Os ismaelitas e a nação árabe – III


De acordo com a opinião dos historiadores, o povo ismaelita assumiu a liderança e proeminência dentre os demais povos que habitaram boa parte do Oriente, desde a peregrinação de Ismael até recentemente (KIDNER, 2006,p. 118). Embora nem todos os grupos que fazem parte desses povos tenham sua origem biológica em Ismael, permanecem sendo seus descendentes no aspecto ideológico. E mesmo que muitos sejam de descendência Cananita e Jafetita e outros descendam dos filhos de Abraão com Quetura, todos se identificaram e se tornaram parte do que se chama de a grande nação árabe a partir de sua agregação aos descendentes de Ismael, sob a liderança destes, o que ocorreu de forma progressiva ao longo da história.

ARABIA

            Champlin, seguindo essa linha, afirma que “ao contrário do que alguns pensam, Ismael não foi o fundador das nações árabes, porquanto antes disso essas tribos semitas já tinham tido seu começo; mas Ismael contribuiu para a formação da nação árabe, com a tribo que dele descendia” (CHAMPLIN, 2000, p. 387). Embora Champlin mencione apenas Sem, um dos filhos de Noé, deve-se considerar a hipótese de que descendentes de Cam e de Jafé também vivessem de forma esparsa pelas regiões desérticas do oriente ao tempo da chegada de Ismael e expansão de seus descendentes (1Cr 1). Evidência dessa realidade é a própria forma como Moisés dispôs seu relato no livro de Gênesis, acerca do qual Bruce (2008, p. 181) pontua:

“O livro de Gênesis divide toda a humanidade em três grupos (ver Gn 10); mas fornece um outro tipo de divisão tripartite para a Palestina e terras adjacentes. Um grupo consistia nos antigos habitantes da região (cananeus, hititas etc.); o segundo consistia nos diversos povos e tribos descendentes de Abraão; e, por derradeiro, mas de forma nenhuma o último em importância, havia o próprio povo de Israel, o grupo de descendentes de Abraão mais importante. Capítulos anteriores já nos apresentaram diversos representantes da primeira categoria; o capítulo 25 agora traz uma lista numerosa de grupos étnicos da segunda categoria. Essa categoria, por sua vez, tem três subdivisões: a descendência de Quetura (v. 1-4); a descendência de Ismael (v. 12-18); e, por último, os edomitas, que eram descendentes de Esaú (v. 30). Todos esses seriam futuros habitantes do norte e do sul da Arábia”.

            O comentário acima esclarece duas realidades históricas que interessam ao tema em estudo. A primeira reside no fato de que os territórios da Palestina e regiões adjacentes foram habitados primariamente por povos de origem semita e não semita. Os de origem não semita seriam os descendentes de Cam e Jafé, filhos de Noé. E quanto aos semitas é dado destaque para os descendentes de Abraão em três grupos, encabeçados respectivamente pelos filhos que teve com Quetura; o filho que teve com Agar; e o filho que teve com Sara.

sem -cam-e-jafe

          Uma menção é feita aos edomitas, que foram descendentes de Abraão por meio de Isaque e Jacó. Afora a descendência de Isaque, estabelecida na região de Berseba, hoje o território de Israel, já desde os dias da morte de Abraão é dito que os seus demais descendentes povoaram o deserto da Arábia, de norte a sul. Brown et al (2007, p. 97) constata essa realidade ao comentar o relato dos filhos de Quetura conforme aparece em Gênesis 25:1-6:

            Alguns dos nomes são tribos árabes: Madã e Madiã, ou talvez redundâncias; este último inclusive, bastante conhecido como uma tribo do deserto da Arábia (Gn 37:28-36; Ex 2:18; Nm 22:25; 31; Jz 6). Jesboc e Sué aparecem nas fontes Assírias como Jaboc e Sur, localizados ao norte da Síria, Sabá é um povo ao norte da Arábia; e Dadã é um povo às bordas de Edom, ambos mencionados em 10:7 como sendo descendentes de Cam. Os Assurins (não Assírios), os Latusins, e os Loomins são povos desconhecidos, não encontrados em paralelos em 1 Crônicas, 1:28-33. Os filhos de Madiã, Efa, Ofer e Henoc ocorrem como nomes de famílias nas tribos de Judá, Manassés e Ruben. Abida e Eldaá são atestados como nomes pessoais em inscrições dos sabeus, um povo mercante do sudoeste da Arábia.

