A Unção do Mishkan Celestial[1]


 

O Anjo Gabriel fizera várias visitas a Daniel em resposta ao apelo deste por luz sobre a visão de um grande tempo registrada em Daniel 8:14. Fora em resposta a oração suplicante do profeta por um claro entendimento dos 2300 dias que o mensageiro celestial viera ao profeta a fizera o seguinte anúncio: “Daniel, agora, saí para fazer-te entender o sentido. … considera, pois, a coisa e entende a visão” (Dn 9:22-23).

O poderoso visitante procede para iluminar o idoso homem de D’us com essas palavras:

“Setenta semanas estão determinadas sobre o teu povo e sobre a tua santa cidade, para fazer cessar a transgressão, para dar fim aos pecados, para expiar a iniquidade, para trazer a justiça eterna, para selar a visão e a profecia e para ungir o Santo dos Santos” (Dn 9:24).

“70 períodos foram decretados sobre teu povo e sobre a cidade santa para dar por finda a transgressão, cessar o pecado, perdoar a iniquidade e promover a justiça eterna, confirmando a visão e a profecia, e consagrando o Santo dos Santos. ” Bíblia Sêfer

2300 ANOS TABELA JUDAICA

O Tempo Coberto pela Declaração do Anjo

Não é necessário alongar-se muito sobre a primeira parte deste verso. É geralmente entendido pelos estudiosos da profecia que o termo “setenta semanas” (šāšū‘îm ši‘îm) é exposto por todos os escritores hebreus e comentaristas como setenta vezes o período de sete anos. Chega-se a mesma conclusão por reconhecer o princípio bíblico na profecia (Ver Nm 14:34; Ez 4:6). Todavia Gabriel anunciara ao profeta que, durante esses 490 anos, haveria uma unção do “Santo dos Santos.” Que “Santo dos Santos” é esse que deveria ser ungido antes do encerramento deste período de tempo?

Alguns dizem que isto se refere à unção do Messias; pois, nos dois versos subsequentes, o anjo menciona que um certo número desses anos abrange o Messias, o Príncipe, e o tempo quando o Messias é sacrificado. Deve-se, contudo, ser relembrado que o termo Messias significa “ungido” (Ver At 4:25-26; cp. Sl 2:1-2 e Jo 1:41, incluindo a margem). Além do mais, não encontramos nas Escrituras o termo “Santo dos Santos” sendo aplicado ao Messias. Ieshua é chamado de “Santo de Israel” (Sl 89:18; Is 55:5), “Teu Santo” (Sl 16:10), “Ente Santo” (Lc 1:35), “Teu Santo Servo” (At 4:27). Em harmonia com a predição feita pelo anjo, Ieshua fora ungido como Messias, pois está escrito: “D’us ungiu a Ieshua de Nazaré com o Ruach haKodesh/Espírito Santo e com poder” (At 10:38). Esta unção, que tomara lugar em Seu mikvê, ocorrera em cumprimento do tempo (Lc 3:21-22) para cumprir a predição feita em Daniel 9:25-26. Mas, em lugar algum, a Bíblia Hebraica declara que o Mashiach seria chamado de “Santo dos Santos.”

santuário 11

Além do mais, os termos “Santo de Israel” e “Teu Santo,” mencionados anteriormente, pertencem a uma expressão hebraica diferente dos termos “Santo dos Santos” notados em Daniel 9:24. O termo hebraico ӑsî é usado nestes dois textos. Todavia os termos “Santo dos Santos” em Daniel 9:24 aplicam-se a objetos e não a pessoas. Raramente no Tanach os termos eš qoāšîm, “Santo dos Santos,” são aplicados a qualquer outro objeto do que ao “Santo dos Santos” no santuário. Possivelmente, uma ou duas vezes, esta expressão, eš qoāšîm, pode ser usada para coisas sagradas, mas o termo não é aplicado a uma pessoa. É essencial ter isso em mente.

