As Setenta Semanas de Daniel 9: Um Estudo Exegético – 3 – Estrutura Literária


 

 De um ponto de vista literário, é de se maravilhar pelo fato que há, nesta passagem, uma oscilação entre dois polos –a saber: (1) o povo e seus pecados; e (2) Jerusalém com seu santuário. A natureza dupla desta profecia encontra-se evidente no prelúdio (v. 24), assim como no corpo e na visão em si (vv. 25-27).

O Prelúdio

A natureza dual do sujeito desta profecia está sugerida no prelúdio por meio das seguintes combinações como determinadas por seu paralelismo:

Setenta semanas estão determinadas[1]

Sobre o teu povo

‘al-‘ammeā                           (2 termos)

 

sobre a tua santa cidade

       we‘a1 ‘ir qodšekä                   (3 termos)

(1)   para fazer cessar a transgressão

        lekallë` happeša‘               (2 termos)

 

(1) para trazer a justiça eterna[2]

       ûlehāî eeq ‘ōlāmin            (3 termos)

(2) dar fim (tm) aos pecados

        ûlehätēm aṭṭāô                    (2 termos)

 

(2)   para selar (tm) a visão e a profecia

       welātōm hāzôn[3]    wenāî        (3 termos)

 

(3) para expiar a iniqüidade

       ûlehäppēr ‘āwōn                    (2 termos)

 

(3)   para ungir o Santo dos Santos

welimšōa qōeš qoāšîm   (3 termos)

Os dois temas do poema estão primeiramente destacado: “sobre o teu povo e sobre a tua santa cidade.” As primeiras três estrofes encontram-se no ritmo de dois termos cada[4]. A reflexão trata a respeito do pecado e do perdão, noções que Daniel relacionara ao povo (vv. 5, 7, 17). Então, os próximos três versos desenvolvem-se em ritmo de três termos cada. A reflexão, aqui, trata a respeito do tema da santa cidade, e, portanto do tema do santuário; a reflexão é cúltica, envolvendo ideias específicas de justiça eterna[5], unção do Santo dos Santos, etc.

Pode-se ver que há um paralelismo sintético entre as próprias estrofes, o qual o segundo elemento completa o primeiro: a primeira parte tem uma conotação negativa; o segundo tem uma conotação positiva. Portanto:

  1. “Para fazer cessar a transgressão” está em paralelismo com “para trazer a justiça eterna.” A transgressão é cessada ou “encerrada,” e segue-se ali, uma justiça eterna.
  2. “Dar fim [tm] aos pecados” está em paralelismo com “para selar [tm] a visão e a profecia,” com tmsendo comum às duas estrofes[6].[ Portanto, o selar da profecia –i.e., seu cumprimento– está relacionado com o selo e os pecados –i.e., seu perdão.
  3. “Para expiar a iniquidade” está em paralelismo com ungir um Santo dos Santos. Aqui, a relação não está evidente de início. Além do mais, a expressão “Santo dos Santos” é obscura. Refere-se ao lugar Santíssimo ou a uma pessoa? A posição desta estrofe –i.e., junto a Jerusalém/Santuário– exclui a última possibilidade. Por outro lado, a ausência do artigo antes de “Santo dos Santos” não apoia a interpretação de “lugar Santíssimo” (no Santuário), que ocorre regularmente com um artigo no AT. Ademias, podem designar os objetos sagrados que pertencem ao serviço do Santuário ou ao Templo inteiro[7]. Entretanto, este uso da expressão “Santo dos Santos” não nos ajuda a entendermos o significado intencionado no paralelismo presente.

É muito significante que a mesma associação dessas três noções –expiação (kpr), unção () e Santo dos Santos (ēš qōāšîm)– encontra-se em Ex 29:36-37, a única outra referência bíblica que usa essas três expressões em conjunto. Esta passagem lida com a consagração de Aarão e seus filhos ao sumo sacerdócio (a mais antiga consagração de um Israelita ao sacerdócio). É significante que esta cerimônia consistia de uma expiação de um “Santo dos Santos” que fora marcada pelo número 7; a cerimônia era para durar 7 dias.

