As Escrituras e as Ciências da Terra


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Saara é uma imensa região do norte da África, que é caracterizada por um clima extremamente árido. Além de seu significado icônico, histórico e ecológico, o Saara é também objeto de grande interesse para os estudos ligados às ciências da Terra. Encoberta por grãos de areia, jaz uma enorme riqueza de informações sobre os processos geológicos, transformações na paisagem e mudanças no meio ambiente. Somando-se a isso, esse vasto ambiente desértico pode se constituir num análogo moderno para a interpretação de partes dos registros rochosos.

Neste artigo, o Deserto do Saara será usado para ilustrar os tipos de questões e desafios inerentes ao estudo da natureza e sugere uma abordagem geral sobre como relacionar o conhecimento da história da Terra derivado de fontes bíblicas e científicas.

A AREIA DO SAARA1

Embora o conceito popular quanto ao Saara seja provavelmente o de um vasto e contínuo mar de areia, na realidade, a areia cobre apenas 25% de toda a região. Os 75% restantes consistem, em sua maior parte, de áreas estéreis, das quais, sedimentos de grãos finos são levados pelo vento, e de terras mais altas, com maciços montanhosos superiores a três mil metros de altitude. Cerca de 30 mares de areia distintos (denominados “ergs”) fazem parte do Deserto do Saara, com extensões de areia que alcançam entre várias dezenas e até mesmo alguns milhares de quilômetros quadrados. Esses ergs estão, de maneira geral, localizados topograficamente em áreas de depressão, na direção do vento, ao longo das regiões montanhosas.

Os dados publicados sobre a espessura da quantidade de areia que cobre os campos são relativamente escassos, mas sugerem grande variabilidade, compondo-se de lençóis de areia muito finos, com menos de um metro, até dunas gigantes com 450 metros de altura.2 As direções predominantes do vento na região do Saara são controladas pelos padrões de circulação atmosférica na direção Norte-Sul, depois seguindo no sentido horário para a direção Este- Nordeste – Oeste-Sudoeste do Saara Ocidental.

AS QUESTÕES DAS CIÊNCIAS DA TERRA E OS MARES DE AREIA DO SAARA

Os mares de areia do Saara oferecem uma excelente ilustração sobre o tipo de questões e desafios encontrados na pesquisa sobre as ciências da Terra.

  • QUESTÕES RELACIONADAS AO PROCESSOO primeiro grupo de questões tem a ver com o processo. Como essas acumulações de areia se formaram? De onde vem a areia? O que controla a sua distribuição e o tipo de estruturas nas quais ela está organizada?

    O primeiro passo essencial para analisar as questões do processo é fazer uma cuidadosa descrição do objeto sob investigação. Os desafios nessa fase surgem das limitações intrínsecas ao processo de aquisição de dados e à complexidade do sistema em estudo. Por exemplo, os depósitos de areia do Saara podem ser investigados em escalas variadas, desde as imagens de varredura feitas por microscópio eletrônico da superfície dos grãos de areia individuais até às imagens por satélite em vastas áreas do deserto. Em todas as escalas, há o risco de deixar passar ou apresentar de forma inapropriada detalhes importantes. Uma vez que informações suficientes tenham sido coletadas, podem ser desenvolvidos os modelos para provar uma hipótese específica. Os modelos têm suas próprias limitações e suposições, e o resultado geralmente requer verificação em campo.

    O consenso com relação ao Saara é de que sua areia vem predominantemente da reacomodação dos sedimentos aluviais mais antigos depositados pela água, formados antes do estabelecimento das atuais condições áridas. Portanto, a geração dos grânulos de areia e sua acumulação pelo vento em grandes mares de areia foram processos distintos que ocorreram em duas fases, separadamente.3 O tamanho e a distribuição dos ergs acredita-se que sejam controlados pela localização dos terrenos montanhosos e das depressões topográficas, tornando-se, por sua vez, uma função das estruturas geológicas que afetam a crosta do continente Africano.4 Essas conclusões são, no entanto, relativamente genéricas ainda e necessitam de uma apuração mais substancial.

  • QUESTÕES RELACIONADAS AO TEMPOO segundo grupo de questões típicas da pesquisa sobre as ciências da Terra têm a ver com o tempo. No caso dos mares de areia do Saara, pode-se desejar saber quando e quanto tempo levou para se formarem, se sua formação foi repentina ou gradual e se consistiu de uma série de eventos específicos ou de um único grande evento.

