Os ismaelitas e a nação islâmica – IV


Conforme já mostrado, o surgimento da nação árabe foi primariamente resultante da afirmação de uma ideologia política contrária a Israel, encabeçada por Ismael e suas doze tribos. Não obstante, com o passar do tempo, os ânimos se acirraram, e a nação árabe passou a afirmar a ideologia anti-israelense também no âmbito religioso. Essa iniciativa que começou com a assimilação de práticas religiosas egípcias, mais tarde se intensificou com o sincretismo religioso produzido pelo convívio com outros povos e nações com as quais tiveram contato, ganhando força final com o surgimento do Islã no século 7 d.C.[1]

            Nesse sentido, registros históricos dão conta de que o próprio Maomé, fundador do Islã, se auto afirmava descendente de Abraão, através da linhagem de Ismael:

            Maomé dizia-se descendente de Ismael. Visto que historicamente falando, os árabes tem sido cuidadosos sobre suas genealogias, a exemplo dos judeus, é possível que a reivindicação dele fosse autêntica. Dando margem à miscigenação entre várias tribos, especialmente com os joctanitas e os queturaítas, quase chega a ser correto chamarmos os árabes de ismaelitas (CHAMPLLN, 2000, v. 3, p. 388).

            No próprio Alcorão, no texto da sura de nº 14 intitulada “Abraão”, no verso 39 o autor da mesma faz questão de destacar a relação de Ismael com Abraão ao lado de Isaque, numa tentativa de colocar a ambos em pé de igualdade em relação à linhagem patriarcal. E o faz registrando o que teria sido a expressão de gratidão do patriarca, ao assim se manifestar: “louvado seja Deus que me deu, na minha velhice, Ismael e Isaac. Meu Deus atende às súplicas” (ALCORÃO, 2011, p. 206). Aliás, as muitas reproduções que o Alcorão faz de trechos e elementos bíblicos são muito evidentes e não se limitam a informes acerca dos descendentes de Abraão[2].

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            Uma leitura atenta das principais suras do livro sagrado da nação islâmica é suficiente para se observar que as intensas aproximações textuais em relação à Bíblia é uma forte evidência do objetivo da grande nação ismaelita de fundar e manter sua própria religiosidade, também de raiz Abraâmica, mas com contornos peculiarmente distintivos. Uma tentativa de reprodução das bases da crença monoteísta do patriarca comum, mas elaborada com as características socioculturais de uma nação que se expandiu à margem de seus irmãos israelitas, e cuja mágoa fica expressa na intenção de rejeição quanto aos mesmos e sua religiosidade.

            De qualquer forma, seja pelo viés político ou pelo viés religioso, essas aproximações apenas evidenciam que “os ismaelitas, ramo árabe, são numerosíssimos, ocupam uma área muito maior do que a Palestina em si. Do Paquistão à Arábia, encontram-se eles de permeio com muitos outros povos” (MESQUITA, 2002, p. 95). Para muitos críticos são apenas mais um povo árabe, mas, para os mais atentos, são também a própria alma de uma grande nação política e religiosa milenar que se fundamenta no antigo cisma em relação a Israel. No entanto, para os estudiosos das Escrituras, tal oposição é mais uma prova legítima da presciência e soberania de Deus, que longe de aprovar qualquer tipo de violência, predisse em Gênesis 25:22-23 que a rebeldia de Esaú o levaria a tomar parte na guerra entre duas nações, conflito esse que já havia sido iniciado pelos ismaelitas. Em outras palavras, Deus anteviu os rumos que Esaú tomaria como participante desse embate, tanto por sua natureza, quanto por ser influenciado pela neta de Ismael, com quem se casou alguns anos mais tarde, conforme relato de Gênesis 28:9. Mas para além de sua presciência Deus mostra sua misericórdia.

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               O cuidado prometido por Deus a Abraão, quanto a Ismael e seus descendentes, tem sido cumprido fielmente apesar da rebeldia e desprezo de seus povos e nações à YHWH.        Nesse sentido já fora observado: Sua mão será contra todos. Uma exata descrição dos árabes, muitos dos quais pretendem ter a Ismael como seu pai. Poderosas nações têm tentado conquistar a Arábia e submetê-la a sua vontade, porém nenhuma tem tido êxito permanente. Os árabes têm mantido sua independência e Deus os tem preservado como um monumento perdurável de seu cuidado providencial. Permanecem hoje em dia como um argumento incontestável da verdade da predição Divina (NICHOL, 1995, v. 4, p. 331).

