B’rit Hadashah – Seria o NT uma fonte segura?


  As Escrituras do NT[i] chegaram até nós por mãos humanas… como também eles foram os responsáveis por transmiti-las por meio de cópias manuais para as gerações seguintes. Isso significa que, independentemente do conceito de inspiração ou providência divina que tenhamos, o NT atravessou os séculos pelos canais normais da história, e não por meios mágicos ou supra históricos. Ele não caiu pronto do céu, nem chegou até nós em placas de ouro, mas em livros comuns produzidos e reproduzidos à mão por pessoas comuns durante um período de aproximadamente mil e quatrocentos anos, até a invenção da imprensa. É por isso que é apropriado submetê-lo a um processo de investigação a fim de terminar o grau de confiabilidade de seu texto….

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            Comparados aos de hoje, os recursos de produção e reprodução literária na antiguidade eram muito precários, e também muitas foram as adversidades enfrentadas pela igreja, como desastres naturais (incêndios, terremotos, inundações), guerras e perseguições.

            Mesmo assim, cerca de 5.700 manuscritos gregos do NT chegaram até nós…cerca de 20.000 manuscritos das versões para grupos étnicos que não dominavam a língua grega universal, bem como os mais de 1.000.000 de citações feitas por antigos escritores cristãos, os chamados pais da igreja, então as testemunhas a favor do texto neotestamentário atingem números impressionantes.[ii]

            Quando examinados, porém, esses documentos conduzem a uma triste constatação, a de que o texto não permaneceu estável como gostaríamos que tivesse…é verdade que a grande maioria das variantes diz respeito a questões de pouca ou nenhuma importância. São variações na ordem relativa das palavras numa frase, no uso de diferentes preposições, conjunções e advérbios, nas preposições que acompanham determinados verbos, no uso ou não do artigo diante de nomes próprios, ou simples alterações de natureza gramatical…

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            É exatamente esse o campo de atuação da crítica textual. Ela se dedica ao exame criterioso da tradição manuscrita a fim de identificar as divergências, avaliar suas probabilidades e assim reconstruir o texto que melhor represente o original, ou a forma primitiva do autógrafo. Seu papel, portanto, é de fundamental importância entre as demais disciplinas bíblicas, pois ela lança as bases sobre as quais toda e qualquer investigação deve ser construída…

            O estudo dos materiais e técnicas empregadas na produção dos livros antigos é atribuição da paleografia, disciplina intimamente relacionada com a crítica textual…          

                Paleografia é o estudo da escrita antiga. O termo deriva das palavras gregas (παλιά) (“antigo”) e (γράψιμο) (“escrita”), e se aplica, em seu sentido mais eurocêntrico, às escritas em grego e latim, as duas línguas da antiguidade cuja vasta literatura ajudou a moldar a cultura ocidental; o grego e o latim são também as línguas que contam com o maior número de manuscritos neotestamentário.

            A paleografia estuda a escrita preservada em materiais portáveis e mais sujeitos ao desgaste, como papiro, pergaminho e papel. Os grafites com informações mais corriqueiras, como as que foram deixadas nas paredes de Pompeia ou nas catacumbas de Roma, também estão ligados à paleografia. Outras subcategorias são a epigrafia, que estuda as antigas inscrições gravadas em objetos fixos e duráveis, como pedra, osso ou metal, e a numismática, que estuda especificamente as moedas antigas, suas inscrições e símbolos.[iii]

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Três são os objetos da paleografia.

            O primeiro e mais elementar consiste apenas em permitir ao estudante ou pesquisador contemporâneo a leitura acurada de um texto antigo…

            O segundo é a datação de manuscritos e a identificação de sua procedência geográfica…

            Por fim, o terceiro objetivo da paleografia é o estudo dos atributos físicos dos manuscritos, incluindo-se o material, o formato, o processo de confecção, o estilo da escrita e uma série de outros detalhes, tais como colunas, iluminuras, títulos, subdivisões do texto, colofões, anotações marginais, correções e sinais críticos. Também chamado de codicologia (“estudo do códice”),[iv] esse nível do estudo paleográfico visa não apenas a proporcionar uma descrição detalhada do manuscrito mas também a rastrear sua história, ou seja, local em que foi produzido, seus possuidores e leitores, bem como os caminhos por ele percorridos até sua localização atual.  No caso dos manuscritos do NT, estudos codicológicos podem inclusive levar à reconstituição de importantes elementos da história cultural e social do cristianismo primitivo e medieval.[v]

Autor: Wilson Paroschi, Origem e Transmissão do Texto do Novo Testamento, SBB, parágrafos das págs 1-3.

[i] Novo Testamento, B’rit Hadasha, Nova Aliança.

[ii] É uma espécie de “constrangimento da fartura”, como declara Daniel B. Wallace (“Laying a Foundation: New Testament Textual Criticism,” em Interpreting the New Testament Text: Introduction to the Art and Science of Exegesis, eds. Darrell L. Bock e Buist M. Fanning [Wheaton: Crossway, 2006], 43)

[iii]  Mark D. McLean, “Palaeography,” ABD, 6 vols. (Nova York: Doubleday, 1992). 5:58-60. Há diversos manuais de paleografia Greco-latina disponíveis; entre os mais acessíveis estão B. A. von Groningen, A Short Manual of Greek Palaeography, 3ª. Ed. (Leiden: Sijthoff, 1963) e Metzger, Manuscripts of the Greek Bible, mas o mais completo continua sendo Edward M. Thompson, An Introdction to Greek and Latin Palaeography (Osford: Clarendon, 1912; reimpresso, 2002).

[iv] Para uma descrição mais detalhada da codicologia e sua controversa relação com a paleografia, veja David. C. Parker, Na Introduction to the New Testament Manuscripts and Their Texts (Cambridge: Cambridge University Press, 2008), 32-33.

[v] Para um estudo das características físicas e visuais dos antigos manuscritos cristãos (segundo e terceiro séculos) de uma perspectiva histórica em conexão com as origens cristãs, veja Larry W. Hurtado, The Earlist Christian Artifacts: Manuscripts and Christian Origins (Grand Rapids: Eerdmans, 2006).

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