O Sacerdote-Rei do Salmo 110: exegese e comentário


 

Esta é a segunda[i] postagem que tratamos sobre o Salmo 110, cremos que seja interessante acrescentar mais reflexão e pesquisa sobre o assunto.

            O Salmo 110 é um dos conhecidos salmos reais. Nele, podemos encontrar uma abordagem messiânica que contribui para torná-lo o texto da “Bíblia Hebraica” mais citado na B’rit Hadashah/Novo Testamento (MAILLOT; LELIÈVRE, 1969, p. 77). Só o primeiro versículo desse salmo tem mais citações e ou alusões no Novo Testamento do que qualquer outro versículo dos textos hebraicos[ii] .

Bíblia Sêfer

Existem várias características interessantes nesse salmo. Além de descrever a função do rei de Israel, podemos encontrar a figura do sacerdote que atuava no templo. Ambas as funções são unidas em um só indivíduo. Quem é esse rei que agrega a função do sacerdócio? Estaria o autor espelhando uma antiga prática do Oriente Médio? Um motivo para tamanha popularidade entre cristãos, especialmente no Novo Testamento, pode estar no fato de que o salmo “afirmava a suprema exaltação sem levar em questão a glória de Deus, o Pai. Ele permitia aos cristãos confessarem sua fé no Jesus absoluto antes que tivessem resolvido problemas como diteísmo e subordinacionismo” (HAY, 1973, p. 159).

Apresentação do texto

            É de consenso entre exegetas que este salmo pertence ao grupo de salmos reais (KRAUS, 1989, p. 346). O texto de Salmo 110 aparece com duas declarações de YHWH (v. 1 e 4), introduzindo a figura de um rei e de um sacerdote. A primeira declaração parece confirmar a autoridade do rei com as palavras “Sente-se à minha direita até que torne teus inimigos estrado de teus pés” (v. 1). Em seguida, faz-se uma promessa de vitórias onde de Sião o rei subjugará seus inimigos (v. 2). Tal tarefa se realizará com o auxílio do povo de seu domínio que surgirão como orvalho ao amanhecer (v. 3). A segunda declaração de YHWH se refere ao sacerdote. Tal declaração possui um aspecto “eterno”, pois YHWH promete que não se arrependerá e que o cargo será “eternamente” funcional: “Tu és sacerdote eternamente após a ordem de Melquisedeque” (v. 3).

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            Não há identificação direta de quem seja esse sacerdote, mas pela construção gramatical do texto, entende-se que “tu” se refira ao rei que fora estabelecido na primeira declaração divina. Em posse desta segunda função, o rei recebe promessas de vitória e eliminação total de seus inimigos através da atuação do Senhor. Ele caminhará de cabeça erguida e não se preocupará por sua segurança (v. 5-7). Uma característica interessante que enriquece o texto são as polaridades encontradas nele. O texto começa com o rei “sentado” no trono (v. 1) e termina com ele indo “a caminho” (v. 7). Outra polaridade é a geográfica: o poder do rei se encontra em “Sião” no verso 2 e é aplicado por “toda terra” no verso 6. O tema da “direita” encontra sua mudança de personagem: no verso 1b é o rei que se assenta “à direita” de YHWH, enquanto que no verso 5a é o Senhor que está “à direita” do rei. Outra imagem contrastante é corporal: no verso 1b os pés pisam, enquanto que no verso 7b a cabeça se encontra erguida (SCHÖKEL; CARNITI, p. 1356). Por fim, além das polaridades, encontramos referências a partes do corpo humano mencionadas no texto: mão direita (v. 1 e 5), pés (v.1), útero (v.3), cadáveres ou corpos (v. 6), cabeça (v. 6 e 7) e sua “ira” (v. 5, originalmente seria “suas narinas”) (DAHOOD, 1970, p. 113).

Estrutura do texto

                Exegetas têm encontrado nesse salmo dois oráculos (WEISER, 1994, p. 536; GERSTENBERGER, 2001, v. 2, p. 263; TERRIEN, 2003, p. 751), ambos começando com uma declaração de YHWH: “Falou” e “Jurou” (SCHÖKEL; CARNITI, 1998, p. 1355). A estrutura literária segue a proposta de Willem A. VanGemeren (1991, v. 5, p. 697).