    Questões de tempo são tratadas utilizando-se geralmente duas principais abordagens, conhecidas como datação relativa e absoluta. A datação relativa tenta estabelecer uma sequência de eventos, colocando-os em ordem relativa (ou seja, qual evento ocorreu primeiro, qual veio depois), mas sem atribuir a eles uma idade específica. A datação absoluta tem por objetivo atribuir uma idade específica para os eventos identificados (ou seja, tal evento aconteceu x anos antes do tempo atual).

    Um exemplo de datação relativa no Saara baseia-se na ocorrência de grandes dunas lineares e paralelas, sobre as quais estão sobrepostas dunas menores, em uma direção totalmente diferente.5 Como as dunas menores estão em cima das maiores, isso sugere que elas se formaram depois, sob um sistema de ventos diferente. No entanto, os cientistas estão interessados em saber quando exatamente cada geração de dunas se formou. Para chegar a essa datação absoluta, eles devem se apoiar em algum tipo de datação técnica, baseados em suas próprias suposições, o que apresenta limitações metodológicas. A luminescência opticamente estimulada, realizada nos grãos de areia, provavelmente seja a única técnica que possa ser aplicada diretamente nas dunas de areia do Saara para obter idades numéricas.6 Mais comumente, idades mínimas e máximas restritas podem ser obtidas pela aplicação da datação radiométrica em material compatível, não encontrado nas próprias areias, mas em outros elementos em contato com elas.

    O consenso corrente sobre algumas questões de tempo relativas aos mares de areia do Saara é o seguinte:

    1. A atual configuração do Saara como um deserto seco, com vastos mares de areia, parece ter sido estabelecida, relativamente, de maneira bem recente (na ordem de uns poucos milênios atrás), tendo sido precedidos por um tempo em que o Saara era uma região das mais verdejantes.7 As evidências para essa fase de um “Saara verde” incluem os vestígios de uma extensa rede de rios e regiões costeiras cheias de grandes lagos, agora soterrados sob uma cobertura de areia, mas visíveis nas imagens de satélite e confirmadas por observações em campo.8 Alguns estudos indicam que essa transição na paisagem pode ter sido bastante abrupta, com uma duração que pode ir de dezenas a centenas de anos.9
    2. Pode ter ocorrido uma série de flutuações entre os períodos úmidos e secos que afetaram a região do Saara. Entretanto, a grande maioria dos cientistas concorda que a maior parte dos ergs de areia se formou no auge da última glaciação e durante o descongelamento que se seguiu.10
    3. É difícil estabelecer precisamente quando teve início a tendência para a desertificação na região do Saara. No entanto, esse início é mais frequentemente considerado ser contemporâneo com a era glacial do Hemisfério Norte,11 desenvolvida ao longo da parte mais recente da história geológica.

QUESTÕES RELACIONADAS AO REGISTRO DAS ROCHAS

O objetivo final na geologia é a busca por métodos que possam ajudar a interpretar padrões gerais em formações rochosas. O estudo do meio ambiente atual pode ser útil nessa busca, pressupondo que os processos físicos atuaram de maneira semelhante no passado. Essa abordagem usando o presente para interpretar o passado é chamada de atualismo. O deserto do Saara, por exemplo, poderia representar um ambiente análogo moderno, bastante útil para a interpretação das espessas e abundantes formações de arenito, comumente consideradas como exemplos antigos de mares de areia formados pelo vento. Há, de fato, muitas lições aplicáveis às formações rochosas que podem ser aprendidas com base no Saara,12 mas parece haver diferenças significativas suficientes para servirem de alerta contra uma aplicação estrita do atualismo.13

AS SAGRADAS ESCRITURAS E AS CIÊNCIAS DA TERRA: DESAFIOS E OPORTUNIDADES

Estudiosos cristãos estão interessados em entender a relação entre o conhecimento obtido através das Sagradas Escrituras e o estudo da natureza. Ao fazerem perguntas sobre as questões da ciência relacionadas à Terra, por exemplo, os geólogos cristãos refletem a respeito do papel que a informação bíblica deve desempenhar em sua busca por respostas. Essa interação apre- senta tanto benefícios quanto desafios.

Ao avaliar questões relacionadas ao processo, por exemplo, há uma diferença fundamental entre a cosmovisão bíblica, na qual o Deus Criador está ativo na história, e as explicações naturalistas das origens que, por definição, excluem qualquer forma de atividade divina. Ter uma mentalidade aberta quanto ao envolvimento de Deus na natureza significa que Ele pode ter agido no passado produzindo efeitos diferentes daqueles que vemos hoje. Algumas passagens da Bíblia fazem menção explícita dessa forma de ação divina (por exemplo, 2 Pedro 3:3-6).

