Teria o rabino Shaul abolido a alimentação kosher?


                 Shaul[1], perushim de perushim, da tribo de Benjamim, quanto a Torá hassid, escreveu o seguinte:

“…pois tudo que D’us criou é bom, e, recebido com ações de graças, nada é recusável…”[2].

                O que seria bom? Seriam todos os tipos de alimentos considerados aptos ao uso e a Kashrut estaria desatualizada? Não haveria mais restrições quanto a dieta alimentar apresentada na Torá? Seria o alimento santificado por uma b’rakhah[3]?

alimento farto

                O objetivo deste estudo é procurar compreender mais claramente a expressão “bom”, proveniente do grego καλος, evidente no texto acima. Embora Shaul falasse hebraico, ele utilizava o vernáculo comum de sua época no mundo romano, a língua grega. Portanto, será necessário desenvolver uma exegese do texto, na busca do sentido do termo à luz do seu contexto e de toda a Escritura, a começar pela Torá incluindo, também, o que a B’rit Hadashá[4] esclarece[5].

Metodologia

A fim de alcançar esse objetivo, utilizaremos o método de “Leitura Atentiva” do texto. No capítulo um, procuraremos fazer uma revisão de literatura a fim de vermos as diferentes interpretações desse texto existentes entre os autores. Dividiremos este capítulo de acordo com as diferentes posições dos escritores.

Na sequência, em um segundo capítulo, buscaremos analisar o texto bíblico da passagem em questão, delimitando a perícope, descobrindo possíveis variantes textuais e suas implicações na compreensão do texto. Forneceremos também uma tradução do texto da perícope que nos parece mais de acordo com o original.

Já no capítulo três, iremos discorrer sobre o contexto histórico da passagem, apresentando o contexto histórico geral da carta a Timóteo, seguido pelo contexto específico do texto.

lupa 2

 

Em um quarto capítulo será analisado o contexto literário, definindo qual o gênero e a forma literária da perícope, apresentando a estrutura literária da carta e da perícope e finalmente as figuras de linguagem que aparecem no texto.

No capítulo cinco, faremos uma análise léxico-sintático e temático do texto, analisando o contexto da palavra na frase, na perícope e no livro. Verificando também o paralelo de palavras, ideias e o ensino geral do tema.

Em um sexto e último capítulo, veremos as implicações das descobertas para a interpretação teológica do texto, mostrando sua contribuição na compreensão da teologia bíblica. Analisaremos criticamente os blocos de interpretação demonstrados no primeiro capítulo à luz das descobertas realizadas ao longo da pesquisa.

Por fim faremos uma conclusão, apresentando as descobertas feitas ao longo do trabalho e suas implicações para a compreensão do verso.

Todo Alimento é Intrinsecamente Bom

O Comentário de la Santa Bíblia, Francis Davidson, David S. Dockery e Matthew Poole argumentam que pelo simples fato de Deus ter criado, todo alimento pode e deve ser considerado bom. Foi com o propósito de servir ao homem que todas as coisas foram criadas, sendo intrinsecamente boas e apropriadas.

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Por pior que pareça ser o alimento, não deve ser rejeitado quando apreciado de coração. Para manter a vida humana, nada é rejeitável. Desprezar os benefícios de Deus é considerado perigoso. Paulo exorta Timóteo a cuidar com a ideia fanática de rejeitar qualquer alimento, porque todos são bons[6].

 

O Alimento é Santificado Pela Oração

Já Martin Dibelius, Ralph Earle, Archibald T. Robertson, F. F. Bruce, R. C. H. Lenski, Everett F. Harrison, Roy S. Nicholson e Gordon Fee pensam que independente do que seja, sendo criado por Deus dando-se ações de graças, pode ser considerado apropriado. Tudo é lícito quando dedicado.

gratidão

A ação de graça torna aceitável o alimento pela expressão de gratidão. Existe certa condicionalidade na questão. Qualquer alimento se torna aceitável após a ação de graça, não porque o alimento seja mau em si, mas porque a ação de graça prepara o que recebe o alimento[7].

O Alimento é Santificado Pela Oração do Justo

Morgan P. Noyes enfatiza também a ideia de que o alimento é santificado pela oração do justo.

judeu orando 2

Para ele, o homem regido pelo Espírito, tendo vontade e vida santificada, não pode ser contaminado por qualquer influência ou objeto externo. Tudo é puro para o puro, tudo é aceitável para o aceitável[8].

A Lei Mosaica Foi Abolida

Russel N. Champlim, John N. Kelly, Henry H. Halley e os comentários das Bíblias de Tradução Ecumênica e Edição Pastoral argumentam que o texto apoia a abolição das leis alimentícias. Dizem que o próprio Cristo aboliu essas leis, rejeitando-as como mero ritual (Mc 7:19).

lençol

Também com o intuito de provar a Pedro, foi-lhe concedida uma visão apresentando todo e qualquer tipo de alimento como aceitável (At 10:9). Todas as regulamentações cerimoniais da legislação mosaica caem por terra no conselho de Paulo a Timóteo. Essas regras “jazem no passado”, nem sendo dignas da atenção dos crentes. Os que aceitam o evangelho estão livres das leis alimentícias[9].

A Alimentação Regida Pela Palavra de Deus

B. Meyer, George W. Knight III e o Comentário bíblico Adventista del Séptimo Dia defendem a ideia de que os alimentos dados na criação não devem ser rejeitados. Não existe qualquer restrição em relação àqueles alimentos, exceto aos que foram dados após o dilúvio.

SÁBADO

A alimentação do homem é regida pela Palavra de Deus. Cada coisa criada tem seu propósito definido, devendo ser usado de maneira apropriada. Paulo não revoga as distinções entre alimentos puros e impuros, instituídas por Deus através de Moisés. Ele está afirmando que tudo é bom, dentro de um propósito definido[10].

O TEXTO – Delimitação da Perícope

A perícope da passagem que está sendo analisada corresponde a 1Timóteo 4:1-5, que pertence a uma seção de instruções especiais a Timóteo (4:1-16). Chegamos a essa conclusão, procurando respeitar os limites naturais do texto, ao averiguar os elementos de unidade e de divisão explícitos no próprio texto bíblico.

Elementos de Unidade

Ao verificar o contexto da perícope delimitada observa-se que o tema unificador é marcado pela preocupação de Paulo quanto a apostasia provocada por doutrinas estranhas, hipocrisia e mentira, iniciado em 4:1. Paulo prediz a apostasia por doutrinas estranhas (1Tm 4:1), dizendo que os que a propagam são hipócritas (vs. 2) por proibirem o uso de coisas “boas”, “criadas por Deus” (vss. 3 e 4). Esse tema é tratado até 4:5 na expressão “pela palavra de Deus e oração é santificada”, referindo-se ao casamento e à alimentação.

Elementos de Divisão

Os limites são indicados pela mudança de tema. No final do capítulo 3 (vss 14-16), Paulo justifica os conselhos dados anteriormente (2:8- 3:13), tratando do procedimento na casa de Deus por parte das mulheres, diáconos e bispos; ele muda consideravelmente de assunto no verso 1 do capítulo 4, quando passa a tratar da apostasia que viria a igreja por espíritos enganadores e doutrinas de demônios que rejeitavam o casamento e abstinham-se de alimentos. Já o fim da perícope encontra-se no verso 5 do capítulo 4, pois no verso 6, Paulo dá início a uma série de recomendações ministeriais notavelmente visto nas expressões: “serás bom ministro”, “rejeita as fábulas”, “exercita-te”, “manda”, “ensina-as”, “sê o exemplo”, “persiste”, “não desprezes”. Ele não mais trata de assuntos doutrinários específicos. Justificamos a delimitação por notarmos a diferença da seção anterior (2:8- 3:16) ao tratar da postura na igreja e das instruções posteriores (4:6-16) ao fazer recomendações específicas às atividades ministeriais de Timóteo[11].