  • Cabeçalho (v. 1a)
  • Oráculo divino (v. 1b)
  • Vitória (v. 2-3) A’. Oráculo divino (v. 4)
  • B’. Vitória (v. 5-7)

Autoria

                Quanto à autoria e datação do salmo, parece haver consenso de que tenha sido composto em tempos monárquicos (ver ALLEN, 2002, v. 21, p. 112). Entretanto, a data precisa é difícil de ser encontrada. Dentro desse consenso, podemos encontrar praticamente duas propostas. A primeira é de que o texto foi redigido “para” Davi, sendo assim um salmo de entronização que exalta o poder e autoridade do rei no momento de sua entronização (MOWINCKEL, 1967, p. 63-64; KRAUS, 1989, p. 346). Em algum momento durante a entronização do rei em Jerusalém, um profeta ou representante do povo se dirigiria ao rei com essas palavras (ALLEN, 2002, v. 21, p. 111). Diante dessa proposta, qualquer interpretação posterior sugerida por Jesus, contradiria a intenção original do autor e refletiria apenas uma “opinião corrente” nos dias de Jesus (ROOS, 1996, p. 70). Outra proposta para a autoria do salmo é a de que seria o próprio Davi. O autor, nesse caso, estaria se referindo a uma figura futura, possivelmente o próprio Messias. Somos levados a assumir nesta exegese a posição da autoria davídica por dois motivos.

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O primeiro motivo se baseia em evidências encontradas no próprio texto (DAVIDSON, 2004, p. 399). Uma das funções do ְל ligado ao nome de Davi (v. 1) denota “possessão”, “pertença”, “posse”, “propriedade”, “atribuição”, equivalente ao genitivo. Exemplos como Salmos 3:8 הָ֑ ועּשְׁיַה הָ֥יהוַל”) do Senhor é a salvação”) e em 1 Samuel 16:18 ֮יַׁשִיְל ןֵּב֣ (“filho de Jessé”) apoiam tal interpretação. O segundo motivo, está baseado na evidência neotestamentária. Em pelo menos dois lugares encontramos o Novo Testamento confirmando a autoria davídica. Em Marcos 12:36-37, Jesus confirma a visão tradicional da autoria davídica e, posteriormente, encontramos Pedro (At 2:34-35) repetindo as palavras de Jesus. Todo o argumento de Jesus estaria baseado em dois pontos fundamentais: 1) foi o próprio rei Davi quem redigiu o Salmo 110 e, 2) quando o escreveu, Davi o fez movido pelo Espírito Santo […]. A força da sua argumentação depende da aceitação da autoria davídica do salmo. Se o autor do salmo não é o rei Davi, então o argumento de Cristo cai por terra (ROOS,1996, p. 72-73).

Jesus e a Torá

Davi estaria utilizando o oráculo “dado a outros reis na ocasião em que eram ungidos ou coroados” aplicando-o diretamente ao Rei Messiânico (KIDNER, 2006, p. 408). Acerca do Sitz im Leben da passagem em questão, Delitzsch apresenta duas possíveis situações que teriam provocado a composição desse salmo. A primeira seria a vinda da arca da aliança para o monte Sião. Davi acompanha com alegria a vinda da arca até Sião. A partir de então, a arca passa a ficar em Sião — o trono de Deus. A segunda seria o fim vitorioso de Davi na guerra siro-amonítica. O rei Davi teve grandes vitórias contra os seus inimigos afirmando assim o seu reinado em Israel. Isto lhe deu glória e prestígio (DELITZCH; KEIL, s.d., p. 184-185). De qualquer forma, resta ressaltar de que desde o judaísmo antigo esse cântico tem sido entendido como se referindo ao Messias (WEISER, 1994, p. 536). 

