Josué: Modelo de liderança


O que faz com que a pessoa se torne um líder piedoso? Antes de responder a essa pergunta, considere uma das melhores descrições de liderança que temos: “A maior necessidade do mundo”, “é a de homens – homens que se não comprem nem se vendam; homens que no íntimo da alma sejam verdadeiros e honestos; homens que não temam chamar o pecado pelo seu nome exato; homens, cuja consciência seja tão fiel ao dever como a bússola o é ao polo; homens que permaneçam firmes pelo que é reto, ainda que caiam os céus.”1

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Essa declaração inspirada pode ser aplicada a muitos heróis da Bíblia, cuja vida se tornou um modelo de liderança centrada em Deus, como José, Moisés, Josué, Daniel, Ester, João Batista, Paulo, etc. Desses, desejo refletir sobre a vida e o caráter de Josué, o homem que Deus escolheu para suceder Moisés e levar Israel à Terra Prometida. Aqui está um homem centrado em Deus, fiel e destemido ao seu chamado, cheio de fé e confiança, cheio de gratidão, focado na oração e um servo leal a Deus.

UM HOMEM CENTRADO EM DEUS

A vida de Josué começou com coisas pequenas, mas com muita seriedade. Seu nome original era Hoshea, que significa “um salvador”. Mais tarde, Moisés mudou o seu nome para Josué, que significa “salvo por Deus” (ver Números 13:8, 16).

Josue

Josué começou sua carreira como um soldado. Durante 40 anos, liderou Israel como comandante militar na jornada desde o Egito até a posse da Terra Prometida. Viveu de maneira fiel e piedosa. O fato de ter sido introduzido na liderança com tal proeminência, por ter sido escolhido por Deus como aquele que levaria Israel para Canaã, por haver sucedido um eminente líder como Moisés e por ter cumprido a promessa da aliança que Deus fizera com Abraão, de uma terra para o Seu povo, isso não significava o reconhecimento da qualidade de liderança de Josué e de sua fidelidade e obediência a Deus. A vontade de Deus era a vontade de Josué. Os caminhos de Deus eram os caminhos dele. Fora isso, para Josué, não havia nada, a não ser permanecer fiel a Deus que o chamou para uma tarefa específica.

Josué viveu 110 anos. Os primeiros 45 anos de sua vida foram no Egito. Nos 40 anos seguintes, ele foi o comandante militar de Moisés, que segurava suas mãos enquanto levava Israel para fora do Egito, duran- te a peregrinação no deserto, em direção à Terra da Promessa. Nos últimos 25 anos de sua vida, Josué dedicou-se à liderança de Israel na era pós-Moisés, levando avante a tarefa de ocupação, divisão e assentamento dos filhos de Israel na Terra Prometida.

FIEL E DESTEMIDO AO SEU CHAMADO

Que privilégios únicos Deus deu a Josué! Um líder histórico, com imensa fidelidade para com Aquele que o chamou. Josué foi o comandante que derrotou os amalequitas na primeira batalha que Israel enfrentou no caminho que tinha como recompensa a terra da liberdade (Êxodo 17:9-13).

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Deus deu a Josué o privilégio de acompanhar Moisés (Êxodo 24:13) naquela importante escalada ao Sinai, onde ele, Moisés, recebeu as tábuas com os Dez Mandamentos. Josué e Calebe foram os únicos, de um grupo de 12 homens enviados para espiar a Terra Prometida, a trazer um relatório positivo sobre a terra que seria deles, se Israel confiasse em Deus e marchasse sob Sua bandeira. Os outros membros da equipe deram um relatório baseado na maioria, dizendo que realmente a terra manava leite e mel, mas que Israel não era forte o suficiente para conquistá-la, e que então Israel deveria voltar ao Egito (Números 13, 14). Entre a confiança em Deus e o medo e a desesperança, Josué e Calebe colocaram a sua confiança em Deus, e foram somente esses dois, de toda a multidão original que deixou o Egito, que puderam entrar em Canaã. Não é de admirar que o manto da liderança, depois de Moisés, tenha caído sobre Josué, um líder fiel e destemido ao seu chamado.

Quando Deus instruiu Josué para liderar a Israel na travessia do Jordão, pela fé, ele estabeleceu um plano, embora não tivesse ninguém para guiá-lo. Josué “ordenou aos oficiais do povo: ‘Percorram o acampamento e ordenem ao povo que prepare as provisões. Daqui a três dias vocês atravessarão o Jordão neste ponto, para entrar e tomar posse da terra que o Senhor, o seu Deus, lhes dá’” (Josué 1:10, 11). Um líder fiel, um porta-voz destemido, cheio de fé e confiança em Deus, assume o comando.

