O Cânone do Tanach[1]


O termo grego canón (κανών) vem do hebraico qaneh (קָנֶה), que significa “cana [de medir]”. Desde que canas eram usadas como varas de medição, o termo canón tomou o significado de “regra” ou “padrão” por meio do qual outras coisas são medidas. O termo cânone ocorre em Gálatas 6:16 como “regra” e em 2 Coríntios 10:13–16 como “esfera de ação” na ARA. É primariamente usado em referência aos livros da Bíblia, em um sentido técnico de uma coleção padrão de escritos sagrados pelos Pais da Igreja do quarto século.

tanach 2

Como o cânone do Tanach/Antigo Testamento veio a existir, pode ser que nunca conheçamos todos os detalhes. O que se sabe é que Deus ocasionalmente dizia a Seus profetas não apenas entregar Sua mensagem oralmente, mas, também, escrevê-las (Ex 17:14; Is 30:8; Jr 30:2; Ez. 43:11; Hb 2:2) como uma testemunha (Dt 31:24–26) para os dias vindouros (Is 30:8). Já nos primórdios da história de Israel, certos escritos foram reconhecidos como autoridade divina e servindo como uma norma escrita na vida de Israel. Isto pode ser visto pela resposta do povo à leitura do “livro da aliança” em Êxodo 24:7, “Tudo o que falou o SENHOR faremos e obedeceremos. ”[2] Similarmente, quando o “Livro da Lei” fora encontrado no templo e lido diante do rei e do povo no tempo de Josias (2 Cr 34:14–31) ou quando Esdras o lera diante do povo (Ne 8:5–10), fora aceito como tendo autoridade divina.

Com o passar do tempo, o mesmo aconteceu com todos os outros livros contidos no Tanach/Antigo Testamento hoje. Eles foram reconhecidos como tendo autoridade canônica porque seus autores foram reconhecidos como arautos de Deus. F. F. Bruce escreveu: “As palavras dos profetas eram divinamente autoritativas do momento em que foram proferidas e os documentos nos quais elas foram registradas eram canônicos em princípio, se não em um sentido técnico, do começo.”[3]

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O Pentateuco (Torah) fora a porção mais antiga a adquirir status canônico. O “Livro da Lei,” colocado diante da Arca da Aliança para indicar as sua importância (Dt 31:26), era, também, chamado de “O Livro de Moisés” (Ne 13:1). Era a norma divina para a fé e para a vida e o povo fora, continuamente, admoestado a obedecer seus preceitos (Josué 1:8). É, repetidamente, citado no Antigo Testamento (Js 8:31; 2 Reis 22:8; Ne 8:1) e ainda hoje forma a base para o Judaísmo Ortodoxo.

A segunda maior seção, de acordo com o Talmude, é a coleção dos “Profetas”. É dividido em duas partes: (1) os Profetas Anteriores ou Livros Históricos —Josué, Juízes, Samuel (um livro) e Reis (um livro); (2) os Profetas Posteriores —Isaías, Jeremias, Ezequiel e os Doze Profetas. Os Profetas Menores foram contados como um livro porque, anteriormente à aparência do códex no primeiro século E.C, eles eram todos escritos em um único rolo. Indubitavelmente, os escritos dos profetas foram compilados e organizados tão logo foram escritos. Para o israelita devoto, os escritos de um profeta eram divinamente inspirados e, portanto, obrigatória para a fé e para a prática.

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A terceira seção, chamada de “Escritos” contém onze livros: os livros poéticos de Salmos, Jó e Provérbios; os Cinco Rolos (Megilloth): Rute, Cantares, Eclesiastes, Lamentações e Ester; e os livros históricos de Daniel, Esdras/Neemias (um livro) e Crônicas (um livro). Juntos, o cânone hebraico, de acordo com o Talmude, contém 24 livros.