Comentário

Oráculo divino (v. 1)

                Falou YHWH ao meu senhor: “Sente-se à minha direita até que torne teus inimigos estrado de teus pés.” Essa é única vez que a expressão ה׀ָ֨הוְי םֻ֤ ְ א”) Falou YHWH”) aparece em todo saltério. Ela normalmente aparece em declarações proféticas indicando uma declaração proferida pelo próprio Deus (GERSTENBERGER, 2001, v. 2, p. 264). Delitzsch acredita que a presença dessa expressão indicaria uma comunicação ou revelação divina aos ouvintes. Esse seria um argumento decisivo contra a ideia de que esse salmo consiste numa afirmação do povo israelita para um rei, no caso Davi ou Salomão (DELITZSCH; KEIL, s. d., p. 186). Começando pelo oráculo de Deus, o poeta retrata a concessão de poder e autoridade por parte de Deus ao novo rei. Alguns intérpretes destacam a submissão de Davi, diante do novo rei entronizado “meu senhor” (adoni). Davi teria utilizado o termo יִ֗ נ ֹדֲא”) meu senhor”) para denotar um relacionamento senhor-vassalo entre ele e o objeto da declaração; ao invés da referência comum à divindade יִ֗ נ ֹדֲא”) meu Senhor”) (VANGEMEREN, 1991, v. 5, p. 697).

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                Ao declarar “sente-se à minha direita”, YHWH estaria aqui conferindo poder e autoridade ao rei entronizado no salmo. Se torna óbvio que aqui não há uma preocupação geográfica em relação ao palácio de Davi (SCHWANTES, 2008, p. 26), mas sim, uma declaração de poder, autoridade e honra. Essa expressão poderia denotar também intimidade (DELITZSCH; KEIL, s. d., p. 187; TERRIEN, 2003, p. 752). Todo poder que o rei teria é derivado de Deus. Deus é quem luta contra seus inimigos e os derrota, colocando-os sob o domínio do novo rei. Esta não é uma visão judaica apenas, mas pode ser encontrada em textos de outros povos do antigo Oriente Médio. Como exemplo, lemos em um cântico sumeriano sobre uma deusa: “Ela é radiante sobre o trono […]. O rei, brilhante como o sol, toma seu lugar no trono ao seu lado” (FALKENSTEIN; SODEN, 1953, p. 98). Os inimigos aqui mencionados no salmo, ךָיֶ֗ בְי ֹ֝ א ,são considerados inimigos pessoais do rei, ou “uma nação inimiga que demonstra agressão contra o povo escolhido de Deus” (RINGGREEN, 1977, v. 1, p. 214). Nesse caso, o inimigo pode ser uma ou várias nações pagãs (v. 6), tornando-se, dessa forma, inimigas de YHWH também (KRAUS, 1986, p. 126).

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A imagem de tornar os inimigos “estrado” para os pés do rei é antiga no Oriente Médio e demonstra poder absoluto. Encontramos outros instantes onde essa imagem aparece na Bíblia e elas parecem confirmar nosso argumento (ver Js 10:24; 1Rs 5:3; Is 51:23). Allen (2002) menciona as cartas de El Amarna onde os vassalos referem-se a si mesmos como “estrado de Faraó”. A mesma imagem aparece em um oráculo de Marduque a Esaradom, rei da Assíria (ALLEN, 2002, v. 21, p. 115; DAHOOD, 1970, p. 114). Inscrições egípcias foram encontradas mostrando o filho do rei sentando-se à direita do rei, tendo um estrado de nações inimigas. Conforme Keel (1997, p. 255-256), tais inscrições, semelhantes ao salmo de estudo, não pertencem à “narrativa de infância”, como é proposto por certos comentaristas, mas a de “entronização e adoção”. Conforme já mencionado, o Novo Testamento cita bastante esse texto. Em todas as citações que podemos encontrar desse verso, o Novo Testamento interpreta יִ֗ נ ֹדֲא”) meu Senhor”) como sendo Jesus, o Messias. Diante dessa interpretação neotestamentária, nos resta apenas dizer que a intenção de Davi, o autor desse salmo, nunca foi de se referir a um rei dentro da linha de reis de Judá que agregaria a função de sacerdote, mas somente ao Messias.

