A Formação da B’rit Hadashah/Novo Testamento


 

Em Iohanam/João 14:26, Ieshua prometera a Seus talmidim/discípulos que o Ruach haKodesh/Espírito do Eterno lhes ensinaria todas as coisas e lhes relembraria do que Ele mesmo tinha dito a eles. Ele, também, lhes guiaria em toda a verdade e lhes diria o que estaria por vir (Jo 16:13). Os crentes nEle acreditam que o que está agora incluído na B’rit Hadashah/ Novo Testamento é o depósito do cumprimento dessas palavras de Ieshua.

 Pois cerca de duas décadas após Sua morte, a mensagem de Ieshua era proclamada oralmente. Então, dos primórdios dos anos 50 em diante, as cartas de Shaul/Paulo começaram a aparecer. Durante os anos 60, os três Bessorá/Evangelhos sinóticos e o Livro de Atos foram escritos e por volta do fim do primeiro século, quando Iohanam/ João escrevera o Livro de Revelação/Apocalipse, todos os livros da B’rit Hadashah/Novo Testamento já estavam completos.

 Assim como fora com os livros dos profetas do Tanach, os escritos de Shaul/Paulo e dos outros emissários/apóstolos foram imediatamente aceitos como autoritativos porque os autores foram reconhecidos como arautos autênticos de Hashem. E eles próprios estavam conscientes do fato que eles estavam proclamando a mensagem do Eterno, não meramente suas próprias opiniões. Em 2 Pedro 3:15–16, Kefa/Pedro iguala os escritos de Shaul/Paulo às Escrituras; Shaul/Paulo, em 1 Timóteo 5:18, segue a fórmula “a Escritura declara” com uma citação de D’varim/Deuteronômio 25:4 e Lucas 10:7, igualando, assim, a autoridade dos escritos do Tanach com a Bessorá da B’rit Hadashah. E em 1 Tessalonicenses 2:13, Shaul/Paulo saúda os crentes em Tessalônica por aceitarem suas palavras como a “palavra de Hashem.”[1]

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Na formação do cânone da B’rit Hadashah, que abrangeu um período de cerca de 250 anos, autoridade apostólica tornara-se o critério primário para a aceitação de livros individuais no cânone. Às vezes, este critério era aplicado um tanto indiscriminadamente. No caso de Marcos, o “secretário privado” de Kefa/Pedro, por exemplo, seu Bessorá/Evangelho fora visto como um registro do ensinamento de Kefa/Pedro. Isto encontra-se baseado na declaração de Papias (c. 60–130 E.C.), o bispo de Hierápolis, que escrevera, “Marcos, que tivera sido o intérprete de Pedro, registrara cuidadosamente, mas não em ordem, tudo o que ele lembrava dos dizeres e dos fazeres do Senhor. Embora ele não tivesse ouvido o Senhor ou sido um de Seus seguidores, mas, posteriormente, como disse, um [discípulo] de Pedro.”[2]

No caso do Bessorá de Lucas, seu autor fora identificado com “Lucas, o médico amado” (Cl 4:14), que fora um companheiro de viagem de Shaul (Atos 16:10). Em virtude de sua proximidade com Paulo, parece que “algo da autoridade apostólica de Paulo pousara sobre ele.”[3]

 Outros testes de canonicidade incluíam antiguidade —o livro tinha que pertencer ao período apostólico; ortodoxia —tinha que estar em harmonia com o restante do B’rit Hadashah e universalidade —tinha de ser aceito pela maior parte das comunidades de crentes. Ademais, todavia, a inspiração dos livros tinha de ser reconhecida pelas congregações crentes restantes.