No entanto, a origem de muitos aspectos do registro geológico, inclusive o das dunas de areia do Saara, não é abordada de forma direta nas Sagradas Escrituras. A Bíblia não exclui a possibilidade de muito dessa matéria geológica ser o resultado de leis e processos regulares, através dos quais Deus sustenta o Universo.

Questões relacionadas ao tempo apresentam um tipo de desafio diferente. Atualmente, uma área de tensão entre o modelo bíblico e o naturalista da história da Terra está relacionada às idades absolutas obtidas através da datação radiométrica, que estão em conflito com a curta cronologia da vida na Terra, baseada nas genealogias bíblicas.14

No caso dos mares de areia do Saara, o conflito não é tão marcante, tendo em vista que as idades convencionais para as acumulações de areia variam em milhares e não em centenas de milhares de anos. Entretanto, a aridez progressiva da região do Saara é, na realidade, comumente apresentada como um processo que se desenvolveu ao longo de uma escala de tempo maior (alguns milhões de anos).

A Bíblia, no entanto, apresenta um bom quadro que pode servir de pano de fundo para a sequência relativa de eventos mais detalhados vistos no registro geológico. A Criação, a Queda e o Dilúvio são uma sucessão de marcos apresentados nas Escrituras, que nos ajudam a organizar as diferentes fases da história da Terra. No caso dos mares de areia do Saara, é provável que a sua formação tenha ocorrido na era pós-diluviana, devido à sua posição na parte superior da coluna geológica e à relação deles inferida como sendo da última era glacial.

Finalmente, um cientista cristão, ao aceitar o testemunho das Sagradas Escrituras sobre a intervenção de Deus na história passada da Terra, pode manter uma mentalidade aberta em relação aos aspectos dos registros geológicos incomuns e diferentes.15 Os processos e meio ambiente modernos ainda podem ser considerados valiosos para definir uma linha de base para comparação, todavia, uma aplicação excessivamente confiante dos princípios do atualismo deve ser evitada.

AS SAGRADAS ESCRITURAS E AS CIÊNCIAS DA TERRA: UMA INTERAÇÃO VALIOSA

Quando se leva em consideração a riqueza de informações e detalhes que podem ser extraídos do estudo do registro das rochas, os cientistas cristãos não podem deixar de interpretá-los como um convite divino para explorar e estudar a complexidade de um mundo que foi criado desde o princípio por um Deus que tudo dá em abundância.

Nós nos aventuramos nessa jornada fazendo uso da capacidade de raciocínio com a qual Deus dotou os seres humanos, porém, mantendo como fundamento o quadro histórico fornecido pela revelação bíblica.

Reconhecemos que as Sagradas Escrituras não apresentam muitos detalhes da história da Terra e do funcionamento do mundo físico. Mesmo assim, acreditamos que uma das intenções dos autores bíblicos era fornecer informações factuais e precisas a respeito da origem da história humana e do nosso mundo. A Bíblia não especifica quando nem como os mares de areia do Saara foram formados, mas nos fala de uma criação recente de seis dias e de uma subsequente inundação universal.

Na área cristã, é possível encontrar diferentes pontos de vista sobre qual é a importância e quanto peso deve ser colocado em aspectos específicos do texto bíblico. Isso quer dizer que, quando lemos a Bíblia, temos uma escolha a fazer sobre o valor que vamos atribuir à Palavra de Deus: Ela fornece informações históricas precisas? Os eventos descritos são reais? Podemos confiar nos detalhes? Descobri que, quando respondemos afirmativamente a essas perguntas, as Escrituras esclarecem poderosamente as questões sobre a nossa existência, sobre o caráter de Deus e Sua interação com os seres humanos no decorrer da história.

Na Bíblia, podemos descobrir não somente um fundamento teológico, mas também uma estrutura para organizar as observações, tais como a evidência do design, a complexidade e a vastidão do mundo físico, nossa capa- cidade de raciocinar e compreender como este mundo funciona e o complexo arquivo da história passada, que está encerrado nos registros rochosos. Quando operamos dentro dessa estrutura com sabedoria e humildade, é possível permitir que a ciência e as Sagradas Escrituras coexistam respeitosamente em nossa busca por conhecimento e significado, mesmo quando ainda permanecem questões a serem respondidas. Há muita coisa que podemos aprender com o estudo da natureza, conforme exemplificado pelas dunas do Saara. Que a nossa escolha seja assimilar esse aprendizado dentro do contexto de um vibrante relacionamento com Deus.