Promessa (v. 2-3)

                YHWH enviará o cetro de seu poder desde Sião. Subjugue em meio aos teus inimigos. Teu povo se disporá no dia do teu poder, no santo esplendor. Tua juventude será como o orvalho, como o orvalho que aparece na aurora. A presença do cetro (v. 2) reforça a ideia do poder que é concedido ao rei, cujo trono se encontra em Sião. “Por trás do rei acha-se, pois, o poder ativo de Deus, o que confere à promessa profética o significado de ato plasmador da história, que porta em si a certeza do seu cumprimento, ainda que o país esteja cercado e ameaçado pelos inimigos” (WEISER, 1994, p. 537). Delitzsch encontra na expressão הֵּֽטַמ”) vara”, “bastão”) uma conexão com a profecia de Balaão (Nm 24:17), onde o cetro se torna um emblema do Messias (DELITZSCH; KEIL, s. d., p. 187). O verso 3 é um dos mais difíceis de interpretar. Tournay chega a nomeá- -lo como o verso mais obscuro em todo o saltério (TOURNAY, 1960, p. 11).                

Resultado de imagem para exército israelita antiguidadeDevido à falta de espaço, não nos deteremos nos problemas textuais encontrados nesse verso (ver ALLEN, 2002, v. 21, p. 110-111). A linguagem do texto é militar e apresenta o exército do rei como uma multidão. O povo se apresenta de forma voluntária para a batalha. São jovens e se apresentam como o orvalho que aparece no amanhecer. Enquanto que os levitas se apresentavam vestidos de vestimentas santas, aqui é o povo inteiro que se apresenta vestido de roupas santas (“santo esplendor”). Eles se apresentam ao rei como o orvalho que “nasce do útero da aurora” (DELITZSCH; KEIL, s. d., p. 188). Sob tal compreensão, pode-se deduzir que a guerra contra o rei é uma guerra contra o povo, se tornando uma guerra santa, tendo por última instância o próprio Deus como alvo. Encontramos na LXX uma tradução diferente: “μετα σου η αρχη εν ημερα της δυναμεως σου εν ταις λαμπροτησιν των αγιων εκ γαστρος προ εωσϕορου εξεγεννεησα σε” (Contigo está o domínio no dia de seu poder, no esplendor de teus santos, eu te gerei de um útero antes da aurora). Schökel e Carniti (1998, p. 1357) entendem que essa tradução do texto massorético possui uma linguagem de entronização ou investidura. “A investidura real é vista como um nascimento ou adoção por parte de Deus.” Nesta tradução, a entronização parece ser uma “espécie de nascimento celeste”, da qual o rei recebe a “sacra majestade”. Tanto a versão grega como a latina seguem essa linha de raciocínio. É possível que isso tenha ocorrido devido a outro texto que leram ou à introdução de correções. O fato de Jesus ter discutido com os fariseus utilizando esse salmo e de não haver nenhuma menção do verso 3 no NT, sugere que possivelmente esse verso já tenha sido um mistério em sua época (MAILLOT; LELIÈVRE, 1969, p. 79).

Oráculo divino (v. 4)

