MÉDICOS JUDEUS PORTUGUESES FUGIDOS DA INQUISIÇÃO 




Prof. Dr. Meraldo Zisman 
Psicoterapeuta, professor titular de Pediatria da Universidade de Pernambuco, membro da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores, da União Brasileira de Escritores e da Academia Brasileira de Escritores Médicos.  

A Medicina portuguesa era praticada, em sua maior parte, por profissionais de origem judaica ou moura. Decretada a Inquisição em Portugal, sobreveio a decadência da Medicina lusa, com a emigração de seus melhores profissionais, o que veio abalar, sobremaneira, o renome da Medicina ibérica.
O judeu-português Garcia de Orta, um destacado professor da Escola Médica de Goa, foi o médico mais afamado do século XVI. Vale registrar que, depois de morto e enterrado na Índia, os Inquisidores desenterraram seus restos mortais para queimá-los, em um abominável auto-de-fé lisboeta.
Eram médicos judeus portugueses os seguintes expoentes:

• João Rodrigues Castelo Branco (Amatus Lusitanus), homiziado na Antuérpia, foi catedrático de Medicina na Universidade de Ferrara. Entre seus pacientes encontrava-se o Papa Julius III;

• Daniel Fonseca foi para a França, onde se tornou o médico particular do Príncipe de Budapeste;

• Judah Abravanel refugiou-se em Nápoles, Genova e Veneza, tornando-se médico, físico e cientista de grande reputação;

• Filoteu Montalto asilou-se em Florença, tornando-se o médico particular do Duque Frederico, e sendo chamado, inclusive, para tratar a Rainha Catarina de Medicis;

• Jacob Mantinho refugiou-se na Itália, onde foi Professor de Medicina e médico do Papa Paulo III;

• Rodrigues da Fonseca foi professor de Medicina em Pisa e em Pádua (as mais famosas Escolas Médicas da Europa, que devem seu prestigio e fama aos refugiados judeus portugueses);

• Fabrísio de Água Pendente foi professor de Anatomia em Bolonha (ele descobriu as válvulas nas veias profundas das nossas pernas e coxas);

• Rodrigo de Castro asilou-se em Hamburgo e teve, entre seus pacientes, a Rainha Cristina, da Suécia;

• Fernando Mendes homiziou-se em Londres, tornando-se o médico particular da Rainha Catarina de Bragança, esposa do Rei Carlos II.

Entre tantos outros, aqueles foram médicos judeus portugueses de renome, que muito fizeram em prol da Medicina. Os seus exílios forçados foram decorrentes do anti-judaísmo que havia nos ramos científicos e nas humanidades.

No Castelo de São Miguel, em Guimarães, por exemplo, nasceu o primeiro rei de Portugal: D. Afonso Henriques. Ele escolheu um judeu português da família Egas Moniz, para ser seu conselheiro financeiro. Curiosamente, decorridos oitocentos anos, um descendente daquele Conselheiro Real receberia o Prêmio Nobel de Medicina (1949). Refiro-me ao Professor Egas Moniz, que jamais negou suas origens sefárdicas.

Com os primeiros Governadores Gerais, alguns médicos marranos chegaram ao Brasil-Colônia, uma vez que lhes era vetada a prática profissional em Portugal. Na época, ser médico era uma tarefa tão árdua que se dizia: é um “negócio de judeu”, ou uma “tarefa exercida, exclusivamente, por fugidos da Inquisição”.

Muito embora, no Brasil, o Tribunal da Santa Inquisição não houvesse se instalado, havia sempre os temíveis Visitadores do Santo Oficio e todo um aparato de opressão que prendiam e deportavam, para Lisboa, os médicos aqui homiziados, e denunciados por praticas judaizantes junto com suas famílias.

Os primeiros “médicos” que aqui chegaram eram, em sua maioria, cristãos-novos ou judeus desterrados pela Inquisição em Portugal. A prática da Medicina no Brasil-Colônia estava limitada a uma Medicina indígena, baseada em ervas e benzeduras, ou a uma Medicina “científica” baseada em sangrias, poções e religiosidades. De acordo com Lycurgo de Castro Santos Filho, historiador da Medicina foi judeu ou cristãos-novos quase todos os médicos que atuaram no Brasil, do século XVI até meados do século XVIII.

 Em 25 de outubro de 1448, por decreto do Rei D. Afonso V, Portugal regulamentou o exercício da Medicina e, ao mesmo tempo, criou a autoridade fiscalizadora. A lei intitulada “Regimento do Cirurgião-Mor dos Exércitos”, continuava em vigor, na época do Descobrimento do Brasil, e no início da nossa colonização.

O Mestre João (Johanes) Farras, físico-mor e astrônomo da armada comandada por Pedro Álvares Cabral, foi o primeiro cultor da Medicina a pisar em terras brasileiras. Era um judeu converso.

O marrano Jorge Valadares foi o primeiro médico diplomado que chegou à Bahia de Todos os Santos. Ele veio como físico-mor, na comitiva do primeiro Governador Geral (1549-1553). Foi sucedido por Jorge Fernandes, que também era judeu, e ocupou o mesmo cargo por três anos. (Citado por Bella Herson. Cristãos-novos e seus descendentes na medicina brasileira (1500-1800). A função social da Medicina e de sua formação é explicada pela estreita relação entre Saúde e sociedade. Não por ser médico e, muito menos, judeu, dediquei anos de estudo ao marranismo e aos médicos cristãos-novos. É como já dizia o Padre Antonio Viera: cristãos-novos/judeu-velhos.

A maioria dos médicos que vinha da Península Ibérica exercia o rabinato, tendo como ganha-pão os honorários auferidos por parte dos doentes, desde que, do ponto de vista religioso, era-lhe vetada qualquer retribuição pecuniária advinda do saber religioso.

Por fim, cabe salientar que, em 1950, a comunidade israelita de São Paulo, graças à moderna Medicina brasileira – herdeira de séculos de expressivas contribuições por parte dos judeus – instalou na cidade o Hospital Albert Einstein que é considerado, hoje, um dos principais hospitais da América Latina e a base para uma futura Universidade de Saúde.

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