Escola judaica britânica tem, em sua maioria, estudantes muçulmanos.




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Como centenas de instituições judaicas na Diáspora, a Escola King David celebrou o 70º Dia da Independência de Israel com bandeiras azuis e brancas e cantou em grupo o hino nacional “Hatikvah”. Mas a King David não é como a maioria das escolas judaicas.

A maioria dos estudantes, da escola primária com 53 anos de fundação, que fica localizada no subúrbio de uma cidade inglesa, vem de famílias muçulmanas. Segundo os pais e observadores da comunidade, 80% dos estudantes são muçulmanos. A escola se recusa a comentar sobre esses dados.

No Dia da Independência de Israel, Esther Cohen, chefe de educação religiosa da escola, deu início à cerimônia no ginásio com a oração “Modeh Ani”, seguida por “Shema Yisrael”. Os alunos fecharam os olhos, para o que Cohen chamou de “tefilah para Hashem”.

A maioria dos meninos usavam kipá ou a taqiyah mulçumana. Muitas meninas usavam hijabs, o pano que cobre a cabeça das mulheres muçulmanas.

Cohen mostrou aos alunos dois vídeos que celebravam as inovações israelenses e em seguida os convidou para outra tefilá, desta vez para “agradecer a Hashem por nos ter dado Israel”.  Ela pediu aos alunos que se levantassem para cantar “Hatikvah” e quase todos cantaram o hino em hebraico.

Ruth Jacobs, presidente do Conselho Representativo de Birmingham, de West Midlands, descreveu a situação na escola, com a típica subversão britânica.

“É uma anomalia na verdade”, disse ela à JTA, sobre a cerimônia da escola, frequentada por seus filhos e netos. “É um cenário interessante e engraçado ver muçulmanos recitando o Shemá”.

O rabino Gideon Goldwater ouviu falar sobre o King David, muito antes de matricular uma de suas filhas, ano passado, após se mudar para Londres, para trabalhar como diretor local da Aish Hatorah, uma organização judaica ortodoxa.

“A escola já teve um corpo estudantil inteiramente judaico, mas mudou à medida que a demografia também mudou”, disse o rabino.

Apesar dessa reviravolta incomum, a escola faz todo o sentido para alguns pais muçulmanos.
“É uma escola judaica, mas, independentemente disso, acho que é uma escola muito boa”, disse Fouad, médico que veio do Paquistão e cuja filha frequenta o King David.
“A melhor coisa é que tem disciplinas que faltam a outras escolas. Não há violência, há muito pouco bullying. Simplesmente, isso não é tolerado aqui”, disse Fouad, que pediu para ser identificado apenas pelo seu primeiro nome.

Fouad destacou que a “escola ideal da família teria sido a escola da Igreja da Inglaterra, mas é muito difícil de entrar”. Sua família ouviu falar do King David, através de amigos.

“King David é seguro e amigável. Eu não estou preocupado com os estudos religiosos, com hebraico e etc. Eu realmente acho que é bom que as crianças aprendam diferentes religiões. Isso provoca tolerância.”

Considerando que excelentes escolas particulares são fáceis de encontrar, pais não-judeus são atraídos para o King David, pois ela é uma escola pública baseada na fé, onde a admissão é gratuita.  O currículo é determinado por uma fundação afiliada à Singers Hill Synagogue, de Birmingham, e também está em conformidade com os requisitos pedagógicos, do Ministério da Educação do Estado, que inclui uma escolaridade gratuita de aproximadamente sete horas por dia.

Alunos do King David não são ensinados sobre qualquer outra religião, além do judaísmo, de acordo com Jacobs. Todo mundo celebra os feriados judaicos e o Shabat. Cada sexta-feira apresenta uma cerimônia com kidush.  Entretanto, os estudantes judeus recebem mais aulas detalhadas sobre o judaísmo, do que os não-judeus e todos os alunos estudam hebraico.

Mas, nem todos os pais, não-judeus, estão à vontade como Fouad. “Antes de colocar meus filhos aqui, eu não tinha certeza de como me sentiria sobre isso”, disse Runila, mãe de dois alunos que frequentam a escola.

Runila, cuja família vem da Índia, apontou para a bandeira de Israel pintada ao lado da britânica e afirmou que “estava preocupada com a doutrinação, mas a educação judaica aqui é bem leve. Estou confortável com isso agora”, disse.

 Os pais judeus também tiveram que se acostumar. “Esta é a única escola judaica em Birmingham, então também é a melhor”, disse o rabino Goldwater. Perguntado sobre a qualidade dos estudos religiosos na escola, ele afirmou que “a educação judaica é o que é.” Em termos de educação geral e abordagem pedagógica “esta escola é realmente sólida”, acrescentou. “Estamos impressionados”.

Embora Birmingham seja a segunda maior cidade da Grã-Bretanha, com 1,1 milhão de habitantes, ela tem menos de 1.700 judeus permanentemente estabelecidos, de acordo com um censo feito em 2015, pelo Institute for Jewish Policy Research. Outros 500 judeus viviam na cidade, como estudantes da universidade local, segundo o relatório.

Há 70 anos, Birmingham “prosperou como um centro judaico para muitos judeus”, disse Jacobs. A cidade também tinha judeus mais integrados que se instalaram em subúrbios arborizados, como na região de Moseley. É aí que o King David está localizado.

Nos anos 80, milhares de judeus foram para Londres e Manchester, um  declínio comunitário que mudou outras grandes comunidades judaicas na Grã-Bretanha, como Leeds, Bristol e Liverpool.

Quando seus dois filhos compareceram ao King David, Jacobs disse que sua turma de 30 alunos tinha 24 judeus. Agora, há de uma até três crianças judias por sala de aula na escola. Jacobs acha que “o declínio é deprimente, mas não irreversível”. Ela observou que “Manchester também tinha uma população judaica pequena, mas que está crescendo, graças ao aumento dos preços da habitação em Londres. O mesmo pode acontecer com Birmingham, à medida que Manchester se torna menos acessível”, disse.

“Este lugar tem tudo o que é necessário para uma grande e forte comunidade judaica: uma escola judaica, uma grande universidade, sinagogas e até uma casa de idosos. Agora só precisamos de boas e jovens famílias judias”, completou.

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