Como são preciosos para mim os Teus pensamentos, ó Deus! Como é grande a soma deles! Se eu os contasse seriam mais do que os grãos de areia. Se terminasse de contá-los, eu ainda estaria Contigo. ―Salmo 139:17, 18

Ronny Nalin PhD pela Universidade de Pádua, Pádua, Itália, é cientista associado no Geoscience Research Institute, Loma Linda, Califórnia, EUA. É também membro do corpo docente do Earth and Biological Science Department na Universidade de Loma Linda, Loma Linda, Califórnia, EUA

Fonte: Revista Diálogo Universitário,

NOTAS E REFERÊNCIAS

  1. A maior parte baseada em Arthur S. Goudie, Great Warm Deserts of the World: Landscapes and Evolution (New York: Oxford University Press, 2002).
  2. I. G. Wilson, “Ergs,” Sedimentary Geologya 10:2 (1973): p. 88-91, 93, 103, 104.
  3. Ibid., p. 84, 85; F. El-Baz, “Sand Accumulation and Groundwater in the Eastern Sahara,” Episodes 21:3 (Setembro de 1998): p. 147-151; Gary Kocurek, “Limits on Extreme Eolian Systems: Sahara of Mauritania and Jurassic Navajo Sandstone Examples.” In Extreme Depositional Environments: Mega End Members in Geologic Time, Marjorie A. Chan e Allen W. Archer, eds. (Boulder: Geological Society of America Special Paper 370, 2003), p. 43-52.
  4. Wilson, “Ergs,” Sedimentary Geology, 81‒84; M. Williams, “Geology”. In Key Environments: Sahara Desert, J. L. Cloudsley- Thompson, ed. (Oxford, U.K.: Pergamon Press, 1984), 31‒39; Goudie, Great Warm Deserts of the World, 105, 106.
  5. Nicholas Lancaster et al., “Late Pleistocene and Holocene Dune Activity and Wind Regimes in the Western Sahara Desert of Mauritania”, Geology 30:11 (Noviembre de 2002): 991‒994.
  6. Juan Pedro Rodríguez-López et al., “Archean to Recent Aeolian Sand Systems and Their Sedimentary Record: Current Understandings and Future Prospects”, Sedimentology 61:6 (Abril de 2014): 1,518.
  7. Anne-Marie Lézine et al., “Sahara and Sahel Vulnerability to Climate Changes, Lessons From Holocene Hydrological Data”, Quaternary Science Reviews 30 (2011): 3001‒3012.
  8. Marc J. Leblanc et al., “Evidence for Megalake Chad, North- Central Africa, During the Late Quaternary From Satellite Data”, Palaeogeography, Palaeoclimatology, Palaeoecology 230 (2006): 230‒242.
  9. Peter deMenocal et al., “Abrupt Onset and Termination of the African Humid Period: Rapid Climate Responses to Gradual Insolation Forcing”, Quaternary Science Reviews 19:1‒5 (2000): 347‒361.
  10. C Swezey, “Eolian Sediment Responses to Late Quaternary Climate Changes: Temporal and Spatial Patterns in the Sahara”, Paleogeography, Palaeoclimatology, Palaeoecology 167:1‒2 (2001): 119‒155; Lancaster et al., “Late Pleistocene and Holocene Dune Activity”, 991‒994.
  11. Christopher Swezey, “Cenozoic Stratigraphy of the Sahara, Northern Africa”, Journal of African Earth Sciences 53 (Enero de 2009): 89‒121.
  12. Rodríguez-López et al., “Archean to Recent Aeolian Sand Systems”, 1512‒1522.
  13. Kocurek, “Limits on Extreme Eolian Systems”, 51; Rodríguez- López et al., “Archean to Recent Aeolian Sand Systems”, 1512‒1518.
  14. Para uma breve avaliação da datação radiométrica e suas implicações quanto à perspectiva criacionista, ver Geoscience Research Institute (GRI) postagem de blog “Radiometric Dating” (22 de julho de 2013), escrito por Ben Clausen e disponível em https://grisda.wordpress.com/2013/07/29/radiometric-dating/.
  15. Como exemplo dessa abordagem, ver a postagem no blog do GRIF: “Questions: Their Role in Discovery” (29 de agosto de 2016), escrito por Leonard Brand e disponível em: https:// grisda.wordpress.com/2016/08/29/questions-their-role-in-discovery/.
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