O Texto da Perícope

Segundo a 4ª edição do The Greek New Testament, a perícope proposta não apresenta variantes textuais[12].

Tradução[13]

O Espírito diz expressamente que nos últimos tempos alguns renegarão a fé, dando atenção a espíritos sedutores e a doutrinas demoníacas, 2por causa da hipocrisia dos mentirosos, que têm a própria consciência como que marcada por ferro quente; 3eles proibirão o casamento, exigirão a abstinência de certos alimentos, quando Deus os criou para serem recebidos, com ações de graças, pelos que têm fé e conhecem a verdade. 4Pois tudo o que Deus criou é bom, e nada é desprezível, se tomado com ações de graças, 5porque é santificado pela Palavra de Deus e pela oração.

Tradução Literal

A tradução literal do texto de 2 Timóteo 4:4, segundo nos parece, é a seguinte: “Pois tudo que Deus criou é bom, e nada é recusável se recebido com ações de graça”.

Conclusão Parcial

O conteúdo da perícope traz um conselho de Paulo a Timóteo quanto a apostasia provocada por falsas doutrinas que pregam a abstinência de alimentos e do casamento. Paulo reprova esta prática ascética por serem estas coisas instituídas por Deus na Criação, não havendo, portanto, dentro desse plano original, motivos para serem rejeitados. Paulo é enfático ao tratar do problema da apostasia. Ele procura esclarecer que tais práticas ascéticas estão em desacordo com a verdade. O texto contrasta as “outras doutrinas” com a sã doutrina, a hipocrisia com a verdade. O apóstolo recorre a criação para confirmar o paradigma do “bom” relacionado ao casamento e aos alimentos.

Contexto Geral

O Autor

O autor se identifica claramente como Paulo. Além da apresentação (1Tm 1:1) e da experiência pessoal (1:12-14), notamos que o apóstolo refere-se a uma viajem para a Macedônia, aconselhando o jovem Timóteo a permanecer em Éfeso, esperando em breve encontrar-se com ele, mesmo que venha a demorar um pouco (1Tm 1:3; 3:14, 15 e 4:13). Essas referências não teriam motivo de serem mencionadas se de fato não fosse o próprio Paulo quem as houvesse escrito[14].

Paulo apóstolo

Todavia, a crítica moderna levantou a ideia de que o autor poderia não ser Paulo e sim alguém próximo a ele, ou qualquer um outro que, com o propósito de dar credibilidade ao escrito, atribuiu ao apóstolo a autoria da carta[15].

Parece não haver coerência em aceitar a ideia de que alguém, posterior a Paulo, tenha escrito cartas preocupando-se em dar informações sobre viagens e planos, sendo seu objetivo principal combater ideias erradas e aconselhar o ministro quanto a maneira de conduzir a igreja. Tais referências harmonizam-se com o relato de At 16:10, 11; 18:5 e 11 12 19:22, onde vemos descrições da 3ª viagem missionária de Paulo, deixando-nos evidências claras de que o apóstolo é o autor da epístola1.

Data e Local

A referência inicial da carta quanto ao destino de Paulo (1Tm 1:3) e sua intenção em voltar a Éfeso para juntar-se a Timóteo (3:14), mostra-nos que a carta foi remetida da Macedônia. Pelos planos de viagem do apóstolo (3:14, 15 e 4:13), concluímos que a carta de 1Timóteo foi escrita num período em que Paulo estava em liberdade, em contraste com a segunda epístola, escrita num tom bem diferente, por ele estar preso em Roma (2 Tm 1:16, 17; 2:9; 4:6-8 e 16-18)[16].

A diferença circunstancial em que a primeira e a segunda carta foram escritas poderão estabelecer uma data aproximada de sua composição. O ano de execução de Paulo, normalmente é aceito como ocorrido em 64 d.C. Por relatos históricos, sabemos que sua morte ocorreu no período em que Nero governava, entre os anos 54-68 d.C. Se Paulo escreveu a segunda carta a Timóteo enquanto estava preso em Roma, consideramos a autoria da primeira epístola a Timóteo como ocorrendo numa data anterior ao aprisionamento, em sua 3ª viagem, no final da quinta, início da sexta década de nossa era[17].

Circunstâncias Históricas

Quando Paulo escreveu a carta a Timóteo, os judeus ainda estavam sob o jugo romano e Jerusalém ainda não havia sido destruída. Iniciando seu trabalho junto aos gentios, Paulo funda várias igrejas na Ásia. Entre elas, encontra-se a de Éfeso, na região da Ásia menor[18].

Efeso

As circunstâncias no qual a carta foi escrita nos ajudam a entender o conteúdo da mesma. Paulo estava de viajem para a Macedônia. Quando passa por Éfeso, vê-se forçado a deixar Timóteo ali, para que lide com alguns problemas existentes na igreja. Ao escrever a carta, Paulo está bem ciente dos problemas da igreja, por isso é tão específico ao descrever tais problemas[19].

O apóstolo busca conscientizar Timóteo de sua obra, encorajando, instruindo e preocupando-se com ele. Era trabalho de Timóteo tratar da adoração (1Tm 2:1-8), do procedimento de vários grupos da igreja (2:9-3:13; 5:1-6:2) e das falsas doutrinas (especificamente 4:1-5). Mesclado a tudo isso foram feitas recomendações diretas ao ministério de Timóteo e como ele deveria lidar com todas essas questões.

Contexto Histórico Específico

Os problemas abordados por Paulo tinham que ver com falsas doutrinas, disseminadas por hereges que promoviam contendas e dissensões levando uma vida moralmente questionável. Essas doutrinas, também pregadas por uns tais de Alexandre e Himeneu, homens citados e rejeitados por Paulo (1Tm 1:20), que, aparentemente misturavam elementos judaicos e gnósticos nas suas doutrinas.

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Apesar de ganhar expressão a partir do 2° século, o gnosticismo manifestou-se antes disso. Podendo ser chamado de “pré-gnósticismo”, esta corrente já sentida no 1° século representava mais uma maneira de pensar do que uma religião. Fundia-se com facilidade a qualquer religião, ajustando-se também a filosofia. Para os gnósticos a matéria é constantemente má, sendo bom o que se relaciona apenas com o espírito. A salvação, segundo eles, vinha pelo conhecimento – a Gnósis[20].

O ascetismo era uma forte característica dessa corrente, que praticava a penitência visando a perfeição. Abstinham-se de alimentos, relações sexuais e bebidas alcoólicas buscando a purificação. Segundo eles, tais práticas comprometiam o recebimento da Gnósis[21].

Conclusão Parcial

Através de evidências aqui analisadas, vemos que Paulo foi o autor da epístola, e que ao escrever a Timóteo buscava instruir o discípulo tanto na conduta ministerial como na solução de problemas existentes na igreja de Éfeso. Em sua carta, Paulo demonstra preocupação específica com as ameaças pré-gnósticas que procuravam fundir-se com a sã doutrina. Tais ameaças promoviam a abstinência de alimentos e a rejeição do casamento, sendo tratadas por Paulo como heresia.

CONTEXTO LITERÁRIO

Gênero Literário

A perícope analisada está inserida na sua totalidade, no gênero literário denominado carta, comumente considerada como “carta pastoral[22].