            Mesmo à vista da misericórdia e cuidado de Deus para com os ismaelitas ao longo da história, esta nação tem sido rebelde a YHWH ao longo de sua existência. Primeiro sua rebeldia assumiu conotação religiosa politeísta e após a fundação do Islã, assumiu contornos de uma religiosidade de matriz monoteísta e mais coesa nos aspectos político, militar e social, porém mais combativa e mais intolerante. Sua rebeldia foi caracterizada não somente pelo embate contra o Israel étnico, mas também pelo embate contra o Israel espiritual. Por longos anos também atacou ferozmente os cristãos do oriente, de maneira tão cruel que a predição profética no contexto da quinta e sexta trombetas de Apocalipse 9 os anunciou como gafanhotos devido ao seu poder destrutivo, e de escorpiões devido ao seu poder de causar dor[3].

            Apesar de sua rebeldia, tanto os ismaelitas quanto os israelitas, continuam sendo individualmente objeto do amor misericordioso de Deus. E por mais que tenham de encarar individualmente o juízo de YHWH, têm a oportunidade de arrependimento e conversão até o encerramento do tempo de graça. Infelizmente, porém, ambos desprezam individualmente essa graça por não enxergarem que a proteção ou a eleição de uma nação, por parte de Deus, tem sempre o objetivo apenas funcional e não salvífico essencial. Essencialmente falando, Deus quis e ainda quer salvar a todos de forma individual, embora haja designado durante muito tempo uma função especial para Israel no plano redentivo.

            Embora as promessas e os cuidados de Deus para ambos os herdeiros de Abraão fossem as mesmas, a função de Israel seria especial quanto a seu papel de testemunhar para todas as nações, inclusive árabes, guiando-os à genuína adoração devida a YHWH. Funcionalmente falando, caberia aos descendentes de Isaque testemunhar para os descendentes de Ismael e os demais habitantes do mundo acerca da aliança eterna feita por Deus a Abraão. Em sua presciência, Deus sabia que esses povos precisariam de um testemunho vivo de seu poder, sua glória e sua fidelidade, a fim de que conhecessem o genuíno caminho da salvação. No entanto, Israel falhou ao considerar essa distinção funcional como um fim em si mesmo, arrogando-se um tipo de superioridade essencial em relação às demais nações. Confiaram de tal forma em si próprios e sua linhagem hereditária que passaram a considerar sua eleição funcional como uma espécie de garantia inerente de salvação, a qual os levou a uma forma de exclusivismo que os destruiu como nação, a partir de dentro.

            Ao não aceitar que foi o orgulho nacionalista a clara razão de sua queda, Israel fez inúmeras tentativas de se reerguer como nação. Nas tentativas mais recentes se observam algumas implicações teológicas cujo estudo é pertinente para se entender a relação da nação ismaelita moderna e a teologia cristã, no contexto do Israel escatológico[4]e seus desdobramentos em relação aos Ismaelitas modernos.

Algumas implicações teológicas

            À medida que os judeus (o antigo Israel) tentaram se reerguer como nação política após as inúmeras dispersões históricas a que estiveram sujeitos por motivos políticos, religiosos e sociais, encontraram no âmbito religioso um viés de aproximação com as nações cristãs de notório poderio militar internacional, a exemplo da Inglaterra e Estados Unidos. Essa aproximação foi possível, de certa forma, em razão das novas tendências teológicas surgidas nos Estados Unidos a partir do final do século 19 e que ganharam o mundo.

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            Uma parte considerável de teólogos norte-americanos passou a interpretar a restauração de Israel nas profecias veterotestamentárias como referência a uma restauração étnica do antigo Israel nacional com o apoio do novo Israel[5], vislumbrando assim a formação de um grande Israel caracterizado pelo poder de natureza civil e religiosa. À medida que essa perspectiva ganhou força no meio político estadunidense, os judeus étnicos passaram   a contar com a simpatia religiosa dos americanos, passando a fazer parte também de sua política de apoio militar e social. No meio cristão, esse argumento trouxe sérias implicações para a escatologia cristã, que em reação a essa e outras perspectivas foi se desdobrando até chegar atualmente a cinco matrizes interpretativas distintas, a saber:

1ª — Corrente Preterista de Interpretação, ou também conhecida como escola moderna de interpretação ou, ainda, escola da alta crítica: os teóricos dessa linha negam a possibilidade da existência do elemento sobrenatural nas Escrituras. Assim, rejeitam em absoluto a possibilidade de que as profecias veterotestamentárias relativas a Israel pudessem ter aplicação para o futuro.

