichtedividida em três passos. A primeira parte (7 semanas[2]) começa com a vinda de Ciro (538 A.E.C.) e vai até o primeiro advento; a segunda parte (62 semanas) vai até o segundo advento e cobre a história da igreja visível; e a última parte (1 semana) cobre o período de tribulação e está relacionado à igreja invisível.
  2. A Interpretação Dispensacionalista. Teólogos dispensacionalistas têm, também, visto a profecia como uma história de salvação dividida em três partes. A primeira parte inclui as 69 semanas que são compreendidas como semanas de anos. Algum interpretam isto como significando um período de 476 anos que vão do segundo decreto de Artaxerxes em 445 A.E.C. até 32 E.C., alegado como o ano da entrada triunfal de Jesus em Jerusalém e o ano da Sua morte[3]. Outros, com um ponto de vista diferente, sugerem um período de 483 terminando em 26 E.C., a data aceita como a do batismo de Jesus[4]. Nesse caso, a última semana tem sido realocada para tempo do fim em conjunto com o segundo advento de Cristo. A era da igreja vem entre os dois períodos. 
  3. A Interpretação Crítico-Histórica. Defensores desta posição sustentam que as profecias de Daniel descrevem os eventos do tempo de Antíoco Epifanes e foram escritos após os eventos como um registro, não como uma predição. O intervalo de tempo coberto por esta “profecia” é reconhecido em termos de semanas de anos e está dividido em três partes. Um exemplo típico da cronologia nesta visão é que as primeiras 7 semanas (49 anos) começam com a queda de Jerusalém (587/586 A.E.C.) e vão até a queda da Babilônia no decreto do “Messias” Ciro (539/538 A.E.C.); então, seguem-se as 62 semanas (434 anos), que vão até o assassinato de Onias III (171/170 A.E.C.); e finalmente, vem a última semana (7 anos) que é concluída pela rededicação do Templo profanado por Antíoco Epifanes no meio desta semana.
  4. A Interpretação Histórico-Messiânica. Esta é considerada como a interpretação tradicional cristã. Ela tem sido defendida pelos pais da igreja e é, ainda hoje, adotada por eruditos protestantes e católicos[5]. As primeiras duas divisões das setenta semanas (7+62) começam no sétimo ano de Artaxerxes e termina no ano do batismo de Jesus. A última semana é dividida em duas partes, a primeira terminando na crucifixão de Cristo e a última no apedrejamento de Estevão. (Datas fornecidas por alguns eruditos para esses eventos são 457 A.E.C. e 27, 31 e 34 E.C. respectivamente).

70

Esta situação de um texto complicado, acrescentado por uma diversidade de interpretações, tem me levado a uma nova investigação que utiliza avanços recentes no estudo das formas literárias antigas. Nesta investigação, eu presto atenção na informação literária do texto em si.

Na presente análise, procederei de dentro do texto, considerando, primeiro, o arranjo ou a situação contextual do livro de Daniel como um todo, assim como o cap. 9. Em seguida, analisarei a estrutura literária intencionando seguir o curso do discurso e compreender as nuances específicas de pensamento. Então, mencionarei e discutirei alguns dos termos e expressões mais significantes. E finalmente, tentarei descrever algumas das dimensões teológicas desta passagem das 70 semanas de Daniel 9. Nesse meio tempo, eu, ocasionalmente, farei alusão a interpretações que mencionei anteriormente, intencionando indicar o quanto estão elas correlacionadas com a exegese que a análise textual nos permite trabalhar; ainda que essas referências sejam, normalmente, apenas incidentais, permitindo ao leitor traçar inferências específicas.

Jacques Doukhan é Professor de Hebraico, Professor de Exegese do Tanach e Diretor do Instituto de Estudos Judaicos- Cristãos na Andrews University. Autor de diversos livros como “The Mystery of Israel” e “On the Way to Emmaus”, também escreveu a Lição de Eclesiastes da Escola Sabatina do 1º Trimestre de 2015.

Tradução: Hugo Martins.

http://estudosadventistas.com.br/ 

 

 

 

[1] Para um sumário dessas interpretações, ver I. A. Montgomery, “A Commentary on Daniel,” KC, pp. 390-401; and G. F. Hasel, “The Seventy Weeks of Daniel 9: 24-27,” Ministry, maio de 1976, pp. ID-21D.

[2] Então, baseia-se na LXX, que usa o termo hebdomades –compreendido como apontando ao simbolismo do número 7 e não a uma semana real– e, também, em razão do uso da forma do masculino plural de šābu‘im, em vez do feminino šābu‘ōt (o plural regular para “semanas”).

[3] Ver R. Anderson, The Coming Prince (London, l895), pp. 119-1 22.

[4] Ver L. Wood, A Commentary on Daniel (Grand Rapids, Mich., 1976), p. 253.

[5] Ver a lista de Hasel, p. 20D, nn. 126-132.

6 comentários sobre “As Setenta Semanas de Daniel 9: Um Estudo Exegético – 1 – Problemas de Exegese

    • Todo bom interprete parte do principio de que o sentido original que o autor quis transmitir deve ser respeitado e entendido literalmente, a menos que o próprio texto dê provas de que trata-se de um simbolismo ou linguagem figurada. Deve-se levar em conta, também, o que o contexto geral das Escrituras diz a respeito do assunto.

      Ao analisarmos o texto de Gênesis 1 encontramos os dias da Criação dividido em “tarde” e “manhã”, isto é, noite e dia.

