ANÁLISE BÍBLICA DA DISTINÇÃO ISRAEL/IGREJA


Como esta importante coluna da hermenêutica dispensacionalista-futurista se comporta à luz da mensagem bíblica total? Se for constatado que o Antigo e o Novo Testamento jamais sustentam tal distinção, o próprio fundamento do dispensacionalismo e suas opiniões futuristas de Israel serão destruídos.

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Significaria, em segundo lugar, que a projeção de eventos a serem cumpridos por meio do “Israel natural”, no futuro próximo na Palestina, ou no futuro distante durante o milênio na Terra, não tem fundamento bíblico. Uma terceira inferência é que se a separação radical de Israel e igreja não se sustenta, então todo o conceito de uma Era da Igreja com sua lacuna ou parêntese careceria do apoio que para ele é reivindicado. Em quarto lugar, toda a ideia do “rapto secreto” seria rebaixada,[1] uma vez que a mesma está ligada à distinção entre Israel e a igreja. Evidentemente, os riscos são altos. Examinemos cuidadosamente as principais evidências bíblicas.

Bíblia Sêfer

ISRAEL NA BÍBLIA HEBRAICA

Nossa atenção deve voltar-se para a Bíblia Hebraica. É nela que encontramos o nome “Israel” pela primeira vez.  A designação “Israel” tem várias conotações.[2] Este fato em si, como veremos, é um elemento importante que vai contra a afirmação do futurismo e do dispensacionalismo de que o uso da designação é especialmente uniforme ao longo do Antigo Testamento.

UMA PESSOA

Para começar, “Israel” é o nome dado ao patriarca Jacó: “Já não te chamarás Jacó e sim Israel, pois como príncipe lutaste com Deus e os homens e prevaleceste”(Gn 32:28). Sua luta “com Deus”, e “com o anjo” (Os 12:3-4), “simboliza a nova relação espiritual de Jacó com o Eterno e representa a reconciliação de Jacó por meio da graça perdoadora de Deus.”[3]

Resumindo, o uso inicial do termo “Israel” na Bíblia faz dele um termo para uma pessoa, um indivíduo, e não um povoou uma nação.[4] Jacó é caracterizado e identificado por meio de uma relação de fé com Deus. Não há nada na primeira parte da Bíblia que torne Israel exclusivamente ou regularmente um termo para uma nação ou povo. Não há também nenhuma ênfase sobre linhagem física ou étnica. “Israel” é um termo para uma pessoa que expressou uma verdadeira resposta de fé e relação de fé com o Deus da aliança.

Essa primeira conexão entre “Israel” e fé dificilmente é acidental. Parece preparar o terreno para o que deve seguir-se Antigo Testamento.

DESCENDENTES DE JACÓ

No livro de Gênesis há 43 utilizações do nome “Israel”. Destas, 29 se referem a Jacó, um indivíduo. Os usos restantes mencionamos “filhos de Israel” no sentido dos “filhos de Israel/Jacó”. “As tribos de Israel” são usadas duas vezes (Gn 49:16, 28).

Jacó indo para o Egito

No livro de Êxodo o patriarca Jacó é mencionado duas vezes pelo nome “Israel”(Êx 6:14; 32:13). Em 41 exemplos, começando com Êx 4:22, o nome “Israel” é empregado para o Israel a ser redimido da escravidão egípcia.[5] Consistia na maior parte dos descendentes étnicos de Jacó, e, respectivamente, de Abraão.

COMPOSIÇÃO DE DESCENDENTES ÉTNICOS E UMA “MULTIDÃO MISTA”

No Êxodo os israelitas foram acompanhados por “um misto de gente” (Êx12:38). Isto revela que sua origem étnica não permanecia o fator exclusivo sobreo qual se constituía a entidade Israel no período pós-Êxodo. A totalidade do povo de Israel, constituída de descendentes étnicos juntamente com o “misto de gente” de descendentes não-étnicos, foi chamada a adorar a Deus (Êx 4:22, 23). Eles foram designados “Israel, seu povo” em Êxodo 18:1, e, posteriormente, como “a congregação do Senhor” (Nm 20:4). Assim, o termo “Israel” parece ser mais inclusivo do que mera a filiação étnica.