                Jurou YHWH e não se arrependerá: “Tu és sacerdote eternamente após a ordem de Melquisedeque.” Aqui encontramos o segundo oráculo de YHWH. Ele não apenas “fala”, mas nesse instante “jura”. “Deus, o absoluto Verdadeiro (Nm 13:19) jura — esse é o maior realce de עַּבְׁשִנ הָ֨הוְי”) ֤ Jurou YHWH”) que a profecia é capaz de oferecer” (DELITZSCH; KEIL, s. d., p. 189). Podemos perceber a intensidade da expressão, fortalecida posteriormente por “não se arrependerá” e “eternamente”. Historicamente, o sacerdócio havia sido prometido à família de Arão (Ex 28; Lv 8). Os deveres sacerdotais nem sempre foram cumpridos, levando Deus a eleger um novo sacerdote de uma “ordem” diferente. Essa nova ordem é traçada até Melquisedeque (“rei de justiça”) — sacerdote do “Deus altíssimo”(Gn 14: 18) e rei de Salém (“Paz”). Esse personagem aparece apenas quatro vezes na Bíblia (Gn 14:18-20, Sl 110:4; Hb 5:5-10 e 6:19-7:28). Melquisedeque é empregado aqui como símbolo do serviço sacerdotal futuramente realizado pelo Messias. “O fato de ele ficar mais próximo de Deus de que Abraão, tanto na bênção e nos presentes que deu, como também nos dízimos que recebeu, comprovou sua prioridade sobre a totalidade do povo abraâ- mico, e sobre o sacerdócio levítico em particular” (KIDNER, 2006, p. 411). É em Melquisedeque (Gn 14:18) também que, pela primeira vez, aparece a reunião de ambos os ofícios — rei e sacerdote. Surge aqui a questão quanto a se Israel possuía um rei-sacerdote. Historicamente, podemos encontrar exemplos no antigo Oriente Médio onde essas duas funções se fundiam no mesmo personagem (KEEL, 1997, p. 269-280). Exemplos como o de Davi (2Sm 6:14,17-18) e Salomão (1Rs 3:4) levam Dahood (1970, p. 117) e Kraus (1986, p. 351) a crer que tal costume era comum e normal em Israel. Kraus advoga que nesse salmo esteja acontecendo uma “transferência” de tradições antigas jebusitas ao novo rei de Jerusalém (KRAUS, 1986, p. 351).

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                Entretanto, nas leis levíticas encontramos a preocupação de separar e distinguir as funções de sacerdote, rei e profeta. Enquanto que este era um costume cananeu (ROOS, 1996, p. 3), Gerstenberger procura enfatizar que a junção de funções era estranha ao pensamento teológico israelita (GERSTENBERGER, 2001, v. 2, p. 265). Diante de todas essas atuações aparentemente sacerdotais, Vaux cuidadosamente avalia as atividades sacerdotais nos reis de Israel (Saul, Davi, Salomão, Acaz, Uzias) e conclui que “o papel desempenhado pelo rei na regulamentação e supervisão do culto e na nomeação do clero não significa que ele seja sacerdote; isso não ultrapassa as prerrogativas que um chefe de Estado pode ter diante da religião de Estado. Outra coisa muito diferente é quando ele realiza atos propriamente sacerdotais” (VAUX, 2003, p. 142). Fato era que os reis pertenciam à tribo de Judá e não à de Levi, como era os sacerdotes. Devemos lembrar também que em outros instantes onde houve a tentativa de unir ambas as funções, a tentativa foi frustrada (Saul: 1 Sm 13:9-13; Acaz: 2Rs 16:12-15 e Uzias: 2Cr 26:16-20). Posteriormente, Zacarias parece também oferecer uma visão messiânica desta união Sacerdote-Rei (Zc 6:13), só que indicando que o cumprimento de Salmo 110 ainda estaria no futuro (DELITZSCH; KEIL, s. d., p. 189). Mais uma vez, o Novo Testamento entende que esse salmo seja messiânico, cumprindo-se na pessoa de Jesus Cristo, que subiu aos seus e tornou-se sacerdote no santuário celestial (Hb 5:5-10). sacerdote

                A expressão “eternamente” também destaca o contraste entre ambas as ordens de sacerdócio. A ordem sacerdotal araônica era marcada por sacerdotes “efêmeros cujas labutas eram manifestadamente inconclusivas” (KIDNER, 2006, p. 411), enquanto que a “ordem de Melquisedeque” não aparenta haver início ou fim (Hb 7:1-3). VanGemeren (1991, v. 5, p. 699) encontra na expressão םָ֑ולֹעְל”) eternamente”) uma referência à promessa feita a Davi e sua dinastia real de sempre manter o trono na família de Davi (2Sm 7:13; Sl 132:11). Talvez poderíamos entender que Deus esteja agregando à aliança davídica, que encontraria seu cumprimento no Messias, o aspecto sacerdotal.