            Dessa forma, as passagens bíblicas que tratam de Israel apenas refletiriam a expectativa intensa do profeta e do povo de seu tempo quanto ao futuro. Nesses termos, expectativa não seria o mesmo que predição.

2ª — Corrente Futurista de Interpretação, que pode também ser chama- da de futurismo sionista judaico: os teóricos dessa linha admitem a existência do elemento sobrenatural nas páginas da Bíblia em forma de predições. No entanto, defendem que as profecias veterotestamentárias, que mencionam Israel, terão aplicação em algum momento futuro, quando os judeus étnicos tiverem sua nação política e religiosa restaurada. Dessa forma, as passagens bíblicas que tratam de Israel apenas refletiriam as predições do futuro glorioso dos judeus étnicos e daqueles que se juntarem a seu sistema religioso que será completamente restaurado. Essa corrente se fortaleceu de forma considerável após a restauração do Estado de Israel, em 1948. Argumentam que falta agora apenas a purificação e restauração religiosa de seu território, contexto em que os judeus aceitarão a Cristo como o Messias, formando com os cristãos o grande Israel.

3ª — Corrente Anglo-Israelita de Interpretação, que pode também ser chamada de futurismo sionista anglo-saxão: os teóricos dessa linha também admitem a existência do elemento sobrenatural nas páginas das Escrituras em forma de predições. No entanto, defendem que as profecias veterotestamentárias que mencionam Israel terão aplicação ampla em algum momento futuro quando as doze tribos do Israel étnico serão restauradas numa única nação política e religiosa onde hoje é o Estado de Israel. Afirmam ser possível tal façanha alegando que os povos anglo-saxões representam o remanescente das doze tribos que segundo a Bíblia desapareceram com o cativeiro Assírio a partir da queda final do reino do norte, com a tomada de Samaria em 722 a.C. Dessa forma, as passagens bíblicas que tratam de Israel apenas diriam respeito às predições do futuro glorioso desse novo Israel nacional que será formado pelos remanescentes étnicos modernos das doze tribos. Essa corrente fomenta fortemente o apoio da Inglaterra e da Alemanha ao Estado de Israel, como forma de preparação para a restauração mencionada.

4ª — Corrente Espiritualista de Interpretação, que pode também ser chamada de futurismo espiritualista: os teóricos dessa linha afirmam a existência do elemento sobrenatural nas páginas das Escrituras em forma de predições, porém o intensificam de forma exacerbada. Chegam ao extremo de espiritualizar as profecias veterotestamentárias que mencionam Israel, apontando que elas terão seu cumprimento exclusivamente na Igreja dos dias atuais. Esvaziam o texto da possibilidade de sua aplicação primária ao tempo do profeta. Dessa forma, as passagens bíblicas que tratam de Israel apenas refletiriam as predições do futuro glorioso da Igreja Cristã, com destaque para o papel de liderança do novo Israel, que entende ser o povo estadunidense.

5ª — Corrente Integralista de Interpretação, que pode também ser chamada de profetismo integral ou ainda de dupla aplicação profética: os teóricos dessa linha defendem a existência do elemento sobrenatural nas páginas das Escrituras em  forma de predições, embora sejam cuidadosos com  o sentido literal elementar do texto. Assim, procuram no texto seu sentido primário, literal e a eventual existência de elemento condicionante da profecia e, secundariamente, verifica a plausibilidade de sua aplicação futura, o que será apontando pelo contexto imediato, geral e amplo das Escrituras.lupa 2

            Consideram o texto em seu viés aplicativo primário e secundário, nessa exata ordem. Dessa forma, as passagens bíblicas que tratam de Israel são entendidas como aludindo primariamente ao Israel literal, étnico, do tempo do profeta. Porém, verifica que essas profecias eram condicionais à resposta de obediência desse povo ao pacto que lhes fora proposto por Deus. Diante de seu fracasso no cumprimento de sua parte da aliança, Deus cumprirá seus desígnios por meio da Igreja Cristã à qual agora se aplica em parte as predições feitas para Israel, notadamente a de um futuro glorioso.