“NAÇÃO SANTA”

Deus chama Israel para ser uma “nação santa” (Êx 19:6). O termo “nação” ( gôy)não é típico de Israel no Antigo Testamento(cf. Dt 4:6-8). O termo típico usado para o povo de Deus no Antigo Testamento é “povo” (‘am).

Israel, porém, é chamado para ser uma “nação ( gôy). Isto é assim por causa da soberana eleição de Deus e não por causa de qualquer a filiação étnica ou mera linhagem.[6] Israel é um povo especial em sua eleição e não um “povo ‘secular’”.

Israel é uma comunidade de fé e a fé torna Israel essa comunidade especial.[7] Nesse Israel “o que importa não é a filiação étnica; o que importa não é o natural, mas muito singularmente seu relacionamento com o Eterno”[8]. Aqui nós encontramos mais uma vez o aspecto da fé como a noção fundamental do verdadeiro Israel de Deus.

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Todo este elemento de fé está radicado em Abraão, o pai dos fiéis, que é chamado da Mesopotâmia para Canaã (Gn 12:1-3).

Aqui também a promessa lhe é dada de que ele seria uma “nação” ( gôy). O termo “nação” ( gôy) é usado para “descrever um povo em termos de sua afiliação política e territorial”. [9]

O termo amplamente usado “povo” (‘am) para o antigo Israel é uma expressão típica para “consanguinidade e uma paternidade racial comum”.[10] O uso de ambos os termos para o antigo Israel (nação/povo) significa que Israel consistiria de uma população composta de relação de sangue e povo; ainda que faltando a relação de sangue, partilharia a mesma fé.

judeus de Bukharan 1890

Desse modo, Israel é uma entidade espiritual em harmonia com o desígnio de Deus para Abraão (Gn 12:1-3; 17:4, 5) e, assim, Israel saiu do Egito tanto como descendentes étnicos quanto como uma “multidão mista” ou um “misto de gente”. O verdadeiro Israel do passado deveria ser uma comunidade de fé onde a linhagem étnica jamais fosse o critério exclusivo para pertencer a Israel.

Fonte: Gerhard F. Hasel, Ph.D.

Capítulo do artigo: Israel na Profecia Bíblica.

Revista Parousia – 1º semestre de 2007. Unaspress.

 

[1] Para uma crítica do “rapto secreto”, veja Ladd, The Blessed Hope, 89=-104; Oswald T. Allis, Prophecy and the Church (Filadelfia: Presbiterian and Reformed Publ. Co. 1977), 181-91.

[2] Veja Gerhard von Rad, “Israel”, Theological Dictionary of the New Testament, 3:356-59; R. Mayer, “Israel, Jew, Hebrew, Jaco, Judah” New International Dictionary of the New Testament 2:304-16.

[3] Hans K. LaRondelle, The Israel of God in Prophecy (Berrien Springs, MI: Andrews University Press, 1983), 82.

[4] H.J. Zobel, “yisra’el” Theological Dictionary of the Old Testament, eds. J. Botterweck e H. Ringgren (Grand Rapids, MI: Eerdmans, 1990), 6:401.

[5] Ibid.

[6] A. R. Hulst, “’am/goj volk”, Theologisches Handworterbuch zum Alten Testament, eds. E. Jenni e C. Westermann (Zurique: Theologischer Verlag/Munich: Kaiser, 1976), 2:312-14.

[7] N. A. Dahl, Das Volk Gottes (Oslo, 1941), 19.

[8] Hulst, 315.

[9] R. E. Clements, “goy”, Theological Dictionaty of the Old Testament (Grand Rapids, MI: Eerdemans, 1975), 2:427.

[10] E. A. Speiser, “People’and ‘Nation’ of Israel”, Journal of Biblical Literature 79 (1960): 160-70.

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