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No fim do primeiro século, todos os livros da B’rit Hadashah encontravam-se como a possessão de congregações locais ou indivíduos em particular a quem eles foram enviados. Algum tempo depois da morte de Shaul, uma coleção de suas cartas carregando o título de “O Apóstolo” começara a circular entre as igrejas. Pouco depois que o Quarto Bessorá estava completo, foram compilados em uma outra coleção chamada de “Os Evangelhos”. Assim, durante o segundo século, a maioria das congregações locais possuíam e reconheciam uma coleção de livros inspirados que incluíam os quatro Bessorot, o Livro de Atos, as treze cartas de Shaul, 1 Kefa e 1 Iohanam.

  Razões para O Cânone B’rit Hadashah

 A necessidade de definir claramente o cânone do B’rit Hadashah surgira em meio a aparição de certos heréticos e o desafio de escritos espúrios clamando autoridade apostólica. Marcião (80–160 E.C.), por exemplo, um rico proprietário de navios de Sinope, na Ásia Menor, viera a Roma em 140, incitara problemas nas congregações locais, fora excluído e organizara seus seguidores em um movimento rival aos ortodoxos. Suas congregações foram numerosas e influentes por todo o Império Romano por mais de um século e causou desentendimentos e dissensões nas congregações. Marcião rejeitava o Tanach e elaborou um cânone que consistia tão somente de versões editadas do Bessorá de Lucas e dez das cartas de Shaul (ele exclui as cartas a Timóteo e Tito).  Por meio da edição, ele removera o que ele acreditava ser interpolações introduzidas por aqueles que seguiam os doze apóstolos em vez de Shaul, “que, aos olhos de Marcião, fora o único apóstolo fiel.”[4]

O segundo século presenciara, também, a aparição de um crescente número de escritos de crentes que clamavam relatar detalhes desconhecidos acerca do Mashiach e dos apóstolos. Muitos desses livros foram escritos por gnósticos que enfatizavam a teshuvá por meio de conhecimentos secretos. Vários “evangelhos da infância” supriram detalhes de anos obscuros da vida de Ieshua. Numerosos livros de “Atos” relatavam os feitos de Kefa, Shaul, Iohanam e da maioria dos outros apóstolos e vários apocalipses descreviam registros de viagens conduzidas, pessoalmente, ao céu e ao inferno pelos apóstolos.

Em vista desses acontecimentos, líderes da kehilá foram forçados a definir o cânone do B’rit Hadashah mais explicitamente. Eles começaram a investigar as evidências acerca de qualquer livro que fosse considerado inspirado e autoritativo e para precaverem-se de bessorot, atos, epístolas e apocalipses espúrios; eles publicaram listas daqueles livros conhecidos como sido escritos pelos apóstolos e seus associados.

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 História do Cânone da B’rit Hadashah 

 A mais antiga lista existente dos livros da B’rit Hadashah, publicada em 1740 em Milão, data de cerca de 170 e é chamado de o “Fragmento Muratoriano”. É chamado, assim, em homenagem a Ludovico Antonio Muratori, o antiquário, que descobrira o manuscrito na Biblioteca Ambrosiana em Milão. O início e o fim deste manuscrito estão perdidos, mas menciona Lucas como sendo o terceiro bessorá (Mattityahu/Mateus e Marcos mais comumente sendo o primeiro e o segundo) seguido de Iohanam e Atos. Enumera, então, treze cartas de Shaul, Epístola de Judas, duas cartas de Iohanam, Sabedoria de Salomão e os apocalipses de Iohanam e Kefa.

 Outros livros são referidos como não pertencendo aos escritos originais, por exemplo, O Pastor de Hermas e a forjada carta de Shaul aos Laodicenses. É interessante notar que a Sabedoria de Salomão são aceitos como inspirados, embora eventualmente eles não se tornaram parte do cânone da B’rit Hadashah. Isto indica que houve um período de filtragem e teste durante o qual alguns livros foram aceitos em alguns lugares, mas rejeitados ou aceitos muito posteriormente em outros. Por exemplo, as congregações orientais aceitaram Hebreus como obra de Shaul em pouco tempo, enquanto as kehilot ocidentais levaram quase duzentos anos para que o livro fosse aceito no cânone. No caso do Livro de Apocalipse, a situação foi inversa. Fora aceito como canônico pelas congregações ocidentais por volta do fim do segundo século, mas, consistentemente, rejeitado por muitas congregações orientais. Não fora listado entre os livros canônicos no Concílio de Laodiceia (algum tempo entre 340–380) e fora, subsequentemente, omitido da Peshita, a Bíblia oficial dos Crentes em Ieshua de fala siríaca.