É bem verdade que a Bíblia diz que o Mashiach experimentaria duas unções. Uma em Sua imersão, como já mencionamos; a outra trataremos posteriormente. Mas é evidente que a unção do “Santo dos Santos” em Daniel 9:24 não faz referência a descida do Espírito sobre o Tzadik/Justo no tempo quando Ieshua recebera a imersão pelas mãos de João.

A Unção do Santuário

As Escrituras ensinam que quando o santuário no deserto estava sendo preparado para o sacerdócio e os seus serviços, a Moisés fora ordenado a fazer um óleo de unção santo. O propósito específico deste óleo santo era ungir os utensílios do tabernáculo, incluindo os compartimentos Santo e Santo dos Santos, e para a unção dos sacerdotes (vv. 26-30). Ordens estritas foram dadas para que sobre nenhuma carne humana fosse derramado este óleo santo, salvo, unicamente, os sacerdotes e os utensílios do santuário (vv. 31-33). Violar isso significava ser cortado.

Santuário 2

Novamente, quando ao profeta de Israel fora ordenado a edificar o tabernáculo, a Moisés fora exortado:

“E tomarás o óleo da unção, e ungirás o tabernáculo e tudo o que nele está, e o consagrarás com todos os seus pertences; e será santo. … Vestirás Arão das vestes sagradas, e o ungirás, e o consagrarás para que me oficie como sacerdote. Também farás chegar seus filhos, … e os ungirás, … para que me oficiem como sacerdotes” (Ex 40:9-15).

Quando Moisés terminara a edificação do tabernáculo, a ele fora ordenado dedicar o santuário e consagrar os sacerdotes antes que Arão e seus filhos iniciarem seus ofícios sagrados. O registro desta dedicação e deste serviço de consagração é encontrado em Levítico 8. Um chamado fora feito para a congregação reunir-se à porta do santuário a fim de testemunhar esta cerimônia solene e sagrada (vv. 3-5). Moisés atentara ao povo que ele estava realizando este serviço sob a ordem de Deus (v. 5).

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Arão e seu filhos foram lavados com água da bacia. Eles foram, então, vestidos com vestes sagradas (vv. 6-9, 13). O óleo sagrado da unção fora, então, aplicado ao santuário e seus utensílios. Todas as partes do tabernáculo foram ungidas, incluindo os utensílios no Santo dos Santos (Lv 8:10-11; Ex 30:26-28). Após o tabernáculo e seus utensílios, incluindo o Santo e o Santo dos Santos, serem ungidos, o óleo sagrado da unção fora derramado sobre os sacerdotes, sobre Arão e seus filhos (Lv 8:12; Ex 30:30). Esta unção do Sumo Sacerdote fora tão completa que, séculos depois, o salmista fizera referência a ela, como a seguir:

“Oh! Como é bom e agradável viverem unidos os irmãos! É como o óleo precioso sobre a cabeça, o qual desce para a barba, a barba de Arão, e desce para a gola de suas vestes” (Sl 133:2).

Dedicação e Serviços de Consagração

Setes dias eram dedicados a esses serviços solenes e sagrados; pois está escrito:

“Também da porta da tenda da congregação não saireis por sete dias, até ao dia em que se cumprirem os dias da vossa consagração; porquanto por sete dias o SENHOR vos consagrará” (Lv 8:33).

Além disso, a ninguém que estivesse associado com o serviço do santuário era permitido engajar-se em quaisquer ocupações durante esses dias de dedicação e consagração. O registro declara:

“Ficareis, pois, à porta da tenda da congregação dia e noite, por sete dias, e observareis as prescrições do SENHOR, para que não morrais; porque assim me foi ordenado. E Arão e seus filhos fizeram todas as coisas que o SENHOR ordenara por intermédio de Moisés” (vv. 35-36).

Santissimo.jpg

Que os compartimentos Santo e “Santo dos Santos” do santuário foram ungidos e santificados, é confirmado por um testemunho posterior:

“No dia em que Moisés acabou de levantar o tabernáculo, e o ungiu, e o consagrou e todos os seus utensílios, bem como o altar e todos os seus pertences” (Nm 7:1).