Forma Literária

A forma literária da perícope é interpretada como a de conselho ou instrução, especificamente um conselho contra a apostasia (4:2). Percebe-se essa característica pela maneira que Paulo insiste em instruir a Timóteo em questões pertinentes ao bom funcionamento da igreja (4:1). O apóstolo age como um professor – antevendo, evidenciando e combatendo problemas[23].

Estrutura do Livro[24]

  1. Saudação.
  2. A tarefa de Timóteo em Éfeso, 1:3-11.
  3. Supressão de Falsos Mestres, 1:3-7
  4. O Propósito da Lei, 1:8-11

III. Ação de Graças à Deus, 1:12-17

  1. A graça abundante de Deus, 1:12-14
  2. O Pior dos Pecadores, 1:15-17
  3. A responsabilidade de Timóteo, 1:18-20
  4. Adoração e Conduta, 2:1 – 3:16
  5. Oração, 2:1-7
  6. Homens, 2:8
  7. Mulheres, 2:9-15
  8. Pastores, 3:1-7
  9. Diáconos, 3:8-13
  10. O ministério da piedade, 3:14-16
  11. Instruções Especiais a Timóteo, 4:1-16
  12. Falso Ascetismo, 4:1-5
  13. Superioridade espiritual, 4:6-10
  14. Deveres Pastorais, 4:11-16

VII. Grupos Especiais na Igreja, 5:1 – 6:2

  1. Os mais velhos e os mais novos, 5:1, 2
  2. Viúvas, 5:3-16
  3. Anciões, 5:17-25
  4. Escravos, 6:1, 2

VIII. O perigo do Amor ao Dinheiro, 6:3-10

  1. Apelo de Paulo a Timóteo, 6:11-16
  2. Instruções Finais, 6:17-21
  3. Admoestações para os Ricos, 6:17-19
  4. Admoestações a Timóteo, 6:20, 21a
  5. Adeus, 6:21b

Verificamos pela estrutura acima, que nossa perícope (1Tm 4:1-5) se enquadra dentro da seção de instruções especiais dadas a Timóteo em 4:1-16.

Estrutura da Perícope

A perícope nos parece estar estruturada da seguinte maneira:

  1. A Descrição da Apostasia, 4:1-3a
  2. O Espírito Prediz a Apostasia, 4:1a
  3. A Causa da Apostasia nos Últimos Tempos, 4:1b

(1) Pela Obediência de Espíritos Enganadores, 4:1b’

(2) Pelo Ensino de Demônios, 4:1b”

  1. A Manifestação da Apostasia nos Últimos Tempos, 4:2

(1) Pela Hipocrisia, 4:2a

(2) Pela Mentira, 4:2b

(3) Por Uma Consciência Cauterizada, 4:2c

  1. A Pregação Apóstata nos Últimos Tempos, 4:3a

(1) Proibição do Casamento, 4:3a’

(2) Abstinência de Alimentos, 4:3a”

  1. A Descrição da Verdade, 4:3b -5
  2. Deus Criou Alimentos para Serem Recebidos, 4:3b

(1) Com Ações de Graças, 4:3b’

(2) Pelos Fiéis, 4:3b”

(3) Pelos que Conhecem Plenamente a Verdade, 4:3b”’

  1. Tudo que Deus Criou é Bom, 4:4a
  2. Recebido com Ações de Graça nada é Recusável, 4:4b
  3. A Palavra de Deus e a Oração Santificam, 4:5

Figuras de Linguagem

A perícope em questão traz consigo algumas figuras de linguagem que acabam enfatizando a mensagem do texto. Em 1Tm 4:1, encontramos uma antenantiosis que consiste na redução da pessoa ou objeto com o objetivo de a engrandecer. Nesse verso quando Paulo diz que “alguns apostatarão”, de fato ele quer dizer que muitos, uma multidão apostatará[25]. Em 1Tm 4:3, encontramos um protozeugma e uma paronomasia, uma figura de construção onde é omitido um termo facilmente identificado na oração ou contexto.

No verso três isso ocorre entre os verbos “proibir” e “mandar”, sendo o segundo verbo omitido a fim de enfatizar o primeiro[26]. Em 1Tm 4:2, vemos a expressão “cauterizada”, uma espécie de metáfora, que substitui uma palavra por outra, não possuindo entre si uma ligação. É mais usada para lhe atribuir um significado do que meramente uma comparação[27].

Conclusão Parcial

Chamada de “carta pastoral” por haver muitas recomendações ao trabalho ministerial, 1Timóteo é de natureza instrutiva. A estrutura literária da perícope nos ajuda a entender o texto por contrastar apostasia e verdade, classificando como erro a abstinência alimentar e matrimonial e como verdade o fato de Deus ter criado estas coisas para serem usadas. Em 1Tm 1:3-11 Paulo atribui a necessidade da permanência de Timóteo em Éfeso a existência de “outras doutrinas”(vs. 3). Segundo o apóstolo estas heresias desviam alguns (vs. 6) e promovem discussões (vs. 4). São pregadas por alguns que se julgam “mestre da lei”, mas que “não entendem o que dizem”. A perícope (4:1-5) está intimamente ligada a esta seção por detalhar que “outras doutrinas” eram as práticas ascéticas (vs. 3) e por classificar a lei como “boa” quando usada de maneira legítima (1:8), assim como o uso de alimentos por serem dados por Deus na criação (4:4).

ANÁLISE LÉXICO-SINTÁTICO E TEMÁTICA

Para uma compreensão segura do texto, faz-se necessário uma análise léxico-sintática da palavra καλος, onde está implícito o problema de nosso estudo.

Καλος pode ser traduzida em seu significado básico como: “organicamente saudável”, “apropriado”, “útil”, “sadio”. Julgamentos estéticos se vinculam desde a mais remota antiguidade ao conceito de saudável e “belo”. Posteriormente, o significado foi alargado e ganhou o sentido adicional de “moralmente bom”[28].

A Palavra no Contexto do Verso

“Pois tudo que Deus criou é bom, e, recebido com ações de graças, nada é recusável”. O verso busca esclarecer um assunto mencionado no verso anterior (vs. 3), a abstinência de alimentos e a proibição do casamento.

A expressão “que Deus criou” explica o “tudo” de 1Tm 4:4, colocando-o em paralelo com Gn 1:31, onde o adjetivo “bom” é também usado para classificar a obra da criação. Esta classificação não valida todo e qualquer uso, antes, sublinha a qualidade da criação, em seu propósito original, como base para determinar a discussão acerca do uso de alimentos e da prática do casamento.

A ação de graça mencionada no verso está em harmonia com a ideia bíblica da cooperação e submissão a Deus. Repetidas vezes, Paulo enfatiza a necessidade de expressar gratidão e reconhecimento a Deus (Cl 1:12; 2:7; 3:15; 3:17 e; 4:2). Em Colossenses 3:17, Paulo declara: “quanto fizerdes por palavras ou por obras, fazei tudo em nome do Senhor Jesus, dando por ele graças a Deus Pai”. A ação de graça assume papel importante no sentido de expressar gratidão à Deus, mas não provoca mudança no que Ele criou. Portanto, a qualificação não está associada à vontade humana, nem tampouco a uma atitude sua. A palavra de Deus é quem determina a santidade e qualifica aquilo que pode e deve ser recebido (1Tm 1:5).