Promessa (v. 5-7)

                O Senhor está à sua direita. Ele esmiúça os reis no dia da sua ira. Ele julgará as nações e as encherá de corpos. Ele esmiuçará os reis de toda terra. A caminho Ele beberá no ribeiro e continuará de cabeça erguida. Após a confirmação do rei-sacerdote, o texto volta à sua linguagem militar. Dessa vez, não é o povo que luta com o rei, mas Adonai, o Senhor do Universo, que realiza às batalhas ao lado do rei. Há uma inversão de posições pois é Adonai que se encontra à direita do rei. As expressões “no dia da sua ira”, “julgará”, “esmiuçará” e “toda terra” parecem pintar um quadro escatológico (GERSTENBERGER, 2001, v. 2, p. 266) onde finalmente todos os inimigos do rei e de Adonai serão julgados e eliminados. É um dia de prestar contas, tal dia será tempo de vindicação. Anderson (1792, v. 2, p. 772) sugere que “dia da sua ira” seja um protótipo de um conceito posterior: “o dia de YHWH” (Is 13:9; So 2:3; Am 5:18-20) (RAD, 1965, v. 2, p. 119-125). Nesse dia, o Senhor ‘julgará as nações’, provocando a grande derrota das nações inimigas” (VANGEMEREN, 1991, v. 5, p. 699). הָּֽבַ ר ץֶ רֶ֥א pode ser traduzido por “terra de Rabbah”, denotando a terra Amonita cuja capital era Rabbah. No entanto, devido ao caráter escatológico do texto, “toda terra” é preferível. Maillot e Lelièvre destacam corretamente o contraste entre Melquisedeque, um sacerdote pacífico, e o rei de nosso salmo que é guerreiro (MAILLOT; LELIÈVRE, 1969, p. 83). Tal contraste pode ser entendido da seguinte forma: enquanto que a função de sacerdote como intercessor perante Deus é uma função pacífica, a função de juiz (v. 6) requer a força para a total aniquilação do mal. É justamente o aspecto “agressivo” do rei que assegura a total aniquilação de seus inimigos.

                 O poeta finalmente muda o foco do salmo e passa a descrever o rei (ALLEN, 2002, v. 21, p. 118). Este é descrito bebendo do ribeiro e erguendo sua cabeça enquanto prossegue sua jornada. Kraus sugere que esse ato de beber do ribeiro seja um rito de coroação (KRAUS, 1986, p. 352). Nesse verso, o sentido óbvio é o mais indicado: o rei em campanha está sedento e cansado. Ele bebe do ribeiro, recupera as forças e segue adiante com a cabeça erguida como vencedor (SCHÖKEL; CARNITI, 1998, p. 1359). Tal cena apresenta o rei sem cansaço e desgaste da guerra, tendo suas forças revigoradas e pronto para o que vier a seguir.

Considerações finais

                O Salmo 110 apresenta o Messias como um rei vitorioso na luta contra seus inimigos, bem como um sacerdote que ministra pelo povo perante YHWH. Ele recebe poder e honra de YHWH e se assenta à sua direita. De seu trono (Sião) ele rege a nação e tem o apoio de seu povo que se une a ele em suas batalhas. Seus inimigos lhe são subjugados e finalmente eliminados. Além da função de rei, ele agrega a função de sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque. Ele julga os povos e executa a sentença para finalmente obter vitória total. Deveria esse salmo ser interpretado como uma “profecia messiânica”? Nossa compreensão é de que sim. É provável que Davi tivesse consciência de seu “sabor” messiânico, porém não entendesse por completo o sentido último destas palavras proféticas, a exemplo de Daniel e outros mais. Contudo, o Novo Testamento nos ajuda na elucidação desse rei-sacerdote atribuindo o cumprimento a Jesus Cristo. Devido às várias referências encontradas no NT, entendemos que ele está assentado à direita de Deus e, conforme o livro de Hebreus o indica, é sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque. Esse salmo apresenta implicações cristológicas, eclesiológicas e escatológicas que devem ser consideradas dentro da luta de YHWH contra o mal.

