Lições da Vida de José no Egito


 

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Bonito, inteligente e de raciocínio rápido, ele era o filho favorito de seu pai. Mesmo sendo bem jovem ainda, tinha sonhos bastante estranhos; o mais estranho ainda é que ele tinha o dom de interpretá-los. Esse dom de prever o que estava para acontecer no futuro e os favores especiais de seu pai acenderam a chama do ciúme e da inveja entre seus irmãos. Seu pai lhe presenteou com uma túnica de várias cores, de grande valor, como demonstração de seu afeto especial – um presente que fez aumentar a inveja de seus irmãos. Entretanto, o ciúme e a desconfiança dos irmãos não foram capazes de desviar o foco que esse jovem mantinha em sua vida, nem de abalar a sua perseverante fé no Deus de seus pais.

Seu nome era José. Quando estava com 17 anos, seu pai o enviou em uma missão: ir ao encontro de seus irmãos que estavam longe de casa, cuidando dos rebanhos da família, e não costumavam demorar tanto tempo. Os invejosos irmãos o viram se aproximando e armaram um plano para acabar com ele. O plano teve várias reviravoltas, fazendo com que José fosse finalmente levado para o mercado de escravos do Egito e depois para a casa de Potifar (Gênesis 37, 38). Lá, embora o belo jovem fosse assediado dia após dia pela esposa de Potifar, a absoluta lealdade de José ao seu Deus prevaleceu – mas também fez com que ele fosse parar na prisão. Passados 13 anos, – durante os quais José suportou todo tipo de sofrimento e enfrentou muitas tentações, mas permaneceu sempre fiel à sua herança de fé e ao chamado de Deus nessa terra estrangeira – foi elevado a uma posição de autoridade e poder no Egito, abaixo somente de Faraó (Gênesis 41:39), que o recompensou por ter interpretado com sabedoria os sonhos que lhe perturbavam (Gênesis 41:14-46).

Colocando sua confiança em Deus para que lhe desse orientação e sábia liderança para ajudá-lo a dirigir os negócios da nação, tanto em tempos de prosperidade como de adversidade, José administrou a grande nação egípcia e alcançou o auge do poder e da administração. Passados 22 anos após ter deixado a casa de seu pai, suportando toda forma de traição, injustiça e tentações, José foi vindicado. Fez-se justiça e ele pôde estar novamente junto de seu pai e do restante de sua família pelos 17 anos que se seguiram.

Os anos de favoritismo não corromperam José. Os anos de sofrimento não abalaram sua fé. Os anos de poder e prosperidade não o tornaram um líder orgulhoso e egoísta.

NÃO FUI EU, MAS DEUS!

Quando Faraó chamou José para se apresentar diante de seu trono e lhe pediu para interpretar os sonhos que tanto o perturbavam, o rei reconheceu que havia algo de diferente nele: “Ouvi falar que você, ao ouvir um sonho, é capaz de interpretá-lo” (Gênesis 41:15).

José foi rápido em intervir e deixar as coisas bem claras: não permitiria que aquele momento fosse usado para orgulhar-se e ser exaltado. Ele transformou o elogio feito por Faraó – de que havia algo superior quanto à sua inteligência – em uma oportunidade para testemunhar a respeito do Deus de seus pais, em quem mantinha a sua fé: “Isso não depende de mim”, disse José, “mas Deus dará ao Faraó uma resposta favorável” (Gênesis 41:16).

As palavras de Faraó foram todas a respeito de José. Entretanto, em sua resposta ao reconhecimento de Faraó, José não enaltece a si mesmo. Ele poderia ter aceitado aquelas palavras e se alegrado com o reconhecimento que acabava de receber da mais alta autoridade do Egito. No entanto, respondeu: “Isso não depende de mim… mas Deus dará ao Faraó uma resposta favorável.” Em resposta à colocação de Faraó: “Nenhum outro, mas você”, José disse: “Não fui eu, mas Deus.

Para José, Deus era a fonte do conhecimento e o êxito lhe foi concedido por meio dEle. As Escrituras apresentam essa ideia claramente ao narrar a história de José. “O Senhor estava com José, de modo que este prosperou” (Gênesis 39:2). Esse mesmo pensamento aparece várias vezes: “Quando este percebeu que o Senhor estava com ele e que o fazia prosperar em tudo o que realizava” (verso 3); “o Senhor estava com José e lhe concedia bom êxito em tudo o que realizava” (verso 23). Assim, para José, andar com Deus era o segredo do sucesso. Ele afirmava que Deus é o único que desvenda os mistérios e realiza grandes coisas. Para o chefe dos copeiros, José disse: “Não são de Deus as interpretações? Contem-me os sonhos” (Gênesis 40:8). Ao rei, ele disse: “Deus revelou ao Faraó o que Ele está para fazer” (Gênesis 41:25), e “porque a questão já foi decidida por Deus, que Se apressa em realizá-la” (verso 42).

