BANDEIRAS SOBRE O GUETO




75 anos do Levante do Gueto de Varsóvia 
19 abril 1943 – 2018 


Artigo de Israel Blajberg (*)

No gueto não houve o Seder, o jantar ritual do Pessach – a Pascoa Judaica, que deveria ter acontecido na noite do 19 de abril, e sim a luta desigual contra inimigo cruel.   Apenas 30 mil judeus restavam. A radio da resistência transmite a notícia ao mundo livre, sem resposta.  Judeus sozinhos, lutando pela própria vida. 

Sob ordens de Himmler para liquidar o gueto, SS entram com blindados, lança-chamas, metralhadoras. Jovens combatentes os fazem recuar, com pistolas e rifles trazidos secretamente pelos túneis. Nazistas fogem em pânico, abandonando mortos e feridos, sangue da SS escorrendo pela sarjeta. O espírito dos defensores de Massada e Betar, as ultimas fortalezas que resistiram contra as mais poderosas legiões romanas inspirava os lutadores do Gueto.

Vinte séculos depois, na Massada de Varsóvia, entraram para a história ao lado de Eleazar ben Yair e Shimon Bar-Kochba, o Filho da Estrela, lideres da revolta.

Hoje sabe-se que não havia apenas uma, mas duas frentes: a ZOB – Zydowska  Organizacja  Bojowa–Organização Judaica Combatente,  liderada por Mordehai Anilewicz, e a ZZW  –  Zydowski  Zwiazek  Woskowy – União Militar Judaica, chefiada por Pawel Frenkel.  

Durante 27 dias, suas bandeiras tremularam altaneiras juntamente com a vermelho e branco da Polônia, visíveis em toda Varsóvia.

Único território livre na Europa dominada, sobre Mila 18 e Muranowska, QGs da ZOB e ZZW, as bandeiras já prenunciavam a redenção do povo hebreu na Terra Santa, após 2 mil anos de Diáspora. A ZZW, mais preparada militarmente, era formada por oficiais judeus do exército polonês e jovens da organização juvenil sionista Betar, com treinamento militar, quase todos mortos em combate. Após a derrocada do comunismo na Polônia foi possível recuperar a fantástica história não contada da ZZW. Assim como o massacre de Katyn, também ocorreu um processo de negação e falsificação da verdade pela URSS, que assassinou milhares de oficiais poloneses lançando a culpa sobre os nazistas. Tanto Katyn quanto a ZZW foram encobertas pelo governo da Polônia até 1989.

Da mesma forma, o Armja Krajowa – Exército do Governo Porvisório polones sediado em Londres foi apagado da história, sendo permitido lembrar apenas o Armja Ludowa – Exército do Povo. Diante do inimigo comum, as duas organizações permaneceram separadas por diferenças ideológicas. A ZOB somente aceitava em seus quadros militantes da esquerda judaica. Já a ZZW, não fazia restrições, admitindo qualquer judeu. A ZOB era influenciada pelo Bund não-sionista, adotando a bandeira vermelha. A ZZW adotava a bandeira azul-e-branca. O abismo ideológico entre direita-ZZW e esquerda-ZOB jamais foi superado. 

Ao ficar claro que as duas frentes combatentes não se renderiam, os nazistas enviaram reforços com artilharia e lança chamas. No dia 16 de maio de 1943, o infame General SS Jurgen Stroop, assassino de partisans, prisioneiros e pilotos aliados capturados mandou dinamitar a Grande Sinagoga, simbolizando o fim da revolta e do gueto. Com a derrota da Alemanha, Stropp fugiu, mas foi capturado e enforcado na Polônia em 1951 por crimes hediondos contra a Humanidade, sádico antissemita que recebeu a cruz de ferro como prova de suas atrocidades. Seu relatório para Himmler menciona a feroz resistência da ZZW no QG da Praça Muranowska 6, combatendo heroicamente. 

Na prisão polonesa, o assassino Stroop confirmou que o próprio bandido que comandava a SS, Reichsfuehrer Heinrich Himmler telefonou-lhe pessoalmente de Berlim ordenando que as bandeiras sobre o QG da ZZW fossem arriadas a qualquer custo.

Como se situavam em ponto elevado, toda Varsóvia as estava contemplando, o que poderia servir de exemplo para uma futura rebelião total, o que de fato aconteceria 15 meses depois, com o Levante de Varsóvia ordenado pelo Estado Secreto polonês em agosto de 1944, quando Varsóvia terminou de ser arrasada enquanto o Exercito Vermelho observava de longe, cumprindo a ordem de Stalin – aguardar até que os nazistas aniquilassem a Armya Krajowa, e só então avançassem. Cai então a cortina de ferro, iniciando-se uma noite negra na Polônia, que duraria 44 anos, até que em 1989 Lech Walesa e seu Solidariedade trouxessem novos tempos para a nação da águia branca em campo rubro.

O assassino Stroop confirmou também que as maiores perdas nazistas ocorreram na Praça Muranowska 6, Posto de Comando da ZZW, local das mais encarniçadas batalhas, sem sobreviventes para relatar a valentia e coragem dos jovens do Betar.

Ali tombou Pawel Frenkel, e com ele terminou a ZZW. A pátina do tempo cobriu esta página de ouro da História Judaica, e mesmo da História Universal, até que finalmente Moshe Arens, ex-ministro da Defesa de Israel, publicou em 2011 “Bandeiras sobre o gueto: a história que não foi contada”, resgatando aqueles heróis obscurecidos, seja pela Polônia dominada, seja pelos governos de Israel anteriores a Menachem Beguin. A final, mais uma vez o povo de Israel saiu vitorioso, com baixas imensas, 75 anos depois recordando o heroísmo daqueles bravos e desesperados. 

Do Gueto nada restou além de 20 metros de muro. Hoje, onde existiu o gueto, há um extenso gramado, onde se ergue um Monumento aos Combatentes, de extremo capital simbólico, diante do qual Willy Brant se ajoelhou e pediu perdão. Há 5 anos, quando o levante completou 70 anos, um portentoso Museu do Judaísmo Polonês foi inaugurado – 19 de abril de 2013, testemunho da eternidade de Israel.

Mas atenção: a mensagem de resistência que, profeticamente, os bravos e desesperados lutadores do gueto transmitiram ao mundo, está cada vez mais atual.

Decorridos 75 anos, ainda se faz necessário continuar lutando, pois a intolerância, o racismo e o terror ainda subsistem, apenas usando outras roupagens.

(*) iblaj@poli.ufrj.br

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