O Contexto da Palavra na Perícope

A primeira parte da perícope é marcada pela descrição da apostasia (1Tm 4:1-3a). Predita pelo Espírito como ocorrendo nos últimos tempos, tal apostasia seria caracterizada pela “obediência a espíritos enganadores” e “ensinos de demônios”. Manifestar-se-ia na “hipocrisia” e “mentira” daqueles que têm a “mente cauterizada”, que “proíbem o casamento e exigem a abstinência de alimentos”. Isso está em pleno contraste com a descrição da verdade vista na segunda parte da perícope (1Tm 4:3b-5) que reafirma a licitude dos alimentos dados na criação. Os que praticam o casamento e recebem esses alimentos são descritos como fiéis e plenos conhecedores da verdade. A validade dessas coisas está condicionada à criação, como evidente nas expressões: “que Deus criou para serem recebidos” (vs. 3) e “tudo que Deus criou é bom” (vs. 4).

A apostasia rejeita a fé (vs. 1) e é sustentada pela hipocrisia dos mentirosos e doutrinas de demônios (vss. 1 e 2), enquanto a verdade recebe o apoio daqueles que a 21 conhecem plenamente e dos fiéis (vs. 3) que se apoiam na Palavra de Deus e na oração (vs. 5).

O Contexto da Palavra na Carta

Para compreendermos melhor o contexto da palavra no livro, é fundamental que tenhamos em mente o objetivo de Paulo ao escrever a carta. O Apóstolo procura fazer recomendações pertinentes ao funcionamento da igreja e ao ministério de Timóteo com o intuito de preservar a igreja da apostasia.

profeta II

Sua preocupação é de eliminar tendências filosóficas não bíblicas que “se ocupam com fábulas e genealogias sem fim que promovem discussões” (1:4); que “se voltam para as discussões inúteis” (vs. 6); “obedecem a espíritos enganadores e a ensinos de demônios” (4:1); “são guiados pela hipocrisia dos que falam mentiras” (vs. 2); “proíbem o casamento e exigem abstinência de alimentos” (vs. 3); “dedicam-se a fábulas profanas” (vs. 7); “têm mania por questões e contendas de palavras” (6:4) e que; “supõem que a piedade é fonte de lucro” (vs. 5). Paulo aconselha Timóteo a não permitir que “ensinem outra doutrina” (1:3). Condena aqueles “contrários a sã doutrina” (vs. 10), prediz a apostasia pela pregação da “doutrina de demônios” (4:1) e acusa de blasfêmia os que ensinam “outra doutrina” (6:3).

Tratando dessa corrente herética, Paulo usa a lei para sustentar a verdadeira doutrina. O contraste feito por ele entre a heresia e a verdade ganha forma quando ele recorre ao relato da criação. O “bom” usado em Gênesis revela o parecer de Deus à sua própria obra, e é usado por Paulo para confirmar a validade dos alimentos e do casamento dados na criação.

A palavra καλος ocorre dezesseis vezes na primeira carta a Timóteo, procurando sempre destacar uma atitude, necessidade ou qualificar uma pessoa.

Destacamos duas ocorrências que elucidam o texto de 1Tm 4:4. Para contrastar a verdadeira doutrina da graça com as “fábulas” que produzem “vãs contendas” e que não passam de “falsas doutrinas”, 1Tm 1:8 classifica a lei como “boa” se usada de maneira legítima. Logo, a qualidade está condicionada à maneira e ao propósito do uso.

A outra referência encontra-se em 1Tm 4:6. Esse verso vem logo após a nossa perícope. Assim Paulo, ao descrever a apostasia e suas manifestações (4:1-3a) e expor a verdade utilizando o relato da criação (vss. 3b-5), anima Timóteo a ensinar essa verdade, que é a “boa” doutrina (vs. 6) e não as fábulas que incentivam uma “fé fingida” (1:5) que não passa de hipocrisia (4:2).

Portanto, o apóstolo ao recomendar Timóteo que repreenda os que pregam “outra doutrina”, afirma que “a lei é boa”, indicando que a “boa doutrina” é aquela fundamentada na Palavra revelada de Deus e não em meras conjecturas produzidas por uns que “pretendem ser mestres da lei, mas não sabem nem o que dizem” (1:7).

Paralelo de Palavras

Καλος aparece noventa e nove vezes[29] no Novo Testamento[30], quarenta e uma delas nos escritos de Paulo, sendo vinte e três nas epístolas pastorais[31].

O uso de καλος merece destaque nos capítulos 7 e 14 da epístola aos Romanos. Em Romanos 7:16 a palavra é usada para qualificar a lei por sua moral e excelência, em contraste com as frustradas tentativas do apóstolo de observá-la perfeitamente. A mesma expressão é usada em 1Tm 1:8. Em ambos os casos, notamos o modo determinante de Paulo ao classificar a lei como “boa”. Em Romanos 14:21, diz que “não é bom comer carne, nem beber vinho, nem fazer outras coisas em que teu irmão tropece, ou se enfraqueça”. Tais palavras demonstram a preocupação de Paulo com os mais fracos na fé e a responsabilidade dos mais fortes em relação a estes, semelhantemente a 1Co 8, que será abordado mais abaixo. O apóstolo argumenta que o cristão deve estar disposto a renunciar sua liberdade a escandalizar um irmão mais fraco. Não importa se a carne ou o legume fazem parte da dieta, porque ambos foram permitidos. A preocupação se dá em conservar os mais fracos de um escândalo, não lhes comprometendo a fé.

Em 1Co 7, καλος é usado três vezes (vss. 1, 8, 26) no contexto de casamento e deve ser entendido como uma resposta aos capítulos 5 e 6, que tratavam da fornicação. Paulo responde tanto aos que viviam na libertinagem como a uns judeus que pregavam a obrigatoriedade do casamento apoiados em suas tradições. O apóstolo valida o matrimônio ao dizer que os que casam não pecam (1 Co 7:28, 36), mas não reprova quem, assim como ele, decide ficar solteiro (vs. 8). A prática espúria do sexo e a exigência abstêmia do casamento são condenadas por Paulo, o que importa segundo ele, é a observância dos mandamentos de Deus (vs. 19).

A epístola aos Hebreus no capítulo 13 apresenta os deveres sociais do crente, exaltando os que conservam o matrimônio sem impureza (vs. 4). Aponta como bom o coração cheio de graça e não de caprichos disfarçados de obrigações religiosas como a abstinência de alimentos (vs. 9).

Na Bíblia Hebraica LXX

Na tradução do Tanach, a LXX usou a palavra καλος para traduzir as palavras yāţab e ţôb. A primeira significa uma “bela aparência externa”, já a segunda geralmente é traduzida por “bom” e abarca tanto valores externos quanto morais[32].

septuaginta

Outra palavra de significado semelhante é αγαθος. Como sinônimo de καλος, ela agrega em seu sentido o toque de Deus, sendo bom o que se associa à Ele[33]. Em seu uso comum, αγαθος dá sentido de “bom”, “útil”, “suficiente”, “apropriado”, “beneficioso”, “honrado”[34]. Usada em sua maioria para traduzir ţôb, αγαθος ficou sendo a designação regular do caráter ou das ações de Deus, aquilo que O agrada e se dirige à vontade dEle expressa na lei (Mq 6:8; Is 1:17; Dt 6:18; 12:28; II Cr 14:2 e Pv 3:4)[35].

O uso extraordinário de καλος em Gênesis 1:31 explica a preferência de Paulo em 1Tm 4:4 pela palavra. Num contexto como o da criação, ţôb normalmente seria traduzida por αγαθος, entretanto, a LXX prefere utilizar καλος, escolha seguida por Paulo ao referir-se à criação.