A acumulação de modelos e terminologia em comum entre a profecia das 70 semanas e esta passagem em Êxodo é, de fato, a mais intrigante. Podemos, agora, ver o relacionamento expresso no paralelismo entre a expiação e a unção de um “Santo dos Santos,” i.e., a consagração de um novo sumo sacerdócio.

A Visão

Em Daniel 9:25, o anjo continua: “considera, pois, a coisa e entende a visão.” Em hebraico, esses dois termos enfatizam a importância da passagem que se segue e ele apresentam a explicação. De acordo com o mesmo princípio de paralelismo, a mensagem é desenvolvida em três frases. Os próximos três versos podem ser organizados como no Diagrama 1 para que possamos compreender seu caráter simétrico.

O mesmo cenário dual encontra-se, também presente aqui. Mas, a extensão do tema “povo” está descrito na figura de um Messias, enquanto na linha do tema “Jerusalém,” o destino histórico da cidade é descrito em um detalhe mais preciso como para seu fim e fim do seu santuário.

A distribuição descrita aqui não é artificial, mas requer-se em razão da dualidade do momento que cruza o capítulo inteiro: (1) povo-pecado e (2) Jerusalém-Santuário. Justifica-se, também, identificando cada estrofe que se dirige a sua correspondente por meio de uma expressão comum: assim, as estrofes dizem respeito a Jerusalém (B1, B2, B3) que têm o termo r em comum, ao passo que as 3 estrofes dizem respeito ao Messias (A1, A2, A3) se referem, regularmente, a um tempo expresso em termos de semanas. Esta regularidade em usar uma expressão-chave em comum, três vezes em cada lado da descrição profética, indica, fortemente, que as 62 semanas (de A) dever estar conexas ao Messias em vez de Jerusalém. Portanto, a divisão deveria tomar lugar após as 62 semanas, não antes como o TM tem sugerido, mas, em vez disso, no modo como tem sido marcada na LXX, na Peshitta[8] e em Qumran[9].

Diagrama 1. Estrutura Quiástica em Daniel 9:25-27.

A1 (v. 25a) edificação da cidade

Desde a saída da ordem para restaurar e para edificar Jerusalém[10], até a “o”[11] Ungido, ao Príncipe, [haverá] 7 semanas e 62 semanas;

B1 (v. 25b) edificação da cidade

as praças e as circunvalações (rs) se reedificarão, mas em tempos angustiosos.

A2 (v. 26b) a destruição do Messias Príncipe

 

Depois das 62 semanas, será morto “o” Ungido e já não estará[12];

 

 

B2 (v. 26b) destruição da cidade e do santuário

 

e o povo de um príncipe[13] que há de vir[14]destruirá[15] a cidade e o santuário. O seu fim será num dilúvio, e até ao fim [do decreto (rs)] haverá guerra; desolações são determinadas.

 

A3 (v. 27a) o cessar do sacrifício de da oferta

 

Ele fará firme[16] aliança com muitos[17], por uma semana; na metade[18] da semana, fará cessar o sacrifício e a oferta de manjares[19];

B3 (v. 27b) destruição do povo do Príncipe

 

sobre a asa das abominações virá o assolador, até que a destruição, que está determinada (rs), se derrame sobre ele.

Os dois temas do Messias e de Jerusalém são usados alternadamente, dando a esta seção sua composição interligada:

A1 Messias

B1 Jerusalém

A2 Messias

B2 Jerusalém

A3 Messias (aqui implícito)[20]

B3 Jerusalém

Podemos notar, também, o belo quiasmo temático entre os membros. Esta estrutura aponta a dialética destacável em termos de construção-destruição, como indicado no Diagrama 2:

Diagrama 2. A Dialética “Construção-destruição” em Daniel 9:25-27.

            O primeiro quiasmo:

A1                   Construção

māšîa nāî

(Messias Príncipe)

 

 

B1                    Construção

 

A2                   Destruição B2                   Destruição

                        ‘am nāî

(povo do príncipe)

            O segundo quiasmo:

A2                   Destruição

                        māšîa nāî

B2                   Destruição
A3                         Destruição  

B3                   Destruição

                        ‘am nāî

O profeta queria comunicar sua mensagem por meio da beleza da estrutura poética. Martin Buber está certo em notar que em hebraico, aqui, o Wie (“Como,”) e o Was (“O que”) estão confusos[21].