 Durante o terceiro e parte do quarto século, a filtragem e teste de livros continuaram. Alguns foram  reconhecidos como canônicos, outros como apócrifos. Eusébio (265–339 E.C.), o superintendente/bispo de Cesareia e o “Pai da História da Igreja”, fez um estudo cuidadoso do uso desses livros na kehilá como um todo e relatou que vinte e dois eram geralmente reconhecidos como canônicos, a saber, os quatro bessarot, Atos, as cartas de Shaul (incluindo hebreus), 1 Iohanam, 1 Kefa e Apocalipse (embora alguns ainda o rejeitavam). Os outros cinco (Jacob/Tiago, Judas, 2 Kefa, 2 Iohanam e 3 Iohanam) ainda eram disputados.

 Durante a última metade do quarto século, o cânone da B’rit Hadashah recebera sua forma completa e final. Atanásio, o Superintendente/Bispo de Alexandria, em 367, para eliminar o uso de certos livros apócrifos na kehilá, listou, em sua Carta Oriental, os vinte e sete livros da B’rit Hadashah. “Esse são fontes de salvação,” escreveu ele, “que aqueles que estejam sedentos possam se satisfazer com as palavras vivificantes que elas contêm. Somente nesses está proclamado a doutrina da divindade. Que nenhum homem adicione algum além desses, nem retirar os que, aqui, estão incluídos.”[5] Assim, sob a orientação do Espírito Santo, acreditamos, então, que os vinte e sete livros no Novo Testamento foram reconhecidos como autoritativos (canônicos) pela igreja em geral.

 Trinta anos depois, o Terceiro Concílio de Cartago (397 E.C.) aceitou a lista dos vinte e sete livros como canônicos e decretou que “nada deveria ser lido na kehilá como escrituras divinas exceto os escritos canônicos.” [6] Com este Terceiro Concílio de Cartago, o cânone assumira, permanentemente, a forma e o conteúdo como existe até os dias de hoje.

 Gerhard Pfandl

 Gerhard Pfandl

Gerhard Pfandl serviu como Rosh na Áustria e na Associação Californiana. De 1977 a 1989 foi Professor de Religião em Bogenhofen na Áustria. Antes de juntar-se ao quadro do Biblical Research Institute em 1999, serviu por sete anos como Secretário de Campo na Divisão Pacífico Sul em Sidney na Austrália. Pfandl publicou mais de 120 artigos acadêmicos e populares em Alemão e Inglês e é o autor de diversas Lições da Escola Sabatina e de livros como The Time of the End in the Book of Daniel e Daniel: The Seer of Babylon.

 (Original em Inglês: “The Formation of the New Testament”)

Tradução: Hugo Martins e Contextualização e adaptação Herança Judaica.

 [1] Caso não seja especificado, todas as citações das Escrituras são da Almeida Revista e Atualizada.

 [2] Eusebius’ Ecclesiastical History, C. F. Cruse, trad. (Peabody, Mass.: Hendrickson, 1998), III. 39.14.

[3] F. F. Bruce, The Canon of Scripture (Downers Grove, Ill.: InterVarsity Press, 1988), p. 257.

[4] __________, The Books and the Parchments: How We Got Our English Bible (London: Marshall Pickering, 1991), p. 99.

[5] Athanasius, Nicene and Post-Nicene Fathers (Peabody, Mass.: Hendrickson, 1994), vol. 4, p. 552.

[6] Bruce, The Canon of Scripture, op. cit., p. 233.

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