NÃO FORAM VOCÊS, MAS DEUS!

Se estar diante do Faraó e ser investido de autoridade sobre todo o Egito se tornaria a mais elevada experiência da carreira de José, o mais provável é que a sua pior experiência tenha sido quando seus irmãos o lançaram na cisterna seca (Gênesis 37:24). Ser caluniado pela esposa de Potifar e ser esquecido pelo copeiro-mor na prisão podem também ter sido motivos de grande amargura para José, mas essa forma de indignidade não lhe foi infligida por sua família. Agora, ser vendido como escravo por seus próprios irmãos representou para ele o cúmulo do ódio e da traição. Seus irmãos entenderam o que essa traição fez com José. Mais tarde, eles reconheceram: “Vimos como ele estava angustiado, quando nos implorava por sua vida, mas não lhe demos ouvidos” (Gênesis 42:21).

No entanto, José não imaginava que, ao ser vendido para o Egito, estava participando do plano de Deus para o cumprimento de seus próprios sonhos.

Na época em que José foi levado para o Egito pelos mercadores, seus sonhos não tinham sido explicados, nem cumpridos. Nos sonhos do copeiro, do padeiro e do Faraó, José pôde ver alguma indicação do futuro cumprimento. Entretanto, quanto aos seus dois sonhos, faltava algum simbolismo relacionado ao tempo. As 11 estrelas (Gênesis 37:9) não representavam 11 anos, como no caso do sonho de Faraó em que as sete espigas de trigo representavam sete anos de prosperidade no Egito (Gênesis 41:26). José tinha alguma ideia de quando o copeiro, o padeiro e Faraó veriam o cumprimento de seus sonhos, mas não tinha nenhuma pista sobre quando ou como seus sonhos iriam se cumprir. Foi somente quando seus irmãos foram ao Egito comprar alimento que ele “se lembrou dos sonhos que tivera a respeito deles” (Gênesis 42:9). Levou 22 anos para que José entendesse o significado de seus sonhos e visse seu cumprimento. Durante aqueles longos anos, José caminhou pela fé em Deus, pois “a fé é a certeza daquilo que esperamos e a prova das coisas que não vemos” (Hebreus 11:1).

Quando José revelou sua identidade a seus irmãos, eles “ficaram tão pasmados diante dele que não conseguiam responder-lhe” (Gênesis 45:3). Essa seria uma ocasião muito oportuna para José se vingar deles, mas ele tinha uma perspectiva diferente sobre o que havia acontecido 22 anos antes. Reconhecendo o curso da história de acordo com a perspectiva divina, ele disse: “Não foram vocês que me mandaram para cá, mas sim o próprio Deus” (Gênesis 45:8). Repetidamente, podemos ver José creditando os acontecimentos a Deus: Não foram vocês (ou: não fui eu), mas Deus! Sua experiência com Deus deu a ele uma nova e transformadora perspectiva com relação às suas experiências de vida. Por um lado, quando ele foi elogiado pelo Faraó e tentado a tomar a glória para si mesmo, sua resposta foi simples: “Não fui eu, mas Deus!” Por outro, a despeito da lembrança dos atos de crueldade de seus irmãos, ele foi capaz de dizer: “Não foram vocês, mas Deus!”

UMA VIDA EM MISSÃO

José viveu uma vida comprometida com a missão – a missão que lhe foi dada por Deus. Estar diante de Faraó era, sem dúvida, uma experiência única na vida, experiência essa que José poderia ter usado para benefício próprio – um palácio totalmente novo construído só para ele, toda uma vida de prosperidade e um futuro garantido para a família nômade de seu pai. José, porém, possuía uma base muito sólida e demonstrava ter fé inabalável na atuação de Deus em relação aos interesses humanos. Assim, ele aproveitou a oportunidade de estar diante de Faraó para dar testemunho a respeito de seu Deus.