Jacques Doukhan é Professor de Hebraico, Professor de Exegese do Tanach e Diretor do Instituto de Estudos Judaicos- Cristãos na Andrews University. Autor de diversos livros como “The Mystery of Israel” e “On the Way to Emmaus”, também escreveu a Lição de Eclesiastes da Escola Sabatina do 1º Trimestre de 2015.

Tradução: Hugo Martins.

http://estudosadventistas.com.br/

 

[1] Cp. página acima

[2] A relação “fim-eternidade” deve ser notado.

[3] O termo hāzôn encontra-se, aqui, na mesma perspectiva cúltica como em Daniel 8:13-14. Há este termo encontra-se, de fato, associado com as temáticas significantes de ṣdq (“justiça”), qdš (“santo”), tāmiḏ (“diário”), pš‘ (“pecado”), šmm(“desolação”) que, indubitavelmente, pertence a terminologia do Santuário de Jerusalém.

[4] Nossa observação leva em consideração o número de termos em vez de sua tônica (métrica) por duas razões principais: (1) Por causa da natureza da tônica e o papel que toca na recitação, apenas o termo está correto. (2) A consideração da tônica como um meio de expressão do ritmo hebraico vem da premissa que

estão, principalmente, enraizados na confusão que em uma exposição “primitiva” da poesia que enfatiza o ritmo; isto é, o ritmo precede o pensamento consciente. De fato, na poesia hebraica, termo e significado precedem o ritmo, pois a poesia está acima de qualquer mensagem. Antigo Testamento, “se deve sempre ter em mente que não evidência intrínseca para métrica no hebraico do Antigo Testamento” (R. K. Harrison, Introduction to the Old Testament [Grand Rapids, Mich., 1969], p. 97); cp., também, para a mesma opinião R. C. Culley, “Metrical Analysis of Classical Hebrew Poetry,” Essays on the Ancient Semitic World, ee. J. W. Wevers e D. B. Redford [Toronto,19701, pp. 12-28).

[5] Para a associação entre ṣdq e o santuário, ver especialm. Dn 8:14 and Sl 4:6; Sl 51:21; Sl 132:9; Is 61:3. Esta noção é, também, comumente, associada à cidade de Jerusalém (cp. Is 1:26; e ver F. L. Horton, Jr., The Melchizedek Tradition [London, 1976], p. 42-45).

[6] De fato, o qerê volta-se para a primeira estrofe htm, não ḥtm como encontra-se no texto. O que quer que seja, o significado é uma nuance sutil (“trazer a um fim”) e o jogo de palavras é conservado.

[7] Cp. Ex 29:37; Ez 43:12. A expressão ocorro 39 vezes, sempre em referência ao Tabernáculo ou o Templo como um todo.

[8] O estado dessas fontes nos permitem usá-las unicamente como um recurso e não como um argumento direto (cp. minha Introdução).

[9] Qumran atesta unicamente a exegese dos Essênios e não assegura a existência da pontuação presente (ver “Exhortation”, Damascus Document, MS A, 1: 4-11; cp., também, A. Dupont-Sommer, Les Ecrits esséniens découverts près de la Mer Morte[Paris, 1968], p. 137).

[10] Lidando com a temática de Jerusalém, esta sentença deveria estar classificada de outro modo. E a repetição de seus dois termos “restaurar e construir” em B mostra que pertence, de fato, a mesma fase de ação, portanto, à mesma porção literária. Eu coloquei em A em parênteses para facilitar o entendimento.

[11] Cp. p. 18.

[12] Cp. p. 18-19.

[13] Cp. p. 16.

[14] Eu penso que este uso presente de habbā’ (“a vinda”) tem de ser entendido no sentido em que recebe no capítulo 11. Ali o termo é sempre usado para descrever um exército em agressão, sem nenhuma referência ao futuro. Capítulo 11 usa este verbo dezessete vezes, sempre com essa conotação em particular. Ver especialm. a mesma forma habba’ em Daniel 11:16; também, o uso similar do mesmo verbo no livro de Ezequiel (cp. 1:4; 7:5; 20:29; 30:9; 33:3,6; etc.).