Assim fica claro que cada parte do santuário era preparada, dedicada e consagrada com o óleo de unção sagrado. Mas o ministério do santuário pelos sacerdotes não poderia iniciar até que o tabernáculo e os sacerdotes tivessem sido consagrados para este sagrado serviço. Essa dedicação da estrutura sagrada era necessária antes que o serviço sacerdotal pudesse nela ser efetivado. Após a conclusão deste serviço sagrado, Arão e seus filhos estavam preparados para levar adiante o ministério da reconciliação com os sacrifícios no compartimento Santo (Lv 9:4,6,22-23). D’us aprovara a dedicação do santuário e a consagração ao sacerdócio. O serviço do santuário fora, então, iniciado.

O Antítipo “Santo dos Santos” Ungido

Durante o período de 457 A.E.C a 34 E.C., que abrangia os 490 anos anunciados pelo Anjo Gabriel, não havia santuário na terra ungido, nem havia qualquer dedicação ou consagração de um sacerdócio ao ofício sagrado do ministério sacerdotal. É bem verdade que os israelitas retornaram do exílio babilônico e engajaram-se novamente na adoração a D’us por oferecerem sacrifícios após o decreto de Artaxerxes (Ed 7:10-27). Mas o sacerdócio araônico já existia há mais de mil anos. D’us prometera ao povo judeu que ao término dos setenta anos de seu cativeiro eles retornariam à terra de seus pais (Jr 29:10-14). Mas sua restauração a Palestina e sua renovação do sistema sacrificial no templo estavam além de uma continuação do ministério sacerdotal que estivera ativo por muitos séculos antes a seu exílio na Babilônia, cujo ministério cessara por causa da destruição do templo, devido a suas práticas pecaminosas (2 Cr 36:14-21).

Paralelismo alternado

Entretanto, Ieshua, após completar a Sua obra na terra, fora levado ao céu para aparecer na presença de D’us como sumo sacerdote e intercessor do homem. Ele ascendera como ministro no santuário que o Adonai erigiu, não o homem (Hb 8:2). Antes dele engajar-se nesse ministério sacerdotal no céu, necessitava, ali, haver uma dedicação do santuário celestial e uma consagração do sacerdócio desse santuário (Hb 9:11-28). Ieshua ascendera ao céu 40 dias após a Sua ressurreição (At 1:3). De acordo com o anúncio do Anjo Gabriel, registrado em Daniel 9:25-27, Ieshua deveria ministrar por três anos e meio na terra após tornar-se o Messias. Sua unção messiânica ocorrera em Suma imersão em outubro de 27 E.C. Ele ministrara entre os homens por três anos e meio após sua imersão e, então, morrera como o Cordeiro de D’us. Portanto, Sua ascensão ocorrera três anos e meio antes do término dos 490 anos. É o Santo dos Santos do Santuário Celestial que Gabriel declarara que deveria ser ungido durante os 490 anos.

Por F.C. Gilbert (1867-1847), um judeu nascido em Londres, em 1889 se tornou um judeu-adventista. Por meio século, F. C. Gilbert atuou como secretário no Departamento Judaico da Associação Geral, onde pleiteou a favor dos Judeus. Gilbert escreveu muitos artigos na Review and Herald, na Ministry Magazine e muitos folhetos para companheiros judeus. Da época de Gilbert até os dias de hoje, a denominação tem publicado uma revista especial para os Judeus, agora chamada de Shabat Shalom. Também escreveu diversos livros, como From Judaism to Cristianity (A Hebrew Christian) – An autobiography e The Jewish Problem

Tradução Hugo Martins, ligeiramente contextualizado por Herança Judaica.

[1] O Santuário portátil que foi erigido no deserto e acompanhou os israelitas em suas perambulações após o Êxodo…tinha como modelo o santuário celestial. Seu traçado simbolizava a Criação, a estrutura do cosmo e a história futura do povo de Israel até a Idade Messiânica. Dicionário Judaico de Lendas e Tradições, Jorge Zahar Editor.

 

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