Sem, Cam e Jafé

            Complexo como possa parecer, o que salta aos olhos é o fato de esses descendentes de Quetura terem-se espalhado ao longo de todo o desértico arábico. Mas se deve reconhecer,  no entanto,  que mesmo diante  das evidências,  existe a fragilidade de qualquer tentativa de se reconstruir com certeza acadêmica os movimentos de ocupações pós-diluvianos no mundo antigo, o que inclui a região da Palestina. Nesse sentido, Mesquita (2002, p. 63) esclarece com sobriedade:

            O que parece mais plausível é que, enquanto os camitas se radicavam na Babilônia, o semitas e jafetitas ter-se-iam estabelecido na Síria central, e dali estendido o seu domínio para o sul e o leste, aparecendo depois ao norte de Babilônia, como os acádios, ainda tão mal conhecidos. Pressionados para o sul, teriam, então, dominado os sumérios e com eles se misturado, dando-nos a grande civilização dos tempos de Abraão. Não parece haver dúvidas de que está civilização era um misto de acádios e sumérios, ou seja, de semitas, amorreus e camitas. Os historiadores ainda têm dificuldades de determinar com segurança os vaivéns das primitivas aglomerações humanas. […] Os estudantes ainda têm de esperar que se faça luz sobre os grandes movimentos humanos dos primeiros milênios da civilização pós-diluviana.

            Embora deva se reconhecer certa margem de incerteza nas hipóteses acerca dequaispovosocupavamodesertodaArábiaaotempodaidadeIsmaelparaaquele território, o fato de ter ele exercido uma influência predominante ali é indiscutível para os historiadores. Seu papel ganha força com a expansão de sua descendência em doze tribos e mais tarde, com a chegada de seus meios-irmãos e irmãs, descendentes de Quetura. Esse agrupamento de forças sob a liderança do primogênito de Abraão foi determinante para o surgimento da grande nação árabe, que se consolidou à medida que esses povos e tribos descendentes do mesmo patriarca se tornaram coesos e receberam outros de origens distintas que se agregaram sob sua liderança ideológica (política, religiosa, militar, social), tendo a Ismael como figura central. Embora Champlin (2000) economize ao falar do papel dos descendentes de Ismael para a formação da nação árabe, não é exagero apontar seu clã como o povo que fundou esta grande nação no formato ideológico que hoje se conhece etnicamente como os árabes, os quais povoam toda a região do oriente.

            É importante, nesse ponto, esclarecer a confusão muitas vezes feita no uso dos termos “povos”[1] e “nações”[2]. Enquanto o termo “povo” alude a concentrações familiares (clãs) e/ou tribais, definidas a partir da origem biológica e/ou da necessidade de convivência comum e, por isso, mais ocupadas com a sobrevivência mútua de seus membros, o termo “nação” alude a concentrações de caráter político, definidas a partir de uma identidade filosófica comum (e as ideologias que a fundamentam), mais ocupadas com a consecução de suas pretensões de naturezas múltiplas que projetam seus desdobramentos no plano social.

Abraão chamado

            Compreendida essa distinção, observa-se que várias tribos e povos vieram ocupar o deserto da Arábia. No entanto, a união e organização desses povos sob uma única bandeira ideológica (de natureza ao mesmo tempo religiosa, política, militar e econômica) com claras disposições contrárias ao povo israelita foi, sem dúvida, uma trajetória iniciada e desenvolvida a partir de iniciativas do povo ismaelita. Ellen G. White (2003, p. 146) fala da causa originária desse embate ao pontuar que o nascimento de Isaque, trazendo a realização de suas mais caras esperanças, após urna espera da duração de uma vida, encheu de alegria as tendas de Abraão e Sara. Mas para Hagar este acontecimento foi a destruição de suas aspirações enternecidamente aca- lentadas. Ismael, agora um rapaz, fora considerado por todos no acampamento como herdeiro da riqueza de Abraão, e das bênçãos prometidas a seus descendentes. Agora foi subitamente posto de lado; e, em seu desapontamento, mãe e filho odiaram o filho de Sara. O regozijo geral aumentou a sua inveja, até que Ismael ousou zombar abertamente do herdeiro da promessa de Deus.

Sem, Cam e Jafé 3

            Estava aí plantada a semente do ódio que produziu tristes frutos que até os dias de hoje continuam sendo colhidos nos violentos conflitos entre árabes e israelenses. O surgimento e organização da grande nação árabe com ideologia de oposição a Israel é, sem dúvida, uma marca distintiva do povo ismaelita. Tão logo se fortaleceram e se organizaram se opuseram de forma provocativa ao povo de Israel, estando a Bíblia repleta de exemplos dessas iniciativas, acerca das quais já se tem inclusive evidências arqueológicas:

            Nem todos os encontros entre Israel e Midiã foram cordiais. Quando os Israelitas tentaram cruzar o deserto através da Transjordânia  durante sua jornada em direção à terra prometida, os líderes de Moabe e Midiã enviaram uma delegação conjunta ao profeta Balaão, pedindo a ele que amaldiçoasse o grupo viajante (Nm 22:1-7). Logo depois homens Moabitas e Midianitas instigaram homens Israelitas a adorarem Baal Peor e a praticarem imoralidade sexual (Nm 25:1-6). Como punição por sua infidelidade, o Senhor ordenou Moisés a declarar guerra contra os Midianitas (Nm 25:16-18; 31:1-18). Todos os cincos nomes de reis midianitas em Números 31:8 (ver Js 13:21) aparecem como genuínos, primitivos nomes árabes da literatura extra bíblica da época. […] Durante o período dos juízes os Midianitas e os Amalequitas oprimiram os Israelitas com ataques surpresa em seus territórios durante suas colheitas (Jz 6:3-6) (KAISER JR., 2005, p. 92).