[15] O sujeito de yašbît (“destruir”) é, indubitavelmente, ‘am nagîd (“povo do Príncipe”) à luz de Daniel 8:24, que diz respeito ao mesmo problema; que usa a mesma forma e que tem como seu sujeito não os santos, mas o poder maligno (o chifre pequeno).

[16] O higbîr (“sucesso”) não meramente implica a ideia de força, mas, acima de tudo, implica a ideia de batalha e de vitória (o gibbôr é o herói que tem tido sucesso na guerra). Daniel 11:32-33, que lida com a mesma preocupação, claramente, sugere esta batalha por se opor aos maršî‘ê ḇerîṯ (“aos violadores da aliança”) e o maśkîlê ‘am(“os sábios entre o povo”) que fazem o rabbîm (“muitos”) entender (os dois termosḇērîṯ [“aliança”] e rabbîm são comuns a Daniel 9:7).

[17] Podemos notar, aqui, que o rabbîm tem, em uma passagem messiânica, uma dimensão universal (ver Is 53:1-2). É significante que é usado pelos profetas majoritariamente para povos ou nações em referência a adoração a Deus. Em Daniel 11:2, a conotação de universalidades é clara; neste verso, tanto os bons quanto os maus são incluídos.

[18] Quando ḥaṣî (“no meio”) está no estado construto com um período de tempo (aqui com as semanas), significa, sempre, “no meio” e não “metade” (ver Ex 12:29; Js 10:13; Jz 16:3; Jr 17:11; Sl 102:25; Rt 3:8). O contexto de nossa passagem não sustenta o significado de “metade”. Diz respeito com a ação definida (yašbîṯ  [“fazer cessar”] no imperfeito). Isto é, de acordo com a estrutura, relacionado a yikkārēt(“cortar fora”), implicando a ideia de repentinidade. A natureza desta ação (destruição repentina) aponta, portanto, a um momento específico no tempo (no meio da semana), em vez de uma duração de tempo (metade de uma semana).

[19] O termo yašbîṯ implica um efeito definitivo (cp. Dt 32:26). É significante que este termo é usado majoritariamente para designar uma cessação escatológica (ver, especialm., seu uso no livro de Ezequiel, que contém a maioria das ocorrências bíblicas (cp. Ez 7:24; 12:23; 16:41; 23:27; 23:48; 26:13; 30:50; 34:10; 34:25; etc.).

[20] Este pequeno parágrafo de estar relacionado ao Messias devido às seguintes observações: (1) a presença do tema das semanas, o termo-chave relacionado ao Messias; (2) o princípio da composição entrelaçada (Messias – Jerusalém – Messias – Jerusalém – Messias – Jerusalém); e (3) as noções de aliança e cessação das ofertas que emprestam as noções expressadas no verbo krt (cortar fora) do parágrafo messiânico precedendo (A1). Estes últimos são um simbolismo a mais de acordo com A2 encontra-se no mesmo nível de A1 e assim segue. De fato, o termo krt é uma alusão tanto a uma aliança (krt é um termo técnico que expressa o processo de aliança; cp. Ex 24:8; 34:27; Js 9:15; Ho 2:20; Jr 34:13; etc.) quanto a uma cessação. O termo krt transmite, já em A1, os dois significados teológicos da morte do Messias que encontramos, novamente, explicitamente, mencionados em A2 –a saber, a aliança pelo seu sacrifício, portanto, o fim dos sacrifícios.

[21] Schriften zur Bibel, Werke, Bd. 2 (Munchen, 1964), p. 1112. Tenho explorado este interrelacionamento particular entre a língua hebraica em sua expressão e o conteúdo que esta transmite em minha dissertação (“L’Hébreu en vie: Langue hébraique et civilisation prophétique. Etude structural” [Hebrew in Life: Hebrew language and prophetic civilization. Structural study]. [Ph.D. dissertation, University of Strasbourg, 1973]).

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