Muito dos livros na segunda na terceira seção parecem ter alcançado status canônico no tempo de Neemias. Em 2 Macabeus 2:13, é-nos dito que Neemias “formou uma biblioteca, reunindo tudo o que se referia aos reis e aos profetas, as obras de Davi e as cartas dos reis a respeito das ofertas” (BJ). As “as cartas dos reis sobre ofertas de voto” podem ser aquelas reproduzidas em Esdras 6:3 a 7:26.

A mais antiga referência à divisão tripla do Tanach/Antigo Testamento remonta a cerca de 130 A.E.C. Nessa época, o neto do autor do livro de Eclesiástico, ou A Sabedoria de Jesus ben Sirach, escrevera um prólogo para o livro de seu avô no qual ele se refere a “a lei, os profetas e os outros livros de nossos pais.”[4] Embora isto não diga quais livros foram incluídos, indicam que algum tipo formal de cânone tivera sido estabelecido no segundo século A.E.C.

profeta II

Anterior ao uso dos códices, livros bíblicos eram escritos em rolos separados e não tinham uma ordem específica. Assim que foram compilados em códices, entretanto, uma certa sequência ou ordem tinha que ser estabelecida. Nos primeiros séculos da Era Comum, quando códices eram caros e relativamente raros, não apenas os livros bíblicos foram compilados, mas outros livros usados na adoração, ou livros de leitura recomendada, foram compilados com eles. Portanto, os três mais importantes códices da Septuaginta (Vaticano, Sinaítico e Alexandrino) contêm não apenas os 39 livros do Tanach/Antigo Testamento, mas, também, alguns dos apócrifos, assim como adições aos livros bíblicos. Alguns estudiosos, consequentemente, falam de um cânone mais abrangente, ou Alexandrino. Todavia, não há evidência de que os judeus em Alexandria tivessem um cânone diferente dos judeus na Palestina. “De fato,” diz F. F. Bruce, “não há evidência de que os judeus alexandrino já promulgaram um cânone de escritura.”[5]

O Testemunho de Josefo

O historiador judeu Josefo, escrevendo no fim do primeiro século E.C., comparou os sagrados escritos judaicos com os dos gregos e disse: “não temos uma inumerável multidão de livros entre nós discordando de um e contradizendo um outro (como os gregos têm), mas, tão somente, vinte e dois livros que contêm os registros de todas as eras passadas; que são justamente aquelas creditadas como divinas; e cinco delas pertencem a Moisés, que contêm suas leis e tradições da origem da humanidade até a sua morte. Este intervalo de tempo ocorreu em um espaço de três mil anos; mas, do tempo da morte de Moisés até o reino de Artaxerxes, rei da Pérsia, que reinara após Xerxes, os profetas, que se seguiram após Moisés, escreveram o que ocorrera em sua época em treze livros. Os quatro livros remanescentes contêm hinos a Deus e preceitos para a conduta da vida humana. É verdade que nossa história tem sido escrita desde Artaxerxes de forma muito criteriosa, mas não tem gozado de semelhante autoridade com a qual os antigos escritos de nossos antepassados porque não tem havido uma sucessão de profetas desde esse tempo.”[6]

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Esta declaração contém uma série de questões significativas concernentes ao cânone do Tanach/Antigo Testamento: (1) Os escritos neste cânone foram creditados como divino, isto é, foram compostos por homens inspirados e abrangem desde a história da criação ao tempo de Artaxerxes; (2) livros descrevendo a história após Artaxerxes não foram creditados como inspirados, desde que a sucessão dos profetas terminara no período persa; (3) os conteúdos dos livros são consistentes e sem discrepâncias; (4) Josefo refere-se tão somente a vinte e dois livros e o número de livros em suas três divisões são diferentes do Cânone Talmúdico (por exemplo, Daniel está incluído com os profetas). Entretanto, ele, assim como Jerônimo no quarto século E.C., refere-se aos mesmos vinte e quatro livros que o Talmude; Rute sendo contado como um apêndice a Juízes e Lamentação a Jeremias.