Paralelo de Ideias

Alimentação

Na Bíblia Hebraica

A dieta original foi dada por Deus na criação. Ela é descrita como envolvendo “toda a erva que dá semente, que está sobre a face de toda a terra; e toda a árvore, em que há fruto que dá semente, servindo para mantimento” (Gn 1:29). Essa proposta/lei é aquilo realmente “bom” para alimentação (vs. 31). Após a entrada do pecado, adicionado a isso, foi dado também ao homem a “erva do campo” (3:18).

Em Gn 9:3 vemos a liberação do alimento cárneo após o dilúvio. É importante lembrar que a distinção entre animais puros e impuros já existia, como visto nas recomendações de Deus a Noé sobre que animais deveria preservar dentro da arca (Gn 7:2, 8; 8:20).

Em Lv 11 temos a lei acerca dos animais puros e impuros. Tais normas, consideradas por Deus como essenciais (vss, 46, 47), esclarecem com mais detalhes aquilo que já era conhecido. Deus encerra a seção associando a santidade com a obediência a essas ordenanças (vs. 43).

O uso da carne, como observado, não fazia parte do plano original. É em Gn 1:29 que encontramos a lei de Deus sobre a conservação de Sua criação perfeita, em termos de alimentação, avaliada por Ele como “muito bom” (vs. 31).

Nos Ensinos de Jesus

Jesus, em debate com os fariseus, declarou em Mateus 15 que “o que entra pela boca não contamina o homem, e sim o que sai da boca”, levando alguns a entenderem que não há mais restrição ao uso de alimentos.

Jesus e a Torá

No entanto, ao Jesus explicar a “parábola” (assim classificada pelos discípulos [vs. 15]), Ele diz que a maldade do coração é que contamina o homem e não o deixar de lavar as mãos (vs. 20) que é mera tradição (vss. 2, 3 e 7). Portanto, a questão do debate não eram os tipos de alimentos apropriados, e sim a violação da tradição. Ao condená-la (a tradição), Jesus valida a lei e acusa os fariseus de transgredi-la em detrimento de doutrinas que são “preceitos de homens” (vs. 9).

No Livro de Atos

Faz-se necessário uma breve menção à passagem de Atos 10, por ser interpretada como uma prova de já não haver mais restrições alimentícias, como especificadas na lei mosaica. O relato descreve Pedro diante de um grande lençol que descia do Céu, e sobre ele toda a espécie de animal imundo (vs. 11 e 12). Diante de tal cena lhe é ordenado que mate e coma (vs. 13). O apóstolo nega o pedido (vs. 14). Então, a voz lhe diz que não deve ser considerado comum o que Deus purificou. Aparentemente o assunto é sobre alimentação. Entretanto, fica claro nos versos 28, 34 e 35 que a questão é o preconceito racial. Deus apenas usou um assunto comum e familiar a Pedro para comunicar Sua vontade. Deste modo, o que Deus purificou não são os animais “imundos”, mas as pessoas que o “temem”, independente da raça (vs. 35).

Nos Escritos de Paulo[36]

Em 1Co 8 vemos o problema da carne sacrificada a ídolos. Paulo lembra que o “ídolo nada é no mundo”, porque há “um só Deus” (vss. 4-6). Todavia, ele não desconhece o fato de que alguns não são familiares a essa verdade (vs. 7), e se espantariam ao ver um cristão à mesa comendo carne sacrificada a ídolos (vs. 10). O apóstolo não visa, com este relato, determinar que espécie de alimento deva ser ingerido pelos cristãos, como uma exegese errada poderia mostrar. O ponto determinante tem a ver com um problema de consciência. Em outras palavras, Paulo preocupa-se com o fraco na fé, que não deve ter a consciência abalada ao ver um cristão participando de algo que ele poderia muito bem deixar de lado apesar de lícito (vss. 8, 13)[37].

escrever

No capítulo 10 da mesma epístola, Paulo trata mais uma vez do uso da carne sacrificada a ídolos. Declara que a participação na idolatria é um culto direto aos demônios e não deve ter lugar na vida do crente (vss. 14-21). Considerando a liberdade humana, o apóstolo declara que “todas as coisas são lícitas, mas nem todas convêm; todas as coisas são lícitas, mas nem todas edificam” (vs.23). O conveniente pra Paulo aqui é o não servir de tropeço a ninguém (vss. 24, 32), buscando a salvação de muitos e não a satisfação própria (vs. 33). Quando o apóstolo diz para que se “coma tudo o que se vende no mercado, sem pergunta nada” (vs. 25), ele não está endossando o uso de qualquer tipo de alimento como se não houvesse diferença entre eles. A “pergunta” a que Paulo se refere diz respeito à dedicação aos ídolos e não o tipo de animal sacrificado[38].

O princípio estabelecido em toda essa discussão é a glória de Deus que deve ser buscada em cada ação humana e o dever do crente em relação àqueles que Ele busca salvar. Os três grupos mencionados em 1Co 10:32 assinalam a responsabilidade do crente como estando além das fronteiras ou paredes da igreja, envolvendo todas as pessoas.

Casamento

Na Bíblia Hebraica

O casamento é instituído na recomendação de Gn 1:28 que diz: “frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a; e dominai sobre os peixes do mar e sobre as aves dos céus, e sobre todo o animal que se move sobre a terra”. E confirmado pelo diagnóstico divino ao dizer que “não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma auxiliadora que lhe seja idônea” (Gn 2:18).

Como parte da criação, o casamento também é classificado como “muito bom” (Gn 1:28, 31). Contrário a ideia de ser pecaminosa, a relação sexual ratifica o compromisso do casamento, proporciona prazer e participa juntamente com Deus da perpetuidade da vida.

casal de judeus desenho Bea

A expressão “e serão uma só carne” (Gn 2:24) denota uma relação etimológica com a afirmação de que “há um só Deus” (Dt 6:4). O uso de ehad para a união matrimonial indica que o homem e a mulher, unidos por laços de amor e fidelidade no matrimônio, exemplificam a plenitude da imagem de Deus no seio da humanidade, segundo o Seu plano estabelecido na criação.

Nos Ensinos de Jesus

Questionado pelos fariseus sobre o casamento (Mt 19:3-12; Mc 10:2-12 e Lc 16:18), Jesus usa o evento da criação para solucionar o problema como visto nessas palavras: “não tendes lido [na lei e nos profetas] que o Criador, desde o princípio, os fez homem e mulher e que disse: Por esta causa deixará o homem pai e mãe e se unirá a sua mulher, tornando-se os dois uma só carne?” (Mt 19:4; Mc 10:6-9). Com essa citação de Gn 2:24, Ele põe fim ao debate, validando o matrimônio como instituição divina. Jesus usa a lei e o evento da criação como base na discussão com os fariseus.

Nos Escritos de Paulo[39]

Paulo, em suas cartas, procurou tratar de questões familiares e matrimoniais. Em Romanos 7:2, antes de classificar a lei como “boa”, Paulo reafirma a vigência da mesma ao dizer que a “mulher está sujeita ao marido… pela lei”. Ao aconselhar os maridos e as mulheres da igreja de Éfeso (Ef 5:22-33), o apóstolo menciona o relato da criação para solucionar o problema e ratificar o compromisso matrimonial. Ele traça um paralelo entre o marido e Cristo, a mulher e a igreja. O homem deveria amar a mulher assim como Cristo ama a igreja (vs. 25), por sua vez, a mulher deveria se submeter ao marido “como ao Senhor” (vs. 22). Quando cita Gn 2:24, Paulo aponta o modelo da criação como parâmetro, enfatizando também o princípio do amor que deve prevalecer no casamento a exemplo do relacionamento que Cristo mantém com Sua igreja.