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Sua confiança não está em sua inteligência, nem em sua liderança militar, ou no exército de Israel, mas em Deus, que prometeu ao povo a posse da terra. DEle eram os meios, dEle era a vitória e dEle era a garantia. A furiosa correnteza não era barreira para o coração confiante. E Josué permaneceu forte sob os braços de Seu Deus. “Corajoso, resoluto e perseverante, rápido, incorruptível, despreocupado de interesses egoístas em seus cuidados pelos que se achavam confiados à sua guarda, e, acima de tudo, inspirado por uma fé viva em Deus – tal era o caráter do homem divinamente escolhido para conduzir os exércitos de Israel em sua entrada na Terra Prometida.”2,/sup>

UM HOMEM DE FÉ E CONFIANÇA EM DEUS

Grande parte do sucesso da vida de Josué pode ser atribuída à sua firme fé e confiança em Deus. Observe como ele levou Israel à vitória sobre Jericó, uma cidade bem fortificada, de grande riqueza e prosperidade, que era guardada por um exército treinado de valentes soldados. A conquista dessa poderosa cidade foi percebida como o primeiro passo na posse de Canaã. Antes que Josué pudesse dar o primeiro passo para a conquista da cidade, ele procurou a orientação divina.

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Quando uma pessoa busca primeiramente a Deus para ter as instruções sobre aonde ir e o que fazer, essa pessoa tem a certeza de obter essa orientação e a capacitação necessárias. Então, quando Josué buscou as orientações divinas e a habilidade para realizar a tarefa, obteve os planos diretamente do “Comandante do exército do Senhor” (Josué 5:14). A oração sincera e confiante tem o poder de mover o trono de Deus, e Josué viu esse poder na manifestação do Comandante do Senhor, que Ellen Gould White identifica como não sendo outro senão o Mashiach”3

À primeira vista, o plano de Deus para a vitória de Israel parecia simples, mas estranho. Uma marcha ao redor da cidade, uma vez por dia, e sete vezes no sétimo dia. A procissão de marcha era composta pela ordem dos guardas selecionados, sete sacerdotes para tocar as trombetas, a arca da aliança e os guardas na parte de trás. No final da sétima marcha, no sétimo dia, assim como Deus prometeu, os poderosos muros caíram, e Israel prevaleceu sobre Jericó.

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Séculos mais tarde, a inspiração deu crédito onde o crédito era devido: “Pela fé caíram os muros de Jericó” (Hebreus 11:30). Devido à sua fé e confiança em Deus, Josué deixou para toda a posteridade uma inolvidável lição: a vitória sobre todos os obstáculos, situações ou inimigos concebíveis na vida não deve ser encontrada na força humana, mas em se colocar nos eternos braços de Deus. “Deus fará grandes coisas por aqueles que nEle confiam. A razão pela qual Seu povo professo não tem maior força, é que confiam tanto em sua própria sabedoria, e não dão ao Senhor oportunidade para revelar Seu poder em favor deles. Ele auxiliará os Seus filhos crentes em toda a emergência, se nEle puserem toda a confiança, e fielmente Lhe obedecerem.”4

UM HOMEM DE ORAÇÃO

Josué era um homem de oração. Tendo Deus como líder, com Josué à frente da marcha para a posse da Terra Prometida, com a travessia do Jordão, com a maravilhosa conquista de Jericó e até mesmo com o grande fracasso de Ai transformado em uma grande vitória, pela graça de Deus, em favor de um Israel arrependido (Josué 3-9), o medo se apoderou das nações pagãs por onde Israel passava a caminho da posse final da terra. Os cinco reis amorreus formaram uma coalizão para atacar Gibeom, uma região intermediária entre os exércitos avançados de Josué e o exército dos amorreus. Gibeom já havia feito um tratado de paz com Israel e pediu o socorro imediato de Josué.

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O destemido líder enfrentou os amorreus, mas a batalha foi dura, e o dia parecia muito curto para alcançarem a vitória ao final. Josué precisava de um pouco mais de dia claro. O líder, cheio do Espírito, conhecia apenas uma saída: tirar forças da fonte de fé interior que possuía e orar: “Josué clamou ao Senhor na presença de Israel: ‘Sol, pare sobre Gibeom! E você, ó Lua, sobre o vale de Aijalon.’ […]. O Sol parou no meio do céu e por quase um dia inteiro não se pôs” (Josué 10:12, 13). E Israel cumpriu sua tarefa com relação aos cinco reis que estavam a caminho da vitória.