            Tendo crescido e se fortalecido ao longo da história, os ismaelitas se solidificaram no oriente primeiramente no âmbito político cultural (nação árabe), e secundariamente no âmbito político religioso (nação islâmica). Em ambas as linhas de desdobramentos sociais reafirmou a sua antiga e decidida ideologia combativa, numa disposição renovada para conflitos anti-israelitas, que podem ser vistos até os dias atuais. Ellen G. White comenta que esse espírito de violência foi característica dos ismaelitas ao longo de toda a sua trajetória:

            Os primeiros ensinos de Abraão não foram destituídos de efeito sobre Ismael, mas a influência de suas mulheres teve como resultado estabelecer a idolatria em sua família. Separado do pai, e amargurado pela contenda e discórdia de um lar destituído do amor e temor a Deus, Ismael foi compelido a escolher a vida selvagem e pilhante de chefe do deserto, sendo sua mão contra todos e a mão de todos contra ele (Gn 16:12). Em seus últimos dias arrependeu-se de seus maus caminhos, e voltou ao  Deus  de seu pai; mas permaneceu o cunho de caráter dado à sua posteridade. A poderosa nação que dele descendera foi um povo turbulento, gentio, que sempre foi um incômodo e aflição aos descendentes de Isaque (WHITE, 2003, p. 174).

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            Observe que a autora fala de nação e seu correspondente povo, ambos no singular, uma evidência do fator agregador que caracterizou a liderança de Ismael e seus descendentes na extensão do deserto. E aponta a idolatria e a violência que caracterizou sua existência na posteridade. Seria apenas coincidência com os conflitos árabe-israelenses? Certamente que não.

            Todo o contexto aponta para uma alusão indireta da autora ao islamismo antissionista levado a efeito pelos árabes, a grande nação ideológica cuja política de embate foi originada no ódio de Ismael e seus descendentes.

            No entanto, é preciso reconhecer que o desprezo que perdura por tanto tempo, alimentando uma guerra tão longa, violenta e intensa, não     se perpetuaria no tempo sem que o ódio de uma das partes tivesse se tornado também o sentimento cultivado e correspondido pela outra. É certo que tudo começou no ódio dos ismaelitas, mas também é certo que tudo continuou porque os israelitas assimilaram tal ódio e mesmo declarando-se tementes a YHWH não ficaram atrás na violência, mágoa e destruição em relação a seus meios irmãos. Talvez não se tenha na história humana um conflito de origem familiar tão intenso e extenso quanto esse. Um conflito em que os protagonistas são os filhos de um mesmo homem, temente e fiel a Deus, que escolheram dar as costas aos ensinos ético-morais e espirituais do pai, ao decidirem patrocinar uma vida de ódio cujos resultados insistem em chamar de preço da “guerra santa”.

            Em resumo, de todos os textos mencionados se infere que o povo ismaelita se tornou muito numeroso, passando a ocupar uma extensa faixa  territorial  na  geografia do  oriente.  Expandiram  muito  sua ocupação, afirmando seu domínio não apenas na região desértica de Arã, onde Ismael se estabeleceu inicialmente, mas passando a ocupar uma área consideravelmente maior que abarca o leste e norte do deserto da Arábia, cujos termos faziam fronteira com os limites da região ocupada pelos descendentes de Isaque[3].

Continua…

Carlos Flávio Teixeira

Doutor em Ciências da Religião  pela Universidade  Metodista de São Paulo  e Mestre em e Direito Constitucional pela Universidade Metodista de Piracicaba (Unimep) . Docente no Centro Universitário Adventista de São Paulo (Unasp).

 

Fonte: https://www.andrews.edu/library/car/cardigital/Periodicals/Kerygma/2012/2012_V08_N02.pdf

 

 

[1]Segundo o linguista Houaiss (2009, p. 1534), o termo “povo” aponta para “o conjunto de pessoas que […] estão ligadas por uma origem, sua religião ou qualquer outro laço (ex: o povo judeu, o povo cigano etc.).” O elemento chave nesse caso é a sobrevivência.

[2] Para Houaiss (2009, p. 1534), o termo “nação” significa “um agrupamento político autônomo que ocupa território com limites definidos e cujos membros respeitam instituições compartilhadas (leis, constituição, governo).” O elemento chave é o interesse político, econômico ou militar.

[3] O Comentário bíblico adventista (1993, v. 8, p. 590) explica que essas regiões são identificadas com o deserto norte da Arábia e o leste da Síria.

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