      Encontramos também um quiasmo hebraico que mostra que nos dias anteriores tudo fora criado para suportar a vida, um completando o outro com exceção do sétimo dia, o sábado, que foi estabelecido em comemoração a Criação e adoração ao Criador:

      7º Dia
      sábado/adoração

      3º dia ———————————————— 6º dia
      terra seca e vegetação ——————————- animais e seres humanos

      2º dia ———————————————— 5º dia
      céu e mares——————————————– pássaros e peixes

      1º dia ———————————————— 4º dia
      luz/trevas ——————————————— sol, lua e estrelas.

      Encontramos também os sete princípios morais de um mundo perfeito criados durante os sete dias da Criação:

      domínio humano sobre a natureza ————————- Gên. 01:26
      núcleo familiar composto por homem e mulher ————- Gên. 01:27
      estilo de vida saudável ——————————— Gên. 01:29
      adoração e comunhão especial (sábado) ——————- Gên. 02:01-03
      empreendedorismo/trabalho ——————————- Gên. 02:15
      livre arbítrio —————————————— Gên. 02:16,17
      vida em comunidade ————————————– Gên. 02:18

      Partimos do princípio de que tudo o que foi criado antes do pecado era perfeito, e o que é perfeito não precisa mudar, note que esses princípios morais foram totalmente deturpados após a entrada do pecado, cabe-nos voltar as origens através de uma vida de acordo e finalmente na restauração e regeneração do mundo conforme Apocalipse 21 e 22. O mundo perfeito será devolvido a humanidade redimida.

      O salmista diz:

      “…o céus por sua palavra se fizeram, e, pelo sopro de sua boca, o exército deles… pois ele falou, e tudo se fez; ele ordenou, e tudo passou a existir.” Salmo 33:06, 09.

      Por estes e outros motivos cremos em dias literais na Criação, além do mais, para se crer em longos períodos de tempo exigiria um tipo de evolucionismo teísta em que a morte seria necessária para uma evolução das espécies, assim, a morte não seria o resultado do pecado e o Messias não precisaria vir para nos livrar dela, a morte também seria Criação de Deus. As implicações em não se crer em dias literais da Criação são profundas e alteram a compreensão geral do problema do pecado e consequentemente da salvação/yeshua’ah.

      Leia o livro: EM SEIS DIAS – Por Que 50 Cientistas Decidiram Aceitar a Criação

      visite o site:

      http://www.scb.org.br/scb/index.php/revisoes-bibliograficas/93-editados-pela-scb/2087-em-seis-dias-por-que-50-cientistas-decidiram-aceitar-a-criacao

      Por que alguns homens de ciência, muito bem preparados, ainda acreditam na Criação? Por que preferiram não acreditar na evolução darwinista ou mesmo na evolução teísta, na qual uma inteligência todo-poderosa é vista como direcionando os processos evolutivos? Poderiam cientistas acreditar que a vida na Terra tem provavelmente menos de 10.000 anos de idade? Como eles lidariam com as evidências do registro fóssil e as eras sugeridas pela datação radiométrica de rochas que contariam milhões ou bilhões de anos?

      Os ensaios apresentados nesse livro levantam questões que são debatidas acaloradamente entre cientistas e educadores, e oferecem uma perspectiva diferente em nossa abordagem para a educação científica.

      No livro, 50 cientistas explicam suas razões para a escolha dessa perspectiva criacionista. Todos eles têm doutorado obtido em universidades públicas de prestígio na Austrália, EUA, Reino Unido, Canadá, África do Sul ou Alemanha. São professores universitários e pesquisadores, geólogos, zoólogos, biólogos, botânicos, físicos, químicos, matemáticos, pesquisadores biomédicos e engenheiros.

      Pela primeira vez todas essas áreas estão sendo cobertas simultaneamente em uma só publicação com os testemunhos pessoais de cientistas criacionistas.

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  1. Boa tarde,Wladimir
    a resposta estä boa e de acordo,porque os deuses na poderiam ir descansar mil anos,foi um dia tal como è retratado nas escrituras.
    se isto foi ou nao colaborado por cientista,nao è importante,nao sao sacerdotes.
    os cientistas teem muito pouco conhecimento destas coisas,atè porque nao acreditam nas escrituras,nao devem e ter sido em conta,nao devem de ser considerados importantes em detreimento de alguèm que seja crente

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  2. Boa noite,Wladimir
    A queda faz parte do plano de salvacao,sem queda nao è possìvel haver crescimento,eles nao sabiam que estavam em um lugar perfeito,porque ainda nao tinham conhecimento de que houvesse outra coisa,tinham que aprender,por isso è que foi necessàrio que lucifèr os tentasse para que eles usassem o seu livre arbitrio,entao foi escolhido o plano do sacrifìcio,tinham que aprender sofrendo,por isso è que aqueles que nao entendem o plano se lamentam muito em vez de se regojizarem por aquilo que os nossos primeiros paìs fizeram

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    • Schieder, como você pode crer nisso!?! A Criação de Deus é perfeita. Tudo o que Deus faz é perfeito e não há necessidade do mal, seria como dizer que Deus preparou o mal, a morte, a guerra, as doenças, o orgulho, a desarmonia etc., somente para o ser humano aprender as lições da experiência. A queda não faz parte do plano de salvação, o plano de salvação é para nos salvar da queda e não para nos salvar do plano de Deus e criar a queda.

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