Não diretamente ligados à compreensão do nosso texto, existem outras duas passagens na primeira carta a Timóteo que abordam a questão do matrimônio. No capítulo 3, verso 12, Paulo reafirma o plano monogâmico do casamento ao considerar este um critério para a ordenação do diácono, e em 5:14, o apóstolo recomenda o casamento às viúvas mais novas a fim de assumirem o papel da mulher no lar.

A Sã Doutrina

A compreensão do nosso texto (1Tm 4:4) exige uma abordagem da problemática enfrentada por Paulo sobre as falsas doutrinas. Em suas cartas, o apóstolo busca prevenir os crentes contra a apostasia provocada por essas falsas doutrinas que causavam desordem na igreja.

Na epístola aos Efésios, Paulo expressa preocupação com a maturidade espiritual dos santos nas seguintes palavras: “para que não mais sejamos como meninos, agitados de um lado para outro e levados ao redor por todo vento de doutrina, pela artimanha dos homens, pela astúcia com que induzem ao erro” (4:14).

doutrina

Paulo está se referindo a falsa piedade condenada em 1Tm, que para ele não passa de “vento de doutrina”. A carta aos Colossenses traz uma advertência à igreja para não se “enganar com raciocínios falazes” (2:4) e que “tome cuidado [para] que ninguém os enrede com suas filosofias e vãs sutilezas, conforme a tradição dos homens, conforme os rudimentos do mundo e não segundo Cristo” (vs. 8).

Notamos ranços de distorções doutrinárias e risco de apostasia em outras partes do Novo Testamento também. A segunda Epístola de Pedro previne os crentes a não “serem arrastados pelo erro desses insubordinados” (2Pe 3:17) que deturpam as Escrituras (vs. 16) e aquilo que “o amado irmão Paulo escreveu” (vs. 15).

Os problemas doutrinários são combatidos por Paulo com o que ele chama de “boa doutrina”, fundamentada unicamente na Palavra de Deus (1Tm 4:6; Tt 1:9; 2:1). O contraste feito por ele no início da primeira carta a Timóteo, entre as falsas doutrinas e o evangelho da graça (ilustrado em sua experiência [vss. 12-16]), mostram a caráter da doutrina verdadeira, que é a lei (vs. 8) unida ao evangelho (vss. 14-16). A sã doutrina é a união entre esses dois elementos – lei e evangelho. Em 1Tm 4:6, ele a classifica como “boa”, e constantemente exorta Timóteo que se apoie na Palavra (4:9, 16; 6:3).

“Outra doutrina” não passa de um mau uso da lei e do evangelho. Ao invés de apontar o pecado (1Tm 1:9) e conduzir a Cristo (vs. 14), a lei é usada para promover uma espécie de aperfeiçoamento meritório (como propagado pelas práticas ascéticas [1Tm 4:3]), excluindo a necessidade de Cristo, que é a essência do evangelho. Paulo repudia tais “fábulas”, “doutrinas”, “filosofias” por usarem a lei de maneira e com propósitos errados.

Conclusão Parcial

A palavra no contexto do verso apresenta a dieta e o casamento como parte integrante da criação e alvo do parecer de Deus em relação à Sua própria obra. O “tudo” de 1Tm 4:4 está em franco paralelo ao de Gn 1:31, etimológica e tematicamente. A afirmação de Paulo de que “tudo que Deus criou é bom” fez-se necessária devido a heresia pietista de proibir o que Deus havia dado para ser recebido. Essa “filosofia” é combatida por Paulo com severidade. Ele a contrasta com a Palavra de Deus, o bom uso da lei e o relato da criação.

Tanto Jesus quanto Paulo usam a lei e o relato da criação como base para repudiar as tradições e ensinos humanos não-bíblicos. Para eles, o plano estabelecido na criação corresponde ao verdadeiro paradigma, devendo ser imitado e considerado realmente “bom”.

TEOLOGIA

Feita a análise textual e abordado os seus problemas, buscaremos aqui refletir sobre as implicações e descobertas feitas ao longo da pesquisa para a teologia bíblica. Nos posicionaremos a partir dos dados encontrados no texto, em relação às diferentes interpretações apresentadas no primeiro capítulo.

Crítica

Uma corrente de pensamento existente no primeiro século, considerada por Paulo como “vã sutileza”, se fundia facilmente com a religião. Podendo ser chamada de “pré-gnosticismo”, caracterizava-se pelo aperfeiçoamento da alma através de práticas ascéticas. O corpo é mau e não deve ter os desejos atendidos. Por isso a obrigatoriedade em abster-se de alimentos e do casamento. Vestido de piedade, essa “corrente” fazia um mau uso da lei ao proibir coisas que a lei considerava apropriada. O reflexo dessas exigências consistia no aperfeiçoamento através de obras e penitências, contrário a “sã doutrina”, que tem por base a justificação pela fé.

Ao tratar desse assunto, Paulo afirma que “tudo que Deus criou é bom e deve ser recebido com ações de graça”. Alguns teólogos, baseados nessa declaração sustentam a ideia de que todos os alimentos são bons por terem sido criados por Deus, não havendo motivos para não serem utilizados. De fato, todos os alimentos são bons para o uso. A questão é o que Deus considera como alimento, pois nem tudo que é possível comer é considerado pelo Criador como próprio à alimentação, haja vista que Ele mesmo determinou a dieta (Gn 1:29).

Outros comentaristas bíblicos afirmam que a oração tem o poder de santificar o alimento. Aceitar isso é não levar em conta que a santificação ou qualificação do alimento é condicionada, como o próprio texto diz: pela “palavra de Deus” (1Tm 4:5). A oração nesse contexto assume apenas o papel de expressar gratidão a algo santificado pela Palavra. Uma atitude humana não pode mudar um princípio ou lei divina. Seria contraditório rogar pela santificação de algo contrário a uma revelação divina já existente. Logo, o papel que a oração assume na refeição é simplesmente uma atitude de gratidão, não mudando essencialmente o “alimento”.

Uma outra linha de pensamento afirma ter sido a lei abolida, não havendo mais restrições quanto ao uso de alimentos. Estes desconsideram o fato de que a lei não é anulada pela fé em Cristo; antes é confirmada por Sua morte. Paulo afirma que ele não conheceria pecado sem a permanência da lei (Rm 7:7). A Carta aos Hebreus se refere à permanência dos Dez Mandamentos na exortação à pureza matrimonial (Hb 13:3). A carta de Tiago chama a atenção para os Dez Mandamentos como o padrão do juízo citando o sétimo e o sexto mandamento como exemplos da “lei da liberdade” (Tg 2:10-12). No início da primeira carta a Timóteo Paulo menciona o mau uso da lei, condenando a heresia e a hipocrisia. Se a lei não estivesse mais em vigor, como alguns destes teólogos sugerem, o apóstolo não se preocuparia em corrigir suas más interpretações. A Bíblia mantém a lei como padrão perfeito da vontade de Deus, e foi a ela (lei) que Jesus recorreu ao debater com os fariseus e Paulo ao trabalhar pela conservação da igreja apostólica.

Reflexão

O bem-estar da igreja depende da unidade doutrinária, e essa, do fundamento que a sustém – as Escrituras Sagradas. Em suas cartas, Paulo demonstra cuidado especial em prevenir os crentes contra as falsas doutrinas. O apóstolo repudia as vãs filosofias que se misturam com a verdade comprometendo suas bases. Para ele, a “boa doutrina” é aquela firmada na Palavra revelada de Deus.