A oração sincera de pessoas justas tem o poder de levar a natureza e o Deus da natureza a realizarem os seus desejos desinteressados, a fim de cumprirem a tarefa que lhes foi confiada por Ele. “O Espírito de Deus inspirou a oração de Josué, para que de novo se pudesse dar prova do poder do Deus de Israel […] Josué recebera a promessa de que Deus certamente subverteria aqueles inimigos de Israel; contudo, aplicou tão decididos esforços como se o êxito dependesse unicamente dos exércitos de Israel. Fez tudo que a energia humana podia fazer, e então pela fé clamou rogando auxílio divino. O segredo do êxito está na união do poder divino com o esforço humano. Aqueles que levam a efeito os maiores resultados são os que mais implicitamente confiam no Braço todo-poderoso[…] Os homens de oração são os homens de poder.”5

UM HOMEM CHEIO DE GRATIDÃO E RECONHECIMENTO

A vida de Josué foi um exemplo perfeito de gratidão e reconhecimento. Aconteceram muitas coisas desde o tempo em que ele se tornou membro do grupo que Moisés enviou para espiar a Terra Prometida. Ao se aproximar do fim de sua vida vitoriosa, ele poderia ter celebrado a bondade e a fidelidade de Deus de mil maneiras. Mas um homem que estava entre a imensa multidão do povo de Deus que estava na Terra Prometida apareceu diante de Josué e fez um simples pedido. A súplica desse homem de 85 anos ativou a memória de Josué.

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Não que Josué realmente tenha se esquecido, mas mesmo os santos precisam de lembretes ocasionais. Calebe ficou em pé diante de Josué e lembrou-o daquele dia em Cades Barneia, cerca de 45 anos antes, quando os dois apenas fizeram um relatório de fé a respeito da terra de Canaã, enquanto os outros dez deram um relatório negativo, com medo, e um pedido para retornarem ao Egito (Números 13:25 a 14:4). Esse apelo à memória incluiu uma lembrança da promessa de Moisés a Calebe: “Certamente a terra em que você pisou será uma herança perpétua para você e para os descendentes, porquanto você foi inteiramente fiel ao Senhor o meu Deus” (Josué 14: 9).

Josué era um homem forte – não apenas fisicamente, mas também mental e espiritualmente. No auge de seu poder e glória, ele poderia ter facilmente arrumado muitas desculpas que seres humanos comuns dariam: alegam desconhecimento, empurram sempre um colega para a terra do esquecimento, ou simplesmente encaminham o caso para uma referência social. Mas este é Josué, um homem que nunca se esqueceu de seu Deus ou de Seus servos. E Calebe era um nobre servo, que fez um pedido: “Dê-me, pois, a região montanhosa” (Josué 14:12). Sem hesitação, Josué honrou o pedido de Calebe. As Escrituras acrescentam uma nota poderosa: “E a terra teve descanso da guerra” (Josué 14:15). Com Josué e Calebe, juntos celebrando o prêmio de Hebron para a posteridade, a missão de Israel desde a terra da escravidão à terra da aliança estava cumprida.

UM LEAL SERVO DE DEUS

O ministério de Josué termina com uma poderosa história de consagração e afirmação. Ele tinha 105 anos quando convocou uma “sessão da Associação Geral” para a sua aldeia, a aldeia de Siquém, com todos os anciãos, chefes, juízes e oficiais de Israel. O discurso de despedida de Josué para eles foi uma retrospectiva, um aviso e um apelo (Josué 23, 24). Ele analisou tudo o que Deus havia feito por Israel desde a época em que o povo deixou o Egito até à ocupação da Terra Prometida – seus altos e baixos; suas traições e seu retorno a Deus; suas raízes desde Abraão; seu sistema único de leis, a aliança e o santuário; sua marcha para a liberdade e a herança da Terra Prometida.

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Josué também colocou diante deles uma advertência com relação aos juízos de Deus, caso se afastassem de Sua lei e de Seu serviço. Finalmente, o líder fiel colocou diante dos demais líderes de Israel seu único apelo: “Agora temam ao Senhor e sirvam-nO com integridade e fidelidade” (Josué 24:14). Como parte desse apelo, ele, diante dos representantes de todo Israel e diante de Deus, fez a sua última reverência e prometeu: “Mas eu e a minha casa serviremos ao Senhor” (Josué 24:15).

Nenhum comentário mais oportuno sobre a vida e liderança de Josué pode ser expresso de melhor forma que o inspirado tributo prestado por Ellen Gould White ao filho de Nun: “A obra de Josué em prol de Israel estava finalizada. Havia seguido inteiramente ao Senhor, e no Livro de Deus ele é chamado: ‘O servo do Senhor’. O mais nobre testemunho em favor de seu caráter como líder público é a história da geração que fruíra seus labores: ‘Serviu, pois, Israel ao Senhor todos os dias de Josué, e todos os dias dos anciãos que ainda viveram muito depois de Josué’ (Josué 24:31 – ARA).”6

Reymand M. Hutabarat PhD pelo Adventist International Institute of Advanced Studies, Silang, Cavite, Filipinas, é professor de Teologia e presidente da Universidade Adventista da Indonésia, em Bandung, Java Oeste, Indonésia. E-mail: marasitua@yahoo.com.

Fonte: https://dialogue.adventist.org/pt/2864/josue-modelo-de-lideranca

NOTAS E REFERÊNCIAS

  1. Ellen Gould White, Educação (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1996), p. 57.

  2. White, Patriarcas e Profetas (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1995), p. 481.

  3. Ibid,/i>., 487.

  4. Ibid., 493.

  5. Ibid., 509.

  6. Ibid., 524.

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