Hermenêutica e Exegese


Nestes tempos pós-modernistas o subjetivismo, o pluralismo e o privatismo tem colocado em xeque as Verdades bíblicas. A pretensão é que não existem Verdades com “V” maiúsculo, cada um tem a sua verdade e ai daquele que insistir demais em sua opinião, acaba sendo rotulado como fundamentalista intolerante.  Temos recebido uma herança judaica através da Bíblia, mas, como não cair nos particularismos de interpretação rabínicas, sacerdotais ou pastorais?  Como levar a sério as Escrituras e tirar delas a sua Verdade e não a verdade que eu quero?

HERMENÊUTICA

Este termo provém do verbo grego hermêneuein que significa declarar, anunciar, interpretar ou esclarecer o sentido de uma palavra ou de uma frase. Estas múltiplas significações do verbo hermeneuo podem ser sintetizadas na frase:

tornar alguma coisa compreensível.

Ela é definida como a ciência da interpretação de textos escritos, de acordo com as regras e princípios cientificamente formulados.

Há cogitações, mas não absoluta certeza de que a palavra seja derivada de Hermes, o mensageiro dos deuses a quem se atribui a origem da linguagem.

Schleirmacher explica hermenêutica como sendo, “a doutrina da arte de compreender”.

Louis Berkhof no livro Princípios de Interpretação Bíblica, página 11, assim a define: “Hermenêutica é a ciência que nos ensina os princípios, as leis e os métodos de interpretação”.

A necessidade de uma ciência da interpretação nasceu virtude das diversidades mentais e culturais das pessoas e nações.

O objetivo da interpretação é apresentar a revelação Deus, numa linguagem que seja compreensiva ao homem moderno.

Roberto M. Grant definiu a tarefa da interpretação de qualquer registro do pensamento humano como sendo a exposição que o autor quer dizer em termos de nossas próprias formas pensamento. A Short History of the Interpretation of the Bible, p. 11.

A hermenêutica estabelece princípios, métodos e regras necessárias para elucidar palavras ou frases, cujo sentido não esteja bem claro. A hermenêutica teológica procura traduzir, interpretar e fazer compreensiva a mensagem da Bíblia na situação contemporânea.

POR QUE HÁ NECESSIDADE DO ESTUDO DA HERMENÊUTICA?

O estudo de Hermenêutica é muito importante para todos que estão buscando a Verdade porque:

  1. Somente o estudo inteligente da Bíblia lhes fornecerá o material de que necessitam para a construção de sua teologia.

  2. Cada mensagem ensinada deve repousar numa sólida fundamentação exegética. Esta é uma das maiores aspirações dos nossos dias.

  3. Para a instrução daqueles que se aproximam da Bíblia e fazem perguntas. Em tais ocasiões, um conhecimento razoável das leis de interpretação será de valor inestimável.

  4. A exegese se tornou necessária para evitar o erro, desde que o pecado obscureceu o entendimento do homem.

EXEGESE

Disciplina que aplica métodos e técnicas que ajudam na compreensão do texto.

Do ponto de vista etimológico hermenêutica e exegese são sinônimas, mas hoje os especialistas costumam fazer a seguinte diferença: hermenêutica é a ciência das normas que permitem descobrir e explicar o verdadeiro sentido do texto, enquanto a exegese é a arte de aplicar essas normas.

hermeneutica bíblica

PRINCIPIOS HERMENÊUTICOS

Retirados de várias fontes e harmonizados, aqui se encontram doze princípios que devem ser seguidos na interpretação bíblica:

1º) Denomina-se princípio da unidade escriturística. Sob a inspiração divina a Bíblia ensina apenas uma teologia. Não pode haver diferença doutrinária entre um livro e outro da Bíblia.