Jamnia

Após a destruição do templo em 70 E.C., Rabban Yochanan Ben Zakkai mudou o Sinédrio para Jamnia (Yavne), próximo a costa do Mediterrâneo. Brevemente tornara um centro estabelecido de estudo escriturístico. Na mesma época em que Josefo escrevera sua obra “Contra Apião,” discussões tomaram lugar em Jamnia em relação a canonicidade de certos livros do Antigo Testamento. Das discussões registradas no Talmude, sabemos que os livros contestados foram Ezequiel, Provérbios, Cantares, Eclesiastes e Ester. Todavia, a questão não era se esses livros deveriam ser incluídos no cânone, mas, se eles deveriam ser excluídos dele. Algumas das razões dadas foram: (1) o Templo de Ezequiel e seus serviços não se harmonizavam com o Pentateuco; (2) nem Ester, nem Cantares se referem ao nome de Deus; (3) Eclesiastes contém muito do pensamento epicureano; e (4) Provérbios aparentava contradizer-se em dois versos adjacentes (Pv 26:4–5). Por fim, nenhuma mudança fora feita e os livros que já tinham sido creditados como tendo status canônico em consideração popular foram confirmados.

Bíblia Hebraica II

Todas as Bíblias Protestantes contêm o Cânone Hebreu; elas não reconhecem os apócrifos como escritos inspirados, contrastando com as Bíblia Católicas e Ortodoxas.

Rosh Gerhard Pfandl serviu na Áustria e na Associação Californiana. De 1977 a 1989 foi Professor de Religião no Seminário Bogenhofen na Áustria. Antes de juntar-se ao quadro do Biblical Research Institute em 1999, serviu por sete anos como Secretário de Campo na Divisão Pacífico Sul em Sidney na Austrália. Pfandl publicou mais de 120 artigos acadêmicos e populares em Alemão e Inglês e é o autor de diversas Lições da Escola Sabatina e de livros como The Time of the End in the Book of Daniel e Daniel: The Seer of Babylon.

Tradução Hugo Mantins, ligeiramente contextualizado por Herança Judaica.

[1] As próprias letras em maiúsculo resumem a composição deste conjunto de obras: T de Torá N de Neviim e C de Ctuvim. http://www.chabad.org.br/interativo/FAQ/tanach_compos.html

 Ele é composto por 24 livros:

Torá:

Bereshit (Gênese)

Shemot (Êxodo)

Vayicrá (Levítico)

Bamidbar (Números)

Devarim (Deuteronômio)

 

Neviim (Profetas): 

Yehoshua (Josué)

Shofetim (Juízes)

Shemuel (Samuel)

Melachim (Reis)

Yesha’yáhu (Isaías)

Yirmiyáhu (Jeremias)

Yechezekel (Ezequiel)

Trê-assar (Doze Profetas)

 

Ktuvim (Escrituras Sagradas):

 Tehilim (Salmos)

Mishlê (Provérbios)

Iyov (Jó)

Shir Hashirim (Cântico dos Cânticos)

Rut (Ruth)

Echá (Lamentações)

Cohêlet (Eclesíastes)

Ester

Daniel

Ezra/Nechemyá (Esdras/Neemias)

Divrê-Hayamim (Crônicas)

[2] Caso não seja especificado, todas as citações das Escrituras são da Almeida Revista e Atualizada.

[3] F. F. Bruce, The Book and the Parchments (London: Marshall and Pickering, 1991), p. 94.

[4] R. H. Charles, The Apocrypha and Pseudepigrapha of the Old Testament (Oxford: Clarendon Press, 1971), p. 316.

[5] F. F. Bruce, The Canon of Scripture (Downers Grove, Ill.: InterVarsity Press, 1988), p. 45.

[6] Against Apion, 1, 38–41, The Works of Josephus, trad. William Whiston (Peabody, Mass.: Hendrickson, 1987), p. 776.

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