Os alimentos e o casamento protagonizaram algumas discussões na igreja apostólica. Ao tratá-las, Paulo, buscava exaltar o princípio de que tudo deve ser feito para a glória de Deus, que o testemunho é dado em cada ação do crente e o zelo que os mais experientes na fé devem ter para com os mais fracos. O apóstolo não negava as permissões de Deus, mas, buscava levar o crente a ver a conveniência de seus atos.

A alimentação e o casamento encontram seu paradigma na criação. Ambos foram recomendados especificamente no relato de Gênesis. O bom é aquilo que Deus considera bom. Todavia, com a entrada do pecado, alguns ajustes foram feitos. Deus amplia a dieta ao permitir a “erva do campo” e o uso da carne, daí a necessidade de instituir normas para essa ampliação alimentar. Quanto ao casamento, Deus reconhece duas possibilidades para o divórcio – morte e adultério.

CONCLUSÃO

Começamos com uma revisão de literatura, e descobrimos que os autores se dividem em cinco grupos. Primeiro, aqueles que colocam os alimentos como sendo bons intrinsecamente; segundo, os que consideram o alimento como santificado através da oração; terceiro, em complemento à posição anterior, os que defendem a santificação do alimento pela oração do justo; quarto, os que dizem que a lei que determinava isso, foi abolida; e finalmente, os autores que defendem a ideia da alimentação ser regida pela Palavra de Deus.

Delimitamos nossa perícope como se enquadrando em I Tm 4:1 – 5. Analisamos o texto da perícope, notando a inexistência de variantes textuais. Apresentamos uma tradução do texto da perícope. O seu contexto indica que a questão em debate deveria ser compreendida no âmbito do relato da criação, na Bíblia, e o uso do adjetivo “bom” dentro desse relato.

Analisamos o contexto geral e específico, apresentamos o autor como Paulo, escrevendo a carta antes do aprisionamento e execução em Roma, por volta do ano 60 da nossa era. O objetivo primário da carta a Timóteo era aconselhar o jovem pastor em questões pertinentes a sua função ministerial, principalmente a apostasia. As doutrinas condenadas por Paulo torciam a lei fazendo um uso errado dela. Vestida numa espécie de “Pré-gnosticismo”, essas doutrinas defendiam a autopurificação através de penitências. Abstinham-se de muitas coisas, entre elas o alimento e o casamento, na busca do aperfeiçoamento.

Determinamos o gênero literário como carta pastoral, a forma literária como conselho contra a apostasia, a estrutura do livro e da perícope e as figuras de linguagem encontradas nela. Verificamos que o tema central da perícope é a falsa doutrina da autopurificação pela abstinência de alimentos e rejeição do casamento em contraste a qualificação de Paulo ao dizer que “tudo que Deus criou ‘bom’”.

Fizemos uma análise léxico-sintático e temático. Vimos que Paulo utiliza o adjetivo “bom” dentro do contexto da criação de Deus em Gênesis, e aos Seus propósitos originais. O “tudo” utilizado por Paulo em 1Tm 4:4 está em paralelo com o “tudo” de Gn 1:31, sendo aplicado diretamente à criação perfeita, obras das mãos do Criador, excluindo uma aplicação generalizada fora do propósito original. A preferência da LXX por καλος em Gn 1:31 explica o uso de Paulo pela palavra em 1Tm 4:4, quando normalmente se empregaria a palavra αγατηος.           Ao condenar a apostasia, Paulo exalta a verdade, que é a Palavra de Deus. O apóstolo qualifica a lei como “boa” logo após referir-se a criação. Ambos, a criação e a lei, determinam o plano de Deus tanto em relação aos alimentos quanto ao casamento abarcando o que foi estabelecido antes e depois do pecado. Os ensinos gerais mostram que textos como o de At 10, Rm 14 e 1Co 7, 8, 10 buscavam essencialmente a unidade e o crescimento da igreja e em nada aboliam as recomendações de Deus quanto aos alimentos e ao matrimônio. Nos debates de Jesus com os fariseus, Jesus não invalida a lei, mas a tradição. Tanto Jesus quanto Paulo volveram à criação na busca de solução aos debates, não desconsiderando, todavia, as permissões de Deus após o pecado, que ampliavam as propostas originais.

Terminamos contrastando as diferentes interpretações do texto com as descobertas feitas ao longo da pesquisa, a ponto de respondermos: “Seriam todos os alimentos bons em si? ” Não, porque sua qualidade está ligada não só a criação, mas também ao propósito. “Poderia o alimento ser santificado pela oração? ” Não, pois não pode haver discordância entre o pedido e a revelação divina já existente. “Estaria a lei abolida, liberando o uso de qualquer alimento? ” Não, pois Tanto Jesus quanto Paulo usam a lei e o relato da criação como base para repudiar as tradições e ensinos humanos não-bíblicos. “A dieta ‘boa’ seria então a estabelecida na criação? ” Esta é a conclusão geral desta pesquisa – o bom está condicionado ao propósito original de Deus estabelecido e avaliado por Ele mesmo na criação, havendo na lei uma adaptação devido a entrada do pecado.

Autor: Manolo Damásio

TCC apresentado em novembro de 2004

Orientador: Reinaldo W. Siqueira, Ph.D.

Título original: 1 TIMÓTEO 4:4 E A DIETA ALIMENTAR DO CRISTÃO – Ano 1 – Número 2 – 2º. Semestre de 2005

Fonte: http://www.unasp.edu.br/kerygma p.73.

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[1]  Shaul ou Paulo foi profundo conhecedor da Torá e também religioso zeloso da seita dos fariseus, ele era um mestre: “Quanto a mim (Paulo), sou judeu, nascido em Tarso da Cilicia, e nesta cidade criado aos pés de Gamaliel, instruído conforme a verdade da Torá de nossos pais, zeloso do Eterno, como todos vós hoje sois. ” Atos 22,3 (adaptado).

[2] I Tim. 4:4 – Bíblia de Estudo Almeida, Revista e Atualizada, 2ª ed., trad. João Ferreira de Almeida (Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 1999), 172.

[3] A palavra b’rakhah é normalmente traduzida como bênção, porém, pode significar admiração, louvor, agradecimento, é um dos termos que condensa toda a riqueza e originalidade do pensamento hebraico.

[4] Nova Aliança, comumente chamada de Novo Testamento.

[5] Introdução adaptada por Herança Judaica.

[6] “La Esperanza Superior” [I Tm 4:4] Comentario de La Santa Bíblia, ed. Adam Clarke (Kansas City, MS: Casa Nazarena de Publicaciones, 1976), 3:550-551; Francis Davidson, O novo comentário da Bíblia, 3ª ed., trad. Russel P. Shedd (São Paulo: Sociedade Religiosa Edições Vida Nova, 1995), 1318; David S. Dockery, Manual bíblico Vida Nova (São Paulo: Sociedade Religiosa Edições Vida Nova, 2001), 785; e Matthew Poole, Mattew – Revelation, A Commentary on the Holy Bible, 2ª ed., 3 vols. (Carlisle, PN: The Banner of Truth Trust, 1975), 3:782.