2º) Deixe a Bíblia interpretar a própria Bíblia. A Escritura é a sua própria intérprete. Este princípio vem da Reforma Protestante, que declarava Sola Scriptura, isto é, só a Bíblia. O sentido mais claro e mais fácil de uma passagem explica outra com sentido mais difícil e mais obscuro. Este princípio é uma dedução do anterior.

3º) Jamais esquecer a Regra Áurea da Interpretação, chamada por Orígenes de Analogia da Fé. O texto deve ser interpretado através do conjunto das Escrituras e nunca através de passagens isoladas.

4º) Sempre ter em vista o contexto. Ler o que está antes e o que vem depois para concluir aquilo que o autor tinha em mente.

5º) Primeiro procura-se o sentido literal, a menos que as evidências demonstrem que este é figurado.

6º) Ler e reler o texto, com profunda atenção. Consultar todas as traduções possíveis para melhor elucidação do problema. Muitas vezes uma destas traduções nos esclarece sobre o que o autor queria dizer.

7º) Apenas um sentido deve ser procurado em cada texto.

8º) O trabalho de interpretação é científico, por isso deve ser feito com isenção de ânimo e desprendido de qualquer preconceito.

9º) Fazer algumas perguntas relacionadas com a para chegar a conclusões circunstanciais da passagem Por exemplo:

a) Quem escreveu?

b) Qual o tempo e o lugar em que escreveu?

c) Por que escreveu?

d) A quem se dirigia o escrito?

e) O que o autor queria dizer?

10º) Feita a exegese, se o resultado obtido contrariar os princípios fundamentais da Bíblia, ele deve ser colocado de lado e o trabalho exegético recomeçado novamente.

11º) Para uma boa compreensão de determinada passagem deve-se consultar sempre as passagens paralelas. Isto é comparar, valendo-se das referências no rodapé ou na margem, com outras passagens que tratam do mesmo assunto.

12º) Na interpretação deve-se atender mais ao psicológico do que as palavras gramaticais.

Hermeneutica

Um ponto fundamental ao fazer a interpretação da Bíblia, é levar em consideração o princípio de que estes escritos são divinamente inspirados. Qualquer interpretação que ignorar esta fundamental verdade divina não nos levará a compreender a Bíblia como a segura Palavra de Deus.

QUALIDADES  DO  INTÉRPRETE

De acordo com M. S. Terry em seu livro Hermenêutica Bíblica, páginas 9 a 12 são estas as qualidades do intérprete:

a) Em primeiro lugar, o intérprete das Escrituras deve possuir uma mente sã e bem equilibrada; esta condição é indispensável, pois a dificuldade de compreensão, o raciocínio defeituoso e a imaginação extravagante são coisas que pervertem o raciocínio e conduzem a idéias vãs e néscias.

b) O exegeta deve ser capaz de perceber rapidamente o que uma passagem não ensina, bem como captar sua verdadeira tendência.

c) Deve possuir uma intuição da natureza e da vida humana que lhe permita colocar-se no lugar dos escritores bíblicos para ver e sentir como eles.

d) Antes de expor suas conclusões, precisa pesar todos os prós e contras de sua interpretação para ver se elas são sustentáveis e consequentes.

e) Ele precisa não apenas entender as Escrituras, mas também ser apto para ensinar (II Tim. 2:24) aos outros de forma vívida e clara o que ele entendeu. Para isto deve possuir linguagem correta, clara e simples.

f) Firme disposição para buscar e conhecer a verdade. Um vez alcançada deve ser aceita na própria vida.

g) Sua mente necessita ser disciplinada e controlada por verdadeira reverência, desde que a Bíblia nos ensina em Prov. 1:7, que o temor do Senhor é o principio da sabedoria.

h) Como qualidade final o autor nos apresenta a seguinte: O expositor da Bíblia necessita gozar de uma comunhão viva com o Espírito Santo. Por meio de uma profunda experiência da alma deve alcançar o conhecimento.

Pedro Apolinário

antigo professor de Teologia, já falecido.

Anúncios