O testemunho deu frutos. No final da conversa entre José e Faraó, o rei reconheceu que foi Deus quem havia revelado o significado de seus sonhos a José (Gênesis 41:39). Faraó iniciou a conversa com José dizendo: “[…] não há ninguém tão criterioso e sábio como você” que possa interpretar o sonho, mas a finalizou com um teste- munho: “Deus lhe revelou todas essas coisas” (verso 39). Sobre isso, Ellen White escreveu: “O rei publicamente reconhecia que fora pela misericordiosa interferência do Deus de José que o Egito desfrutava abundância, enquanto outras nações estavam a perecer de fome.”1

A perspectiva de José, sempre orientada para a mis- são, é óbvia na resposta que deu a seus irmãos bastante assustados: “Agora, não se aflijam nem se recriminem por terem me vendido para cá, pois foi para salvar vidas que Deus me enviou adiante de vocês” (Gênesis 45:5).

Ellen White nos transmite a ideia da transição que há do “vender” para o “enviar” – uma mudança de perspectiva de vida. No passado, há 22 anos, José achou que estava sendo vendido como escravo pelo resto de sua vida. Não tinha ideia do que estava à sua frente. Agora, porém, ele sabia que era Deus que o tinha enviado. Na conversa entre José e seus irmãos, a palavra “enviar” (Shalach, em hebraico) ocorre pelo menos três vezes (Gênesis 45:5, 7, 8), como sendo Deus que enviou José. José disse também: “e [Ele] me fez” (sum ou sim, no hebraico), com o sentido de “tornar, pôr, colocar” (Gênesis 45:8, 9). Com os verbos “enviar” e “fazer, tornar, pôr”, há uma ênfase estrutural na resposta de José a seus irmãos (Gênesis 45:3-13) de que Deus o enviou ao Egito como um missionário:

A. “Deus me enviou adiante” (verso 5)

B. “Deus me enviou à frente” (verso 7)

C. “Não foram vocês […] mas […] Deus” (verso 8)

B’. “Deus […] me fez” (verso 8)

A’. “Deus me fez” (verso 9)

José compreendeu que Deus o havia enviado para torná-Lo conhecido entre os egípcios, como também para preservar a vida de Seu povo escolhido. José procurou fazer com que sua família, e todos nós também, entendêssemos e aceitássemos que Deus tem um propósito ao permitir qual- quer coisa que venha a acontecer ao longo dos caminhos da vida: “Foi para salvar vidas que Deus me enviou adiante de vocês” (Gênesis 45:5; cf. v. 7). Esse sim é o verdadeiro espírito de missão! Deus primeiro, sempre Deus!

“Como se habilitou José a efetuar um registro tal de firmeza de caráter, correção e sabedoria? – Em seus primeiros anos, havia ele consultado o dever em vez da inclinação; e a integridade, a singela confiança, a natureza nobre, do jovem, produziram frutos nas ações do homem. Uma vida pura e simples favorecera o desevolvimento vigoroso tanto das faculdades físicas como das intelectuais. A comunhão com Deus mediante Suas obras, e a contemplação das grandiosas verdades confiadas aos herdeiros da fé, haviam elevado e enobrecido sua natureza espiritual, alargando e fortalecendo o espírito como nenhum outro estudo o poderia fazer. A atenção fiel ao dever em todos os postos, desde o mais humilde até o mais elevado, estivera educando toda a faculdade para o seu mais elevado serviço. Aquele que vive de acordo com a vontade do Criador, está a assegurar para si o mais verdadeiro e nobre desenvolvimento de caráter.”2

ASSIM COMO JOSÉ, DEVEMOS SER NÓS TAMBÉM

A vida de José é um livro de lições inesgotáveis, mostrando-nos que Deus tem um propósito especial para a nossa vida – Ele nos enviou, onde quer que estejamos agora, para um propósito salvífico. Ao reconhecermos o curso da nossa história pessoal como uma missão vinda de Deus, nossa vida estará sempre centralizada nEle – Ele será o foco do nosso viver. Com esse espírito, para cada experiência alegre e gratificante que tivermos, poderemos dizer: “Não eu, mas Deus!” Da mesma forma, para cada situação de amargura, sofrimento e decepção que ocorrer em nossa jornada, não seremos levados a culpar outros, mas dizer: “Não foram vocês, mas Deus!”

Richard A. Sabuin PhD pelo Adventist International Institute of Advanced Studies [AIIAS], Filipinas, é diretor do Departamento de Educação, de Escola Sabatina e Ministério Pessoal para a Divisão da Ásia-Pacífico Norte, com sede em Goyang Ilsan, Coreia do Sul. É também professor adjunto de Estudos Bíblicos no seminário do AIIAS, onde serviu anteriormente como reitor do seminário. E-mail: richard.sabuin@nsdadventist.org.

Citação Recomendada

NOTAS E REFERÊNCIAS

  1. Ellen G. White, Patriarcas e Profetas (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1995), p. 241.
  2. Ibid., p. 222.
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