[7] Martin Dibelius, The Pastoral Epistles, Hermeneia – A Critical and Historical Commentary on the Bible, 12 vols., 4a ed. (Philadelphia: Fortress Press, 1984), 8:64-65; Ralph Earle, “False Ascetism”, The Expositor’s Bible Commentary (I Timoteo), ed. Frank E. Gaebelein, 12 vols. (Grand Rapids, MI: Zondervan Publishing, 1978), 11:372; Archibald T. Robertson, Word Pictures in the New Testament, 7 vols. (Grand Rapids, MI: Baker Book House, 1931), 4:579; F. F. Bruce, International Bible Commentary, 2a ed. (Grand Rapids, MI: Englande and Zondervan Publishing House, 1986), 1479-1480; R. C. H. Lenski, The Interpretation of St.Paul’s Epistles to the Colossians, to the Tessalonians, to Timothy, to Titus and to Philemon, 12 vols. (Minneapolis, MN: Augsburg Publishing House, 1946), 9:624-625; e Everett F. Harrison, ed. The Wycliffe Bible Commentary, 4ª ed. (Chicago: Moody Press, 1968), 1376; Roy S. Nicholson, Romans, I & II Corinthians, Galatians, Ephesians, Philippians, Colossians, I & II Tessalonians, I & II Timothy, Titus, Philemon, The Wesleyan Bible Commentary, ed. Ralph Earle, 2ª ed., 6 vols. (Grand Rapids, MI: William B. Eerdmans Publishing Company, 1971), 592; e Gordon D. Fee, I e II Timóteo, trad. Luiz Aparecido Caruzo, Novo Comentário Bíblico Contemporâneo (São Paulo: Editora Vida, 1994), 35.

[8] Morgan P. Noyes, “Exegesis of the Book of Timothy”, Interpreter’s Bible, ed. G. Arthur Buttrick (Nova Iorque: Abingdon, 1954), 11:425.

[9] Russel N. Champlim, O Novo Testamento comentado versículo por versículo, 6 vols., 4a ed. (São Paulo: Editora Candeia, 1996), 6:320-321; John N. Kelly, I e II Timóteo e Tito – Introdução e Comentário, trad. Gordon Chown, Série Cultura Bíblica (São Paulo: Sociedade Religiosa Edições Vida Nova, 1983), 94-95; B. H. Carroll, Las Epistolas Pastorales del Apostol Pablo, I y II de Pedro, Judas, I, II y III de Juan, Una Interpretación de la Biblia, 6 vols, ed. J. B. Cranfill, trad. Sara A. Hale (El Paso, TX: Casa Bautista de Publicaciones, 1966), 5:79-81; Henry H. Halley, Manual bíblico (São Paulo: Sociedade Religiosa Edições Vida Nova, 1994), 559; Bíblia Tradução Ecumênica, trad. Gabriel C. Galache (São Paulo: Ediçãoes Loyola, 1988), 2326; e Bíblia Sagrada Edição Pastoral, eds. Ivo Storniolo e Euclides Martins Balancin (São Paulo: Sociedade Bíblica Católica Internacional e Edições Paulinas, 1989), 1532.

[10] 1 F. B. Meyer, Comentário bíblico devocional (Venda Nova, MG: Editora Betânia, 1992), 241; George W. Knight III, The Pastoral Epistoles, A Commentary on the Greek Text, ed. I. Howard Marshall e W. Ward Gasque, 7 vols. (Grand Rapids, MI: William B. Eerdmans Publishing Company, 1992), 5:191-192; e “Bueno” [I Tm 4:4], Comentário bíblico Adventista del 7° Dia [CBASD], ed. Francis D. Nichol, trad. Victor E. Ampuero Matta (Boise, ID: Pacific Press Publishing Association, 1990), 7:303-304.

[11] Apoiam a ideia da perícope de 1Tm 4:1-5 os seguintes comentaristas: Champlim, 5:318; John N. Kelly, 93; F. F. Bruce, 1474; Leon Morris, Introdução ao Novo Testamento, trad. Márcio Loureiro Redondo (São Paulo: Sociedade Religiosa Edições Vida Nova, 1997), 411; Noyes, 1172; e Knight, 5:187.

[12] Kurt Aland e outros, The Greek New Testament, 4a ed. (Grand Rapids, MI: William B. Eedermans, 1989), 718.

[13] Bíblia de Jerusalém (São Paulo: Edições Paulinas, 1973), 2229.

[14] Champlim, 5:266; Fee, 35.

[15] 2 Kelly, 13.

[16] 2 Fee, 15.

[17] 3 Ibid., 16.

[18] Champlim, 5:272.

[19] Ibid.

[20] Philip Hughes, Síntesis de historia de la Iglesia (Barcelona: Editorial Herder, 1963), 72.

[21] “Ascetismo”, Enciclopedia de la Biblia, ed. Alejandro Díez-Macho (Barcelona: Ediciones Garriga, 1963), 1:832.

[22] Recebe este título por abordar problemas eclesiásticos, tendo por intuito ajudar os pastores em seu trabalho, especialmente no ministério do ensino e na vigilância em favor da igreja cristã. Para maiores informações, ver Gordon D. Fee e Douglas Stuart, Entende o que Lês? Um guia para entender a Bíblia com o auxílio da exegese e da hermenêutica, trad. Gordon Chown (São Paulo: Sociedade Bíblica Religiosa Edições Vida Nova, 1991), 30; Champlim, 5:265; Kelly, 9.

[23] Earle, 11:344 e Kelly, 18.

[24] Earle, 11:347.

[25] Ethelbert W. Bullinger, Dicionario de figures de dicción usadas en la Bíblia (Barcelona: CLIE, 1990), 156.

[26] 1 Ibid., 133, 135, 268 e 275.

[27] 2 José de Nicola, Gramática contemporânea da língua portuguesa, 8ª ed. (São Paulo: Editora Scipione, 1992), 441.

[28] Colin Brown, ed., O novo dicionário internacional de teologia do Novo Testamento, trad. Gordon Chown (São Paulo: Sociedade Religiosa Edições Vida Nova, 2000), 1:243.

[29] Mt 3:10; 5:16; 7:17, 18, 19; 12:33; 13:8, 23, 24, 27, 37, 38, 45, 48; 15:26; 17:4; 18:8, 9; 26:10, 24; Mc 4:8, 20; 7:27; 9:5, 42, 43, 45, 47, 50; 14:6, 21; Lc 3:9; 6:38, 43; 8:15; 9:33; 14:34; 21:5; Jo 2:10; 10:11, 14, 32, 33; At 27:8; Rm 7:16, 18, 21; 12:17; 14:21; 1Co 5:6; 7:1, 8, 26; 9:15; 2Co 8:21; 13:7; Gl 4:18; 6:9; 1Ts 5:21; 1Tm 1:8, 18; 2:3; 3:1, 7, 13; 4:4, 6; 5:10, 25; 6:12, 13, 18, 19; 2Tm 1:14; 2:3; 4:7; Tt 2:7, 14; 3:8, 14; Hb 5:14; 6:5; 10:24; 13:9, 18; Tg 2:7; 3:13; 4:17; 1Pe 2:12; 4:10.

[30] Concordância Fiel do Novo Testamento (São José dos Campos, SP: Editora Fiel da Missão Evangélica Literária, 1994), 415-416.

[31] 3 Brown, 1:244

[32] Brown, 240.

[33] Ibid., 242.

[34] Barclay Newman M., Jr. A Concise Greek-English Dictionary of the New Testament (Suttgart, Alemanha: Deutsche Bibelgesellschaft German Bible Society, 1993), 718.

[35] 4 Ibid., 244.

[36] Ver infra, 22. Para um estudo ao uso de καλος por Paulo.

[37] Para uma discussão mais detalhada do assunto, ver Pedro Apolinário, Explicação de textos difíceis da Bíblia 4ª ed. (Santo Amaro, SP: Editora Universitária Adventista IAE, 1990), 144; Knight e; Nichol, [1Co 8].

[38] Para uma discussão mais detalhada do assunto, ver Nichol, [1Co 10].

[39] Para a discussão desse tema em 1Co 7 e Hb 13, ver infra., 22 e 23.

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