            Essas definições não esgotam o extenso rol de desdobramentos interpretativos possíveis que derivam das combinações dessas correntes e seus elementos[6].

            Porém, são suficientes para dar uma ideia da complexidade do tema no meio religioso protestante dos dias atuais. E das cinco perspectivas, apenas a última se relaciona com os princípios hermenêuticos de matriz bíblico-histórica, sendo por isso aceita pelos adventistas do sétimo dia. Quanto às quatro primeiras correntes, este artigo argumenta de forma contrária quanto a algumas questões de perspectivas acerca de Israel na profecia:

            Os intérpretes modernistas baseiam sua posição na suposição a priori de  que não  é  possível conhecer  o  futuro e desconsideram assim toda a evidência que demonstra o contrário. Os futuristas passam por alto o elemento condicional sobre o qual adverte a profecia, elemento que foi clara e enfaticamente pro- clamado pelos próprios profetas, como as declarações do NT que afirmam que os privilégios e as responsabilidades do anti- go Israel foram transferidos para a Igreja por meio de Cristo. A exposição bíblica feita por quem apoia a teoria anglo-israelita consiste em uma mescla de textos bíblicos, com lendas, narrativas folclóricas e especulações. A quarta escola de interpretação pode, às vezes, aplicar corretamente à igreja de hoje e do futuro algumas passagens proféticas do AT, porém não leva em conta a aplicação primária dessas mensagens à situação histórica existente então, e de modo muito arbitrário determina que certas passagens escolhidas foram escritas mais ou menos exclusivamente para a  Igreja de hoje.

            De um modo ou de  outro, cada urna dessas tentativas de interpretar a mensagem dos profetas do AT suprime alguns importantes ensinamentos bíblicos, passando por alto princípios fundamentais de exegese  e proporcionando um quadro distorcido das porções proféticas (NICHOL, 1995, v. 4, p. 27-28).

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            É importante observar as implicações dessas quatro primeiras correntes no tocante ao tema da restauração do Israel nacional. A primeira, embora negue o cumprimento futuro da profecia quanto a Israel em relação ao tempo em que foi dada, destaca o papel importante do profetismo para a política e a religião mundial de cada época. Afirma, assim, que a expectativa gera- da pela interpretação profética, ainda que destituída de sobrenaturalidade, pode contribuir de forma positiva para a realização da escatologia. Dessa forma, essa corrente apoia potencialmente a ideia sionista ao ver nela um meio mais rápido para o cumprimento do papel da igreja cristã no mundo, no contexto da escatologia. Já as três correntes de matriz futurista (sionista, anglo-saxã, e espiritualista), desdobramentos da grande corrente chamada de dispensacionalismo, militam de forma ativa em prol da restauração étnica do Israel nacional.

            Patrocinam inclusive de forma filosófica e teológica a restauração do status político e religioso do Israel nacional no território da Palestina, por verem nessa medida o caminho do cumprimento escatológico das profecias veterotestamentárias acerca do Israel espiritual, que a seu ver incluiria o antigo Israel (judeus) e o novo Israel (americanos), num grande Israel espiritual. Conforme já dito, para estes dispensacionalistas, crendo que Israel como nação aceitará a Cristo como Messias, e possuirá a terra da Palestina, têm oferecido considerável apoio moral, financeiro e espiritual a esse país. Em resposta, segundo eles, importantes líderes israelenses têm abraçado o apoio de evangélicos dispensacionalistas (RODOR, 2007, p. 53-54).

            Para esses teóricos, o Israel espiritual tem como pressuposto o Israel nacional; e sua restauração tem caráter político e religioso, sendo o supremo alvo que ao final culminará na união de forças do novo e o antigo Israel, quando este último aceitar a Cristo como o  Messias, formando  um único povo que receberá a benção final de restauração prometida ao Israel étnico veterotestamentário.

            Por mais atraente que  possa  parecer,  essa  ideia  parece  contrariar o texto bíblico no contexto de sua unidade vetero e neotestamentária. Primeiro porque no Antigo Testamento o papel  do  Israel  étnico na escatologia já era claramente expresso como sendo condicional à sua fidelidade á aliança, e segundo porque no Novo  Testamento  seu fracasso quanto à mesma foi apontado como motivo para que fosse substituído em seu papel escatológico pela Igreja Cristã. Paroschi (2007, p. 48) esclarece nesse sentido que:

            “A última esperança de Israel como nação deixou de existir com Estevão. As pedras que os dirigentes judeus lhe atiraram selaram para sempre seu destino. […] Para Israel o tempo havia terminado; contudo ainda há esperança para Israel em uma base individual”.

