A Teologia do Holocausto


O Holocausto não ameaçou apenas a existência física dos judeus, mas também o judaísmo como religião. O massacre do “povo escolhido” na Europa nazista, num nível de barbárie inédita na história mundial, pareceu para muitos ter abalado as estruturas de uma fé que reivindica um especial relacionamento com um Deus definido como bom, justo e preocupado com os assuntos humanos. Tamanha destruição não poderia passar despercebida pelos pensadores judeus, que começaram a elaborar explicações religiosas para o Holocausto ainda durante a Segunda Guerra Mundial, alguns deles aprisionados em guetos e campos de concentração nazistas.

Respostas também foram exigidas pelos mais simples dos fiéis, que se perguntavam como aquela terrível calamidade poderia se encaixar no sistema de crenças do judaísmo. Esses pensadores enfrentaram perguntas dilacerantes: A crença na aliança de Deus com Israel foi abalada como resultado do massacre na Europa? Como essa tragédia pode ser entendida na História, um processo tradicionalmente entendido no judaísmo como sendo comandado por Deus desde a criação até a redenção? O nazismo teria sido um caso extremo de abuso de um livre-arbítrio concedido por Deus ao ser humano? Houve possibilidade de martírio numa situação em que os judeus não tiveram outra alternativa senão a morte? Deus teria “ocultado sua face” enquanto funcionavam as câmaras de gás e fornos crematórios? O Holocausto poderia ter sido uma punição divina por algum pecado do povo judeu? Outras duas importantes questões, de caráter mais moderno, também provocaram inquietação.

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A primeira diz respeito ao significado religioso do Estado de Israel, um país fundado no imediato pós-Segunda Guerra Mundial. A chegada em massa de judeus à Terra Prometida após o conflito estaria relacionada a um processo messiânico ou o novo país deve ser entendido apenas como um abrigo para refugiados? A segunda questão é sobre a singularidade do Holocausto. Os pensadores divergiram sobre como entender o genocídio nazista no contexto das catástrofes anteriores da história judaica. Eles se perguntaram se o Holocausto poderia ser equiparado a outras destruições do passado ou se deveria ser considerado um evento único e incomparável na História. A primeira parte deste livro é dedicada ao exame da Teologia judaica do Holocausto. Em outras palavras, veremos como os pensadores judeus responderam a essas desafiadoras questões, apresentadas acima. Essas respostas não foram apresentadas em bloco, mas, sim, evoluíram com o passar do tempo, influenciadas por importantes eventos do pós-guerra. Daí hoje, depois de seis décadas desse desenvolvimento, já podermos falar num histórico do pensamento sobre a Shoá, que também será apresentado neste livro.

As grandes questões que desafiaram os pensadores do Holocausto, apresentadas mais acima, estão ligadas a conceitos fundamentais do judaísmo que foram especialmente desafiados pelos eventos da Segunda Guerra Mundial. Então, para se compreender o desafio enfrentado por esses pensadores, devem-se, antes, entender esses conceitos fundamentais, saber como se desenvolveram ao longo da história do pensamento judaico, desde o período bíblico, e de que maneira o Holocausto colocou-os em questão. Assim, examinaremos neste livro os conceitos de “aliança” (a crença em uma relação especial entre o povo judeu e seu Deus), “História como revelação divina” (a interpretação de eventos históricos como um plano de Deus para seu povo e para a humanidade), “livre-arbítrio” (a liberdade do ser humano para escolher entre o bem e o mal), “martírio” (a disposição dos judeus em sacrificar suas vidas em nome de Deus), “ocultamento da face” (passividade divina enquanto judeus são perseguidos), “por causa de nossos pecados” (catástrofes interpretadas como punição divina por transgressões do povo judeu), além do “significado religioso do Estado de Israel” e a “singularidade do Holocausto”. Em seguida, para o leitor ter uma melhor ideia do pensamento judeu sobre a Shoá, focaremos nossa atenção num autor específico da Teologia judaica do Holocausto, examinando como ele respondeu aos desafios vistos acima. O escolhido foi Eliezer Berkovits, um dos mais expressivos pensadores da Shoá, autor da obra fundamental Faith After the Holocaust (“Fé após o Holocausto”, inédito em português).

A segunda parte deste livro é dedicada à Teologia cristã do Holocausto. Veremos que os teólogos cristãos ficaram divididos quando se depararam com o desafio de explicar a Shoá, assim como no entendimento sobre qual deve ser o impacto desse evento no cristianismo pós-1945. Examinaremos os principais documentos teológicos escritos sob o impacto da Shoá, especialmente no âmbito da Igreja Católica. Em seguida, apresentaremos uma cronologia dos eventos ligados à atitude cristã perante o Holocausto. O leitor perceberá que a primeira parte deste livro (Teologia judaica) ocupa um espaço bem maior que a segunda parte (Teologia cristã). Isso é uma decorrência inevitável da pesquisa acadêmica que originou este livro, um doutorado em Estudos do Judaísmo pesquisado na Universidade de Tel Aviv, em Israel. Porém, o leitor não deve concluir de maneira apressada que o impacto do Holocausto tenha sido maior no judaísmo do que no cristianismo. Pelo contrário, veremos que a atitude cristã foi profundamente afetada pelos acontecimentos da Segunda Guerra Mundial. Creio que, ao final da leitura deste livro, o leitor poderá concordar com o autor que o impacto da Shoá no cristianismo foi intenso e, provavelmente, ainda maior do que no judaísmo.

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