Glauber Souza Araujo

Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo. Professor no Centro Universitário Adventista de São Paulo (Unasp). 

 

Referências

  • ALLEN, L. C. Word Biblical commentary: Psalms 101-150. Nashville: Thomas Nelson Publishers, 2002.
  • ANDERSON, A. A. The Book of Psalms. Londres: Oliphants, 1792.
  • DAVIDSON, B. D. The analytical Hebrew and Chaldee Lexicon. Peabody: Hendrickson Publishers, 2004.
  • DAHOOD, M. Psalms III: 101-150. Garden City: Doubleday & Company, 1970.
  • DELITZCH, F.; KEIL, C. F. Old Testament Commentaries: Psalm LXXVIII to Isaiah XIV. Grand Rapids: Associated Publishers and Authors Inc, [s. d.].
  • FALKENSTEIN, A.; SODEN W. V. Sumerische und Akkadische Hymnen und Gebete. Zürich: Artemis-Verlag, 1953.
  • GERSTENBERGER, E. S. Psalms and Lamentations. Grand Rapids: Eerdmans Publishing Company, 2001.
  • HAYR, D. M. Glory at the Right Hand: Psalm 110 in Early Christianity. Nashville: Abingdon, 1973. (Monograph Series, 18)
  • KEEL, O. The symbolism of the Biblical world. Winona Lake: Eisenbrauns, 1997.
  • KIDNER, D. Salmos 73-150. São Paulo: Vida Nova, 2006.
  • KRAUS, H. K. Psalms 60-150: a commentary. Minneapolis: Augsburg Fortress, 1989.
  • KRAUS, H. Theology of the Psalms. Minneapolis: Augsburg Publishing House, 1986.
  • MAILLOT, A.; LELIÈVRE, A. Les Psaumes: traduction nouvelle et commentaire. Genebra: Éditions Labor et Fides, 1969. MOWINCKEL, S. The psalms in Israel’s worship. Oxford: Basil Blackwell, 1967.
  • RAD, G. Old Testament Theology. New York: Harper & Row, 1965.
  • RINGGREEN, H. ךָיֶ֗ בְי ֹ֝ א In: Theological dictionary of the Old Testament. Grand Rapids: Eerdmans Publishing Company, 1977.
  • ROOS, D. Estudo no salmo 110. Vox concordiana. Ano 11, n. 2, 1996. S
  • CHÖKEL, L. A.; CARNITI, C. Salmos II: Salmos 73-150. São Paulo: Paulus, 1998.
  • SCHWANTES, M. O rei-sacerdote em Jerusalém. Revista Caminhando. v. 13 n. 21, jan-jun 2008.
  • TERRIEN, S. The Psalms: strophic structure and theological commentary. Grand Rapids: Eerdmans Publishing company, 2003.
  • TOURNAY, R. Le psaume 110. Revue Biblique. n. 67, 1960.
  • VANGEMEREN, W. A. Psalm 110: the kingdom of the Lord. In: The Expositor’s Bible Commentary. Grand Rapids: Zondervan, 1991.
  • VAUX, R. Instituições de Israel no Antigo Testamento. São Paulo: Editora Teológica, 2003.
  • WEISER, A. Os Salmos. São Paulo: Paulos, 1994.

 

Fonte: https://www.andrews.edu/library/car/cardigital/Periodicals/Kerygma/2012/2012_V08_N01.pdf

 

 

[i] https://herancajudaica.wordpress.com/2015/07/27/os-judeus-os-cristaos-e-o-salmo-110/

[ii] O texto todo é encontrado em diversos locais (Mt 22:44; Mc 12:36; Lc 20: 42-43; At 2: 34-35 e Hb 1:13), quanto à expressão “à minha direita” (Mt 26:64; Mc 14:62; 16:19; Lc 22:69; At 7:55; Rm 8:34; Ef 1:20; Cl 3:1; Hb 1:3; 8:1; 12:2 e Ap 3:21), para a expressão “estrado de teus pés” (1 Co 15:25 e Ef 1:22).

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