            Por não entender essa realidade, os defensores da moderna ideologia sionista, que busca a construção do grande Israel espiritual por meio da restauração do antigo Israel étnico, têm levado muitos por um perigoso caminho que tem o ódio aos opositores como marca fundamental de suas pretensões. Tendo em mente a necessidade da restauração plena do antigo Israel étnico como ponto central da escatologia iniciada, afirmam que deve haver a restauração de seu sistema político e religioso a qualquer custo, o que leva as alas mais radicais dessas correntes a compartilharem com os judeus ultra ortodoxos a perspectiva de que a nação precisa ser purificada política e religiosamente para que seu sistema volte a ser o que um dia já foi: absoluto e exclusivo. Essa seria a única forma da escatologia veterotestamentária se realizar e ver cumpridos os planos de Deus para redenção da humanidade por meio desse grande Israel espiritual.

            A consequência lógica desse raciocínio é que se deve eliminar todo e qualquer obstáculo que surgir de forma ameaçadora a tal objetivo. Sendo os ismaelitas o mais ameaçador deles, na sua forma étnica (árabes) e na sua forma religiosa (islâmicos). Essa é a ideia que tem incentivado ao longo do século 20 e primeiras décadas do século 21 o forte apoio político, militar e econômico prestado não somente, mas, principalmente, pelos Estados Unidos, Inglaterra e Alemanha ao Estado de Israel. Em solo estadunidense essa pretensão faz parte dos programas de governo não formais, levados a efeito com maior intensidade por parte dos governos de matriz republicana, normalmente apoiados por denominações cristãs — principalmente de matriz calvinista — adeptas às correntes escatológicas sionistas de cunho determinista já comentadas.

            Os ismaelitas passaram a ser considerados, política e/ou religiosamente, o anticristo. E, assim, seria válido qualquer meio de eliminá-los do caminho do povo étnico da promessa por meio do qual o grande Israel espiritual cumpriria a escatologia dispensacionalista anunciada. Dorneles (2007, p.78) fala desse messianismo destrutivo ao observar que, durante o século 20, os americanos desenvolveram sua estratégia de poder global a partir da nomeação de um inimigo comum da comunidade, que eles passaram a combater. Na segunda guerra mundial, os americanos combateram e derrotaram o nazismo e    o fascismo, demonizados como inimigos comuns da comunidade. Na Guerra Fria, os americanos assumiram o desafio de combater outro inimigo comum, o comunismo, também retratado em seus textos culturais, especialmente cinematográficos, como inimigo da raça humana, repressor da liberdade. Após a queda do muro de Berlim (1989), a América entrou num vazio de poder, não havia mais inimigos. Então, nos atentados de 11 de setembro de 2001, eis que um novo inimigo se apresenta: o fundamentalismo islâmico.

Fundamentalismo islamico

            Em todas essas batalhas, os americanos lançam mão de seus mitos e proclamam seu messianismo. É nessa forma de um messianismo, ao mesmo tempo sionista e combativo, de um grande Israel em busca de restauração política e religiosa, que o tema tem-se desdobrado no último século. Infelizmente, é uma tentativa ideológica de reinvenção da religiosidade messiânica sionista, que tem sido usada como combustível para alimentar o conflito árabe-israelense ao longo da história, com maior ênfase no período das Cruzadas e, recentemente, a partir da restauração do Estado de Israel ocorrida em 1948, no período pós-guerra. Podemos argumentar que Deus controla a história para cumprir seus propósitos, mas não nos parece justo dizer que seria Ele quem a escreve com sangue, como pretendem fazer crer os extremistas religiosos de ambos os lados, que propagam suas ideias de guerra em nome de Deus, fazendo ecoar suas ideologias por todos os lugares ao redor do mundo nos dias atuais.

            Uma interpretação religiosa distorcida e desarrazoada dos livros sagrados, seja a Bíblia ou o Alcorão, tem cada vez mais intensificado a situação de oposição entre árabes e israelenses. O resultado se vê na forma de judeus fundamentalistas apoiados pelo protestantismo sionista estadunidense de um lado, e de outro os árabes ultra ortodoxos apoiados por milícias radicais islâmicas. Numa estranha repaginação dos cruéis momentos de intensificação do conflito havido nos séculos 11 e 12, enquanto fazem ecoar os gritos daqueles tempos, sendo ouvido uma parte clamar por uma “cruzada contra o anticristo”[7]e a outra responder decretando a “Jihad” (expressão árabe usada para evocar uma guerra santa), convocando, assim, o máximo de pessoas ao embate[8].

ISRAEL MAPA

            Muitas foram as tentativas de apontar um caminho para a paz entre ambas as nações. Mas a única que parecia ter possibilidade de tonar-se realidade também caiu repentinamente como um castelo de areia destruí- do por uma onda. Yitzhak Rabin (1922-1995), primeiro-ministro israelense que dividiu o prêmio Nobel da Paz de 1994 com o então ministro dos Negócios Estrangeiros de Israel, Shimon Peres (o qual mais tarde ocuparia o mesmo posto de Rabin), e com o líder da então Organização para Libertação da Palestina, Yasser Arafat, foi o autor da mais importante tentativa de por fim ao conflito. Contudo, sua tentativa ruiu com o apagar abrupto e violento de sua própria vida. Seu assassinato ainda é conhecido e comentado nas mídias sociais como tendo ocorrido no momento em que a realização de um acordo de paz que poderia por fim ao conflito entre judeus e palestinos no mundo árabe era dada como certa. No momento mais decisivo para tal acordo, o ministro Rabin foi assassinado repentinamente no dia 4 de novembro de 1995, enquanto argumentava em favor do acordo num pronunciamento de paz realizado na Praça dos Reis (atualmente chamada de Praça Yitzhak Rabin), na cidade de Tel Aviv. Foi alvejado nas costas com três tiros por um estudante judeu de linha ultra ortodoxa identificado como Yigal Amir, que mais tarde seria revelado como membro de um dos muitos grupos de extrema-direita existentes à época, cuja política ativista se opunha ferozmente contra qualquer concessão ou acordo de paz com  os palestinos. Como reconhecido pelas mídias da época e noticiado pela mídia até os dias de hoje, seu assassinato “chocou Israel e paralisou uma possível solução para o conflito” (ISRAEL, 2007).

            A tentativa de paz que mais chegou perto de se concretizar entre os descendentes de Ismael e os descendentes de Isaque permaneceria apenas em um ideal de pacificação cuja concretização se tornaria cada vez mais improvável como se mostra até os dias atuais. Assim como nos tempos do fosse possível justificar a violência (em árabe hamas) e o disparate humano à luz de qualquer dos comandos éticos existentes em ambos os livros tidos pelas partes como sagrados (a Bíblia e o Alcorão).

            Mesmo ainda ideológico e cada vez mais religioso em sua essência, o conflito nada tem da genuína espiritualidade. Mesmo ainda realizado em nome de uma divindade, nada tem da essência do Deus criador, chamado de YHWH pelos Israelitas e de Alá pelos islâmicos. Esse único Deus, que é crido e reverenciado por cada segmento religioso, e identificado em seus respectivos livros sagrados como o único criador, mantenedor e juiz de todas as coisas, permanece incompreendido por aqueles que se engalfinham de forma violenta, pretendendo fazê-lo em seu nome[9].

Considerações finais

            O presente artigo (dividido em quatro partes neste site) levantou informações que possibilitam discorrer acerca da relação direta existente entre os povos que habitam o Oriente Médio em tempos atuais e os povos ismaelitas mencionados na Bíblia. Partindo do estudo da etimologia do termo, apontou que “ismaelita” tem significado duplo desde os tempos bíblicos. É o termo que designa, em sentido estrito, a descendência biológica de Ismael, o primeiro filho do patriarca Abraão; e em sentido amplo faz referência histórica a todos os povos que no oriente se colocaram sob a liderança ideológica (política, religiosa, militar, e social) dos ismaelitas.

            Em seguida foi mostrado como ocorreu a descendência genealógica de tais povos, tendo tido sua origem em Ismael  e seus doze filhos, aos quais mais tarde se juntaram os filhos de Quetura e também outros povos descendentes de Cam e Jafé que antes já habitavam e/ou transitavam no deserto da Arábia. Dessa forma, foi mostrado que os ismaelitas exerceram papel agregador de forças, alcançando influência e domínio junto aos povos do oriente, chegando se tornar a grande nação étnica árabe, e mais tarde, a grande nação religiosa islâmica.

genealogia

            Foi apontado que desde sua despedida por Abraão, Ismael alimentou o ciúme e o ódio em relação à Isaque e sua descendência, sentimento que foi compartilhado por sua posteridade, incluindo todos os que se colocaram de alguma forma sob sua liderança. Foi assim que os ismaelitas construíram todo um triste legado histórico de oposição e conflitos contra os israelitas. Em razão da idolatria de Ismael, decorrente de sua assimilação da religião pagã egípcia, seus descendentes se tornaram violentos e também idólatras, assimilando também o paganismo de outros povos com os quais conviveu.

            Contudo, a descendência ismaelita, conforme prometido por Deus nas Escrituras, tornou-se numerosa e remanesce até os dias de hoje em meio aos povos árabes, no oriente médio. Porém, é notório que sua identidade foi, desde sua origem, fortemente marcada por uma ideologia anti-israelense, a qual, com o passar do tempo, alcançou os âmbitos religioso, político, militar e econômico, tornando-se o principal fator motivador dos conflitos ainda observados no oriente médio, e que se projetam para todo o mundo atual.

            Ao final, chamou-se a atenção para importantes implicações teológicas advindas da relação entre os israelitas e os cristãos no contexto do Israel escatológico e seus desdobramentos em relação aos ismaelitas. Foi mostrado que a principal relação apontada pela Bíblia entre os ismaelitas e a escatologia cristã é da mesma natureza da relação apontada quanto a qualquer outro povo, ou seja, os árabes e islâmicos precisam conhecer e aceitar a provisão de YHWH por meio de Jesus Cristo para perdão de seus pecados e salvação para eternidade.

            No entanto, foi observado como as correntes futuristas de matriz dispensacionalista interpretam equivocadamente o Israel escatológico como sendo a etnia judaica que restaurará a verdadeira adoração a YHWH, com aceitação do Messias Jesus e a agregação dos cristãos. A implicação mais séria desse pensamento é que ele tem levado muitos professos cristãos e seus governos a apoiarem as iniciativas israelitas de eliminar aqueles que são considerados obstáculos à restauração do sistema político e religioso do Israel nacional. Diante de tal realidade, todos os envolvidos deveriam se lembrar que o genuíno ismaelita pode e deve ter algo em comum com o genuíno israelita: o amor e o temor a YHWH.

 

Carlos Flávio Teixeira

Doutor em Ciências da Religião  pela Universidade  Metodista de São Paulo  e Mestre em e Direito Constitucional pela Universidade Metodista de Piracicaba (Unimep) . Docente no Centro Universitário Adventista de São Paulo (Unasp).

Fonte: https://www.andrews.edu/library/car/cardigital/Periodicals/Kerygma/2012/2012_V08_N02.pdf

[1] Na introdução do Alcorão (2011, p. 12) é informado que o Islã surge a partir do profetismo de Muhamed (Maomé) e ganha força a partir de sua morte ocorrida em 632 na cidade de Medina onde vivia refugiado.

[2] Um estudo mais detalhado das aproximações entre o Alcorão e a Bíblia pode ser lido em Filoramo (2005).

[3] Para maiores detalhes sobre a grande religião ismaelita (islamismo) na profecia bíblica e sua atuação de ataque aos cristãos ver Maxwell (2008, p. 246-267).

[4]Para um estudo aprofundado da perspectiva adventista acerca do Israel escatológico ver La Rondelle (2004, p. 231-238).

[5] Segundo afirma Dorneles (2007, p. 67), a expressão “novo Israel” indica a ideologia do messianismo estadunidense, ou seja, diz respeito à “essa noção de que os americanos são superiores, guardiões da liberdade, comissionados a policiar e transformar o mundo. ”

[6] Maiores detalhes acerca das implicações  cristológicas,  soteriológicas,  e  escatológicas dessas correntes e seus inúmeros desdobramentos podem ser estudados em Pate et al. (2003) e Blaising et al. (2005).

[7]Acerca de quão cruel foram as cruzadas ler a obra de Jacopo Fo (2007).

[8] Acerca da postura extremista do islamismo em resposta ao cristianismo ver Armstrong (2001).

[9]Filoramo (2005, p. 136) pontua que para o muçulmano “a ação de Deus é, antes de tudo, uma ação criadora. […] Também é destacada com vigor